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Van Dijk é o defesa mais caro do mundo, mas o seu peso não fica por aí: este calmeirão holandês de 1,93m (e 92kg) que trocou em janeiro o Southampton pelo Liverpool por mais de 80 milhões de euros é um dos mais possantes centrais em Inglaterra mas saiu projetado que nem uma flecha quando foi tentar aliviar uma bola encostado à linha na esquerda e levou um encosto (ou um empurrão até um pouco ostensivo, vá) do pequenito Raheem Sterling, com o seu 1,70m. Pareceu ser falta, o espanhol Antonio Mateu Lahoz deixou jogar e Gabriel Jesus inaugurou o marcador logo no segundo minuto de jogo. A missão impossível deixou de ser utópica e tornou-se um desafio.

Mesmo em part-time, Salah a presidente! (do Liverpool e, pelos vistos, do Egito)

Pep Guardiola preparou a equipa do Manchester City para o jogo de uma vida. E para a história: nunca um conjunto inglês tinha conseguido virar uma desvantagem de três golos em competições europeias. Assim, confirmou-se que, sem mexer no modelo de jogo, o espanhol apostou logo de início num sistema distinto com uma linha de três defesas (Kyle Walker, Otamendi e Laporte), um médio mais de recuperação (Fernandinho), dois elementos de construção (De Bruyne e David Silva), duas unidades a fazer os corredores como falsos laterais sem posse (Bernardo Silva e Sané) e dois avançados (Sterling e Gabriel Jesus), com constantes alterações para desposicionar a defesa adversária. Uma ideia difícil de defender para qualquer equipa, Liverpool incluído.

Os citizens não conseguiram materializar aquele balão de moral do primeiro golo, mas os números à passagem de meia hora não deixavam grandes dúvidas em relação ao jogo: além de terem quase 70% de posse de bola, os visitados foram os únicos a rematar nesse lapso temporal (4-0) e tinham mais do triplo de passes certos conseguidos (171-51). Mas havia um adversário maior do que a formação de Jürgen Klopp, que foi sempre incapaz de sair com aquelas transições venenosas que fizeram mossa no Dragão, por exemplo: o relógio.

Depressa e bem não é para todos, mas os últimos cinco minutos da primeira parte podiam levar a eliminatória empatada para o intervalo. Leu bem, empatada: primeiro foi Bernardo Silva, num movimento da direita para o centro com remate fortíssimo que bateu no poste da baliza de Karius; depois foi Sané, que chegou mesmo a introduzir a bola na baliza do Liverpool mas o lance acabou por ser anulado, ficando muitas dúvidas (ou a certeza que foi incorreta) sobre a decisão porque o avançado alemão acaba por vir de um corte mal feito de Milner e não de qualquer jogador do City. O ritmo estava eletrizante, e seria nesse contexto que os reds conseguiriam a primeira oportunidade do encontro, com Oxlade-Chamberlain, após combinação com Salah, a atirar ao lado na área.

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Quando Mateu Lahoz apitou para o descanso, vários jogadores do City saíram em direção ao espanhol para protestarem o lance do golo mal invalidado a Sané. Numa primeira instância, Pep Guardiola estava apenas a ver o que se passava, mas depois não aguentou e juntou-se também à onda de indignação. Com dois problemas: a falar a mesma língua do que o árbitro com quem se cruzou tantas vezes na Liga quando comandava o Barcelona (e de quem não guarda as melhores recordações, como contou a imprensa espanhola) e com gestos mais ostensivos do que os demais. Resultado? Acabou por ser expulso. E foi da bancada que viu os minutos passarem e o sonho tornar-se num pesadelo, tal como já tinha acontecido este sábado quando segurava o título de campeão antes de permitir uma fabulosa reviravolta do Manchester United (3-2) que adiou a festa.

O City perdeu critério na construção e profundidade nas ações ofensivas, enquanto o Liverpool, subindo as linhas de forma discreta, começou a ter aquilo que andou à procura sem conseguir no primeiro tempo: bola. Pelo menos a suficiente para travar o ímpeto adversário e criar a oportunidade que daria o empate, com Mané a surgir desmarcado após uma diagonal, o corte a ficar incompleto (e até pareceu em falta) e Salah, com muita classe, a picar a bola para o 1-1 que mudou por completo as características do encontro face à descrença que se apoderou dos visitados. Pior só mesmo aos 77′, quando Otamendi teve um erro proibido e Firmino fez o 2-1 para os reds.

O lugar de Pep Guardiola não está em risco (nem nada que se pareça), o espanhol pode mesmo ser campeão na próxima jornada apesar de defrontar em Londres o sempre complicado Tottenham, mas a comparação com Pellegrini já está a circular e não é famosa para o espanhol, que gastou mais de 300 milhões de libras em reforços para repetir o título na Premier League, cair na taça de Inglaterra e ficar-se pelos quartos da Champions (ganhou a Taça da Liga, Pellegrini somou duas em três anos). Uma noite para esquecer, quase tanto como a da antiga equipa Barcelona, que foi surpreendentemente eliminada pela Roma.

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