“A Maldição da Casa Winchester

A americana Sarah Winchester, viúva e herdeira do criador das lendárias espingardas Winchester de repetição, vivia convencida que a sua casa em San Jose, na Califórnia, era assombrada pelos espíritos das pessoas mortas por esta arma, e que a única forma de os aplacar era acrescentar novas divisões e alas à mansão, que esteve em permanente construção até á sua morte, em 1922. Os irmãos Michael e Peter Spierig, autores dos óptimos “O Último Vampiro” (2009) e “Predestinado” (2014), pegaram nesta história e transformaram-na num filme de terror, com Helen Mirren no papel de Sarah Winchester.

Em “A Maldição da Casa Winchester”, a administração da empresa contrata um médico (Jason Clarke) céptico para ajuizar do estado mental da senhora e decidir se ela está apta ou não para continuar á frente da Winchester, e este descobre que a casa é mesmo assombrada.  Desta vez, os manos Spierig não conseguiram mais do que um “ghost movie” servido por uma história arrevesada, que a meio do caminho já perdeu o mistério e  funciona à base de sustos fáceis e previsíveis, e tem alguns momentos involuntariamente cómicos. Nem Helen Mirren parece sequer muito convicta do que anda a fazer por ali toda vestida de negro.

“Ammore e Malavita”

Pensem em todos os clichés, lugares-comuns, situações feitas, personagens-tipo e rotinas narrativas dos filmes e das séries de televisão italianas sobre a Máfia, sobretudo a Camorra napolitana. Agora, pensem num filme que, além de os virar todos do avesso e gozar com eles, lhes acrescenta momentos musicais, e têm “Ammore e Malavita”, dos irmãos Antonio e Marco Manetti (ou Manetti Bros., como eles assinam), que além de cinema e televisão têm também bastante trabalho feito no sector dos telediscos, o que se nota bem aqui.

Só que para cada “gag” certeiro os Manetti falham dois, os números cantados e dançados acabam por fartar e “Ammore e Malvita” não consegue justificar a sua duração de quase duas horas e vinte minutos. Em 1997, a realizadora Roberta Torre já tinha tido a mesmíssima ideia em “Tano da Morire”, uma delirante comédia musical mafiosa passada em Palermo e premiada no Festival de Veneza desse ano, e concretizou-a de forma muito mais satisfatória — e em apenas 80 minutos.

“Soldado Milhões

Miguel Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa contam a história de Aníbal Augusto Milhais, o “Soldado Milhões”, herói da Batalha de La Lys, travada a 9 de Abril de 2018, quando ficou para trás durante o ataque alemão, cobrindo a retirada dos camaradas com a sua “Luisinha” (o nome que os soldados portugueses davam à metralhadora Lewis).  João Arrais e Miguel Borges interpretam Milhais nas duas épocas em que o filme se passa: nas trincheiras da Flandres e 25 anos mais tarde, em Valongo, a sua terra natal, onde vai ser homenageado e anda, com a filha mais nova, atrás de um lobo que lhe mata as ovelhas.

Paixão da Costa e Galvão Teles reconstituíram as trincheiras no Campo de Tiro de Alcochete, puseram os actores a fazer uma curta recruta, recriaram as fardas dos soldados do CEP (Corpo Expedicionário Português) a partir de fotos da época e arranjaram espingardas, metralhadoras e pistolas como as que as nossa tropas usaram na Flandres, para que tudo fosse o mais rigoroso possível. “Soldado Milhões” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.