Coreia do Norte

Há 150 mil operários norte-coreanos “escravos” do regime no exterior. “Desistimos da nossa humanidade”

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Pyongyang envia para o estrangeiro, sobretudo para a China e Rússia, mas também para a União Europeia, trabalhadores que depois são obrigados a financiar o regime, sobretudo o programa nuclear.

KCNA/AFP/Getty Images

A reportagem de investigação da BBC decorreu durante dois anos e foi emitida esta segunda-feira à noite. Segundo a estação britânica, estima-se que 150 mil norte-coreanos trabalhem no exterior como “escravos” — sobretudo na construção civil, como operários — sendo obrigados a repatriar parte do salário ganho para financiar o regime de Kim Jong-un.

À BBC, o antigo vice-embaixador da Coreia do Norte no Reino Unido, Thae Yong Ho, hoje exilado na vizinha Coreia do Sul, garante que o dinheiro financia, acima de tudo, “os luxos particulares da família [de Kim Jong-un], o programa nuclear norte-coreano e o exército”. “Se esse dinheiro tivesse sido utilizado para financiar o desenvolvimento económico pacífico o mundo seria um lugar bem melhor”, concluiu.

Segundo a estimativa da reportagem da BBC, o trabalho dos norte-coreanos fora do país renderá aos cofres públicos mil milhões de dólares.

A Rússia e a China, aliados económicos e políticos de Pyongyang, são aqueles que recebem mais trabalhadores norte-coreanos enviados pelo regime. Mas também na União Europeia, sobretudo na Polónia, há trabalhadores na mesma condição de escravatura, isto apesar das sanções impostas pelas Nações Unidas em janeiro e que proíbem norte-coreanos de trabalhar no exterior. Tendo a maioria dos países um prazo de dois anos para responder à imposição, muitos são os norte-coreanos a receber vistos de trabalho.

É precisamente na Polónia que a BBC encontra vários trabalhadores norte-coreanos, quase todos soldadores, num estaleiro de construção civil em Szczecin. A maioria não tem casa e vive mesmo no local. O responsável pelos trabalhadores norte-coreanos, um capataz igualmente natural da Coreia do Norte, explicou a rotina diária daqueles homens. “Os nossos homens estão na Polónia somente para trabalhar. Quando há prazos, trabalham sem pausas. Nas férias não têm remuneração. Não são como os polacos, que trabalham oito horas por dia e vão logo para casa. Nós não. Nós trabalhamos o que é preciso.”

À BBC, a embaixada da Coreia do Norte na Polónia garante que os seus operários cumprem a legislação polaca e todas as regras impostas pela União Europeia.

Em Valdivostock, na Rússia, a reportagem da BBC encontrou situações ainda mais extremas de escravatura. O único trabalhador que aceitou falar na reportagem, ainda que mantendo a sua identidade sob sigilo, garantiu: “Aqui, somos todos tratados como cães. Desistimos da nossa humanidade.” O mesmo trabalhador explicaria que a taxa do ordenado enviada para o regime norte-coreano é designada “compromisso revolucionário”. Os que não pagarem, têm que regressar ao país. A taxa ronda hoje, e todos os meses, 520 dólares.

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