Em Portugal desperdiça-se um milhão de toneladas de alimentos por ano. Mas um novo projeto desenvolvido pelo Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho descobriu um destino mais promissor para a comida que os portugueses mandam para o lixo e que acabaria nos aterros sanitários: a ideia é pegar na comida rejeitada pelas pessoas, extrair componentes saudáveis para o humano e criar novos produtos que a indústria alimentar possa usar no lugar dos químicos. Se este plano chegar a bom porto, a comida que compramos no supermercado vai tornar-se mais saudável. E a esmagadora pegada ecológica criada pela indústria alimentar também se reduz.

Desperdício alimentar. Quando o lixo não é lixo

Quem o explica ao Observador é António Vicente, professor e investigador responsável por este projeto: “Vamos imaginar uma empresa de polpa de fruta. A empresa utiliza a polpa de um tomate, por exemplo, mas há subprodutos ricos em nutrientes e com propriedades interessantes para os humanos que são rejeitados. O que nós queremos fazer é extrair componentes que são benéficos para a saúde humana e reutilizá-los, introduzindo-os noutros alimentos”. Isto significa que as cascas de batata ou de limão que são atiradas para o lixo podem dar origem a antioxidantes ou a corantes naturais que outras empresas podem usar como alternativa aos químicos artificiais que normalmente entram na receita dos alimentos.

De acordo com o Centro de Engenharia Biológica, os novos alimentos nascidos dos excedentes alimentares podem ser mais ricos em vitaminas, nutrientes e minerais. Atualmente, o projeto já consegue extraír componentes vindos de bagaço de uva, soro de leite, cascas de castanha, pele de tomate ou cascas de batata. O soro de leite, por exemplo, já deu origem a vários tipos de géis de proteína depois de ter sido rejeitado pelas fábricas de queijo. Esses géis proteicos são enriquecidos com vitaminas e minerais para depois serem vendidos novamente para as empresas da indústria alimentar: uma parte é utilizada da produção de alimentos energéticos úteis a desportistas de alto rendimento, enquanto outra parte pode ser aplicada em revestimentos para proteção de produtos alimentares, como os queijos ou a charcutaria. “A nossa ideia é ir um pouco mais além e aplicar esta ideia a outros setores, como o da saúde e da cosmética”, conta António Vicente.

Este plano “permite criar produtos alimentares muito pouco processados”, explica o investigador, além de “possibilitar o reaproveitamento dos biorrecursos existentes”, concretiza a Universidade do Minho na página dedicada aos projetos que tem em andamento. E não é apenas o corpo humano que beneficia com esta reciclagem alimentar: o facto de se aproveitar os recursos armazenados nas partes dos alimentos que normalmente são mandados para o lixo, como o que acontece no setor do vinho e dos frutos, os níveis de eficiência ecológica deste projeto ultrapassa os 95%.