“São quase stories do Instagram mas mais lo-fi. É uma forma de dizer às pessoas: eu estou aqui e esta é a minha vida. É uma tentativa de passar um bocadinho da verdade, do que está por trás, do que as pessoas não veem. De passar a minha verdade”. É assim que Janeiro explica o teledisco da canção “(sem título)”, que compôs para o Festival da Canção e que vai incluir no seu primeiro álbum, que chegará “muito em breve”. Pode vê-lo aqui, em primeira mão.

O teledisco apresenta vários momentos recentes da vida do músico, captados com uma camcorder (câmara portátil e digital). Há excertos de Janeiro na praia, a olhar para o mar, a conduzir, a conversar, a tocar — sozinho e com Salvador Sobral. Há imagens de amigos, do céu e de Lisboa. “Tentei passar o que me identifica enquanto jovem contemporâneo e urbano a viver nesta cidade, a confusão mental que é viver aqui, as pessoas todas… porque viver numa cidade é muito estranho, acho que as pessoas muitas vezes não pensam sobre isso”, diz.

Adoro Lisboa, a questão não é Lisboa, acho é que a vida urbana contemporânea é um bocado surreal. Para além da efemeridade dos momentos na cidade, as pessoas parecem autómatos”, conclui.

O gosto por registar em filme os momentos que vive chegou-lhe através de um amigo, Diogo Ferreira, realizador das janeirosessions!, sessões de encontro musical entre Janeiro e convidados (Miguel Araújo, Salvador Sobral ou Ana Bacalhau) gravadas e publicadas no canal do músico no Youtube. “Ele tinha a mania de andar sempre à minha volta com uma camcorder”, conta Janeiro. “Andava sempre atrás de mim, íamos sair e jantar a algum lado e ele estava a filmar as pessoas, a filmar tudo… eu já era viciado em gravar sons de vários momentos, conversas e tal. Depois pensei: porque é que não compro também uma câmara e começo a filmar os meus próprios momentos?”, acrescenta.

O primeiro álbum de Janeiro, que ainda não tem data de edição definida mas que deverá ser chegar às lojas nos próximos meses, será um álbum visual, com imagens a acompanhar a música do disco. “A estética do álbum visual vai ser uma estética de camcorder. A minha ideia para unir o álbum, além do som da minha voz, é pegar na fragmentação da minha vida, as muitas coisas, e uni-las através disso [imagem].”

[A entrevista de Janeiro depois de passar à final do Festival da Canção:]

Janeiro já tinha o álbum quase terminado quando concorreu à última edição do Festival da Canção, em que terminou como quarto mais votado e único integrante do top 10 que compôs e interpretou a canção que levou a concurso (entre os 14 finalistas, além dele só o 11º mais votado, Peter Serrado, compôs e cantou). A decisão de incluir o tema no disco foi “um statement“, para “as pessoas perceberem que estava ali a apresentar-me como artista e que me identifico com a canção artisticamente. Tinha que a pôr no álbum para levar esse statement até ao fim”.

A letra no fundo é a história de uma relação. Dá para perceber que é uma história de duas pessoas, em que eu estou a perguntar de que é que me serve estar numa cidade incrível se a outra pessoa não está por perto. Eu quando digo ‘conduzimos dias a fio / naquela estrada perdida” estou a falar em estar a a andar e estar a levar a vida com uma pessoa. E quando digo ‘e não chegámos nunca / porque a viagem era o destino’ estou a dizer que o que interessa não é onde se vai chegar, é celebrar o que se está a fazer naquele momento, no presente”.

Antes de editar o álbum, Janeiro vai dar dois concertos no mês de maio: dia 19 no Museu da Música, em Lisboa e a 23 no palco café-concerto do Teatro Municipal de Vila Real. As duas atuações servirão de aquecimento, “para testar ao vivo uma última vez alguns dos temas que vão estar no disco”. Os concertos, adianta, “vão ser a solo, o que faz com que fique um bocadinho reticente. Eu adoro tocar a solo mas gostava de já poder mostrar às pessoas como é que vai ser o disco com banda… mas vão ser datas fixes, vai ser porreiro”, conclui.