O chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif, avisou Donald Trump que se cumprir a ameça de cancelar o acordo nuclear que Washington assinou com Irão em 2015, os Estados Unidos vão ter de “sofrer as consequências”.  O iranino avisa, desde já, que essas consequências “não serão agradáveis” para Washington e admite retomar o programa de enriquecimento de urânio. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano falava em entrevista ao The Guardian durante uma visita de seis dias a Nova Iorque, onde tem como um dos pontos principais da agenda um encontro com o secretário-geral da ONU, António Guterres. A Administração Obama assinou um acordo com o Irão em 2015, em que decidia travar o seu programa nuclear em troca do levantamento de sanções económicas. Trump diz que quer acabar com o acordo a 12 maio.

No próximo mês estava previsto, no âmbito do acordo nuclear, que os EUA suspendessem um conjunto de sanções ao Irão. Trump ameaçou não o fazer. Se isso acontecer, a probabilidade de Teerão se manter no acordo (que inclui também países europeus) é “altamente improvável”. Uma das opções em cima da mesa, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, é mesmo sair do acordo e retomar o programa nuclear.

Numa entrevista concedida ao The Guardian na residência oficial do Irão em Nova Iorque, com vista para o Central Park, Zarif admitiu que a Administração Trump tem sempre a “opção de matar o acordo, mas vão ter que sofrer as consequências (…) Nós vamos depois tomar a nossa decisão com base no nosso interesse e segurança nacional quando chegar a hora”. E subiu o tom da ameaça: “Mas seja o que for, não será muito agradável para os Estados Unidos, isso posso dizer desde já“.

Trump anunciou em janeiro que se recusaria a assinar a dispensa de sanções a 12 de maio a não ser que o Irão aceitasse uma série de novas restrições.  Agora, Zarif deixa claro que o Irão não está disposto a aceitar novas exigências e acusa Washington de estar a violar o acordo há mais de um ano. “Não acho que um país que tem violado o acordo pelo menos ao longo dos últimos 15 meses esteja em condições de fazer novas exigências“, acusou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

O plano (Joint Comprehensive Plan of Action — JCPOA) foi assinado entre os P5 (os cinco países com assento no Conselho de Segurança da ONU — Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), a Alemanha e o Irão, tendo também o acordo da União Europeia.

Os países europeus têm tentado convencer Trump a salvar o acordo, mas Zarif não tem grandes esperanças que isso aconteça e adverte que esta postura da administração norte-americana é uma ameaça à paz global. “Os EUA [ao dizerem que não querem o acordo] estão a enviar uma mensagem muito perigosa para o povo iraniano e para o resto do mundo”, diz o iraniano, que acrescenta que “a situação criou uma impressão generalizada que os acordos não importam”.

Como lembra o The Guardian, o regime iraniano tem sido duramente criticado nos últimos meses pelo seu ao apoio ao presidente sírio, Bashar al-Assad, que é acusado de matar milhares de civis e de utilizar armas químicas contra seu próprio povo. Já Zarif justifica que o envolvimento do Irão na Síria não tem como objetivo ajudar Assad,  combater grupos extremistas como o Estado Islâmico.

Zarif disse ainda que não há provas suficientes que Assad tenha mesmo feito um ataque químico na cidade síria de Douma, ignorando as questões dos jornalistas sobre o facto de inspetores internacionais terem sido impedidos de aceder ao local. Quanto à constratação de bases militares permanente na Síria e sobre se se estava a preparar para um conflito com Israel, o ministro dos Negócios Estrangeiros negou que existissem bases iranianas no país. Negou ainda que o Irão utilizasse drones em espaço aéreo sírio.