Há boas razões para ir a Matosinhos, para além dos seus excelentes restaurantes de marisco e peixe. A Casa do Design e a Casa da Arquitectura, duas instituições muito recentes, tornaram-se num ápice pólos com uma capacidade expositiva que não passa despercebida, tanto mais que servem de complemento directo ao ensino na dinâmica Escola Superior de Artes e Design, da mesma cidade.

“Portugal Imaginário: turismo, propaganda e poder 1910-1970” — na Casa do Design, até 1 de Setembro (curadoria de José Bártolo e Sara Pinheiro) — é a prova provada de que um centro cultural e uma escola superior podem e devem viver paredes meias e estar atentos ao ar do tempo, e desse modo mostrar ou demonstrar que o design toca tudo o que está à nossa volta. Pelo seu lado, a exposição “Os Universalistas: 50 anos de arquitectura portuguesa” — na Casa da Arquitectura, até 19 de Agosto (curadoria de Nuno Grande) — é vista no nosso país pela primeira vez, dois anos depois ter celebrado, na Cité de l’Architecture e du Patrimoine, da capital francesa, meio século da delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua arrojadíssima montagem, pelo açoriano José Albergaria (atelier Change Is Good) e por Jean-Benoît Vétillard, premiado arquitecto normando de 33 anos apenas, é por si mesma uma impactante lição do que design expositivo possa fazer, o que aproxima ainda mais estas duas instituições de Matosinhos. E já a partir de 10 de Maio haverá na Casa do Design a primeiríssima celebração dos 250 anos da Impressão Régia (actual Imprensa Nacional): a exibição de variada e nalguns casos imponente maquinaria tipográfica, complementada por espaços educativos e de experimentação oficinal e artística (atentos, portanto, ao crescente interesse de jovens artistas e estudantes por estas coisas supostamente arcaicas ou “artesanais”), e que terá como epicentro e herança um imponente catálogo de 300 páginas com estudos históricos e técnicos assinados por especialistas de diferentes gerações e competência, que promete tornar-se um assinalável marco editorial para a história das artes gráficas no nosso país.

Fundada em 2016, a Casa do Design de Matosinhos tem sido, aliás, muito lúcida na sua programação expositiva, ao pretender atrair, unir e fidelizar públicos que, entre popular e erudito, se diria pouco compatíveis: “Discos Orfeu 1956-83”, “Motos de Portugal”; “500 capas de livros” (por ocasião de um festival literário internacional na cidade) têm movido, além de professores da ESAD, como José Bártolo, Sara Pinheiro, Emanuel Barbosa, Rúben Dias e Sofia Meira, a colaboração de designers-coleccionadores como Jorge Silva e Francisco Providência. O italiano Vico Magistreti também já ali foi homenageado, há pouco tempo.

Quando o quotidiano das pessoas nas grandes cidades portuguesas parece cada vez mais marcado pela presença de visitantes ou novos residentes estrangeiros, proporcionar uma perspectiva histórica quase centenária de como o design de comunicação esteve ao serviço do turismo e da auto-representação nacional, em guias turísticos, mapas locais e regionais, folhetos de propaganda, anúncios publicitários — e toda uma parafernália de objectos produzidos com essa finalidade, como um puzzle da Majora dirigido às crianças ou os bonecos regionais de madeira pintada, concebidos por Piló e Thomaz de Mello —, é ao mesmo tempo prestar um bom serviço de educação geral, ensinar história do gosto e diacronia dos meios técnicos, e também, o que não é pouco, lembrar e sublinhar a qualidade do trabalho de artistas plásticos portugueses e das nossas oficinas gráficas.

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A curadoria não é só a ciência ou a arte de tratar um determinado assunto, é também a capacidade de perceber a sua actualidade, relevância e oportunidade. E se dúvidas houvesse de que o tema turismo e propaganda estão na ordem do dia, atente-se, por exemplo, na pequena mas ilustrativa mostra de publicações portuguesas de turismo que esteve há pouco tempo patente no hall da biblioteca de arte da Fundação Gulbenkian — um lugar muito visitado —, demonstrando que colaboração plástica de grande qualidade foi dada por diferentes gerações de artistas a esse tipo de edições, para boa surpresa de locais e visitantes de ocasião (um guia de Lisboa ilustrado por Maria Keil em 1954 está presente em ambas).

A exposição na Casa do Design também denota uma atenção subtil à produção académica sobre turismo e propaganda política, a qual tem crescido ultimamente, como já tivemos oportunidade de recensear neste jornal. Aliás, poucas horas antes da inauguração da exposição de Matosinhos, Paula André — professora e investigadora do ISCTE — apresentou no Centro Português de Fotografia, do Porto, uma extensa, muito documentada e interessantíssima palestra multimédia sobre “O valor patrimonial do Portugal gráfico construído pela fotografia editada (1934-48)”, em que enquadrou internacionalmente o trabalho da agência dirigida por António Ferro e percorreu publicações de todo o tipo dedicadas ao elogio da “fotogenia da terra portuguesa” e à representação de um país afinal idealizado (ou, precisamente, imaginário, isto é, com imagens ideais), repartido entre tradição e progresso, entre ruralidade arcaica e a modernidade urbana expressa em obras públicas de grande efeito.

Para trazer cada vez mais a público materiais úteis à reavaliação da nossa história cultural e política, descobrindo-os em arquivos públicos esquecidos — e há tantos! — ou em colecções privadas avessas à publicidade, iniciativas como esta exposição “Portugal Imaginário” são de especial interesse, sobretudo quando produzidas por instituições ainda muito novas e sem fundos documentais próprios e distintivos, mas que desta maneira podem seduzir, atrair ou motivar — assim se espera e deseja — doações particulares em favor duma garantida conservação patrimonial. E além disso, instituições novas e emergentes sem património inicial relevante estão naturalmente mais disponíveis para a partilha viabilizadora de projectos ou para a itinerância de exposições alheias de notório interesse. É neste tripé que parece poder assentar o progresso duma rede de instituições ou centros culturais que resista de facto ao centralismo vigente e afirme novas polaridades activas, dinâmicas e surpreendentemente conscientes como esta que está a formar-se precisamente em Matosinhos, por via do notável empenho da autarquia local e do seu acordo com a Câmara Municipal do Porto, para a Porto Bienal Design — e sem dúvida também da presença duma equipa hábil e motivada de professores-designers, alguns dos quais ainda na casa dos 30-40 anos e, por isso, com um vasto e promissor horizonte de trabalho, conhecimento e valor à sua frente.

“Portugal Imaginário” ocupa um espaço relativamente pequeno, antes da descida para a muito espaçosa cave que é a principal área expositiva da Casa do Design. Ali temos a pioneira primeira edição das As Praias de Portugal de Ramalho Ortigão (1876) e folhetos da Sociedade de Propaganda de Portugal, fundada em 1906, aliando monárquicos e republicanos na promoção das belezas naturais e culturais do país, numa primeira vitrine onde surgem cinco folhetos regionalistas primorosamente ilustrados sob encomenda a artistas plásticos: “Além Douro”, “Extremadura“, “Alentejo e Algarve”, “Lisboa e arredores”. O acento etnográfico é desde o início evidente, fazendo realçar a espantosa diversidade regional de um país afinal pequeno, e todavia muito rico nos seus costumes. Vida e Arte do Povo Português, de 1940, não poderia faltar neste conjunto, como obra-prima do design gráfico e da ilustração protagonizado por Paulo Ferreira, elemento da equipa do modernista António Ferro, que no Secretariado de Propaganda Nacional, a partir de 1933, desenvolveu aquilo a que os comissários chamam uma “esteticização da cultura popular”, promovendo em paralelo campanhas de “bom gosto” dirigidas ao comércio urbano e à hotelaria espalhada pelo continente. Essa intensa campanha durou década e meia, e teve em Panorama. Revista de Turismo, a partir de 1941, um dos seus motores, mas seria abusivo negligenciar o contributo específico dos caminhos de ferro, da aviação comercial e das companhias de viagens, como a centenária Abreu, ou do clube de automobilistas ACP.

Um exame mais rigoroso poderia assinalar a falta evidente de marcos históricos nesse progresso do turismo de feição etnográfica em Portugal, como é o caso do álbum Nazaré de Artur Pastor, produzido em louvor da visita da Rainha Isabel II de Inglaterra ao nosso país em 1958, mas sublinhe-se que a exposição depende em absoluto de fundos documentais tomados de empréstimo a voluntariosos coleccionadores privados, sem a responsabilidade historiográfica que seria exigível a instituições consolidadas. Em contrapartida, sublinhe-se a atenção — caso raro em exposições congéneres — dada ao turismo ultramarino enquanto paraíso de caça, pesca e balneário, que ganhou força em 1955-70, com a construção de grandes hotéis em Angola e Moçambique, lançamento de anuários de turismo, etc. etc. — e à própria “estética indígena” exibida na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1936, para gáudio de “artistas de vanguarda menos alinhados com o regime” (citado duma legenda).

Se a arte popular — com os belos bonecos de Estremoz, recentemente premiados pela Unesco, em pequenas campânulas — está em destaque, em publicações de todo o tipo e público, também as “alegres e pitorescas” romarias, do norte ao sul do continente, nos surgem num pequeno cartaz desenhado por Thomaz de Mello, incluído, como separata, na revista Panorama em 1947. E estando em Matosinhos, não podia esquecer-se a tricentenária romaria do Senhor de Matosinhos, a que é dada atenção específica.

Não podiam faltar os tipos sociais da ruralidade representados em figuras de madeira conhecidas por Piló, Emmerico Nunes e Tom, hoje disputados nas feiras de antiguidades e nos leilões online — toda uma galeria constituída por quase uma centena desses bonecos, inicialmente criados para merchandising do pavilhão português à Exposição Internacional de Paris em 1937. Mas a grande peça da exposição é sem dúvida a série de mapas locais ilustrados, desdobráveis de 50 x 70 cm constituindo um Roteiro Turístico e Económico de Portugal, concebido pelo geógrafo Amorim Girão (1895-1960) e publicado de 1938 a 1972, com patrocínios ministeriais. Como em nenhum outro elemento desta exposição, está aí concentrada toda a idealização imaginária dum “país ao sol”, verdadeiro case-study de propaganda tradicionalista do regime — e que perdurou, afinal, muito para além da clarividente e modernizadora intervenção de António Ferro…

O Observador viajou a convite da ESADIDEA, Investigação em Design e Arte.