Olhando para a imprensa internacional desta quarta-feira, era inevitável tropeçar em qualquer coisa que colocasse frente a frente Robert Lewandowski e Cristiano Ronaldo, as grandes armas de Bayern e Real Madrid que até poderão ser companheiros na próxima temporada pela vontade que o polaco mostra de mudar-se para os merengues. Mas nem tudo se resumiu a isso e o El Mundo quis explorar o que representa o conjunto bávaro fora de campo.

Quem já teve a oportunidade de passar pela Allianz Arena percebe que se encontra num mundo à parte. Dimensão, organização e inovação são valores sempre presentes na casa dos germânicos, provavelmente o clube que melhor estrutura tem enraizada e há muitos anos, nunca abdicando de ter pessoas com muita experiência no futebol nas posições chave. Mas no meio de tudo isso há também uma rivalidade antiga com a formação espanhola. Exemplos? A versão alemã do “Que Viva España” de Manolo Escobar que se canta em festas de títulos ou a alcunha “Bestia Negra” que se lê em algumas camisolas ou produtos de merchandising que se vendem à volta do estádio.

Há mais histórias em torno dessa relação que já vem dos confrontos nos anos 70 e 80: no documentário “Mia san Mia, o fenómeno”, ou “Nós somos o que somos” numa tradução mais ou menos livre, que recolhe histórias de fãs, antigos jogadores e sócios do Bayern um pouco por todo o mundo com a direção de Manuel Vering e Nils Eixer e que passou no canal DW, Oliver Kahn, antigo guarda-redes e capitão, recorda o dia em que aterrou em Espanha, olhou para a capa da Marca e viu a sua cara com o título “O Inimigo”. “Foi interessante”, diz, quase como se aquela imagem lhe desse o dobro da força para dobrar os merengues no confronto que teriam nesse ano.

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Ao todo, foram 24 encontros sempre na principal prova europeia (entre Taça dos Clubes Campeões Europeus e Liga dos Campeões) com total empate técnico entre 1976 e 2018: 11 vitórias para cada e dois empates pelo meio. E em confrontos a contar para meias-finais, os alemães até têm vantagem, assegurando a passagem à final nos anos de 1976, 1987 (onde perderia no jogo decisivo com o FC Porto), 2001 e 2012 contra triunfos espanhóis em 2000 e 2014. Mas há um antes e um depois de Cristiano Ronaldo neste duelo entre gigantes: em seis jogos, o avançado conseguira cinco vitórias e apontara nove golos, incluindo um hat-trick na última temporada. Hoje, nada passou por Ronaldo. Nem por Lewandowski. Este foi o jogo onde os defesas mostraram que não são assunto lateral.

Para este confronto, os dois conjuntos partiam no mesmo nível: o Bayern teve mais sucesso do que o Real Madrid, mas a verdade é que em termos de Campeonato estão “despachados” (os germânicos ganharam o seu sexto título consecutivo, os espanhóis ficarão entre o segundo e o quarto lugares, sempre atrás do Barcelona) e as atenções recaem a 100% na Liga dos Campeões. E os minutos iniciais mostraram isso, com encaixe tático e a evidência de um conhecimento apurado nesta que é vista por muitos como uma espécie de final antecipada da competição.

Os visitados entraram melhor, com uma pressão alta que condicionou por completo a primeira fase de construção do adversário; os visitantes pegaram depois no jogo, conseguindo colocar a bola em posse e circulação nos pés de Kroos e Modric para distribuir jogo. Oportunidades flagrantes, nem uma. Até que surgiu o primeiro herói improvável da noite: numa jogada que colocou a bola no último terço com apenas quatro toques (numa combinação que se tinha visto num espaço mais curto de terreno num dos treinos de Heynckes que antecedeu este encontro e que passou na magazine da Champions), James Rodríguez, o colombiano que está cedido pelo Real ao Bayern, lançou Kimmich em profundidade para um remate certeiro onde 99% dos jogadores optam por cruzar (28′).

O lateral de 23 anos que Pep Guardiola foi buscar em 2015 ao RB Leipzig quando estava na 3.ª Divisão é daqueles elementos que nenhum treinador prescinde: joga como lateral, joga como ala e joga como médio, mas joga sempre bem e com uma inteligência tática como se tivesse uma década de futebol ao mais alto nível, que não tem nem pouco mais ou menos. Além de uma história digna de ser contada (e que pode ser lida aqui na primeira pessoa, num artigo que escreveu para o The Players’ Tribune), assume um papel cada vez mais preponderante na equipa, mesmo sem Robben, que foi substituído aos 5′ por lesão, para fazer dupla no corredor direito dos bávaros.

Hummels e Müller, no seguimento de bolas paradas, tentaram pouco depois visar a baliza de Keylor Navas (e pelo meio houve uma segunda lesão, com Boateng a contrair também um problema muscular e a ser substituído), mas foi também quando o Bayern estava mais confortável no jogo que surgiu outro nome invulgar na ficha de marcadores: Marcelo, aproveitando uma bola a saltar à entrada da área, disparou um míssil para o empate (43′).

Lewandowski, após um livre lateral bem batido por James Rodríguez da esquerda, teve na cabeça o 2-1 ainda antes do intervalo, mas o empate iria manter-se. E era uma boa altura para recuperar um artigo escrito pelo internacional no The Players’ Tribune, onde explicava o papel de um lateral no futebol de hoje na primeira pessoa (sem tradução).

Eu me inspirei muito no Roberto Carlos dentro de campo também. Roberto Carlos ia pra cima e pra baixo como um animal na ala esquerda. Se você me ama ou me odeia, você sabe do que sou capaz quando estou lá. Eu adoro atacar. Não é atacar como todos os laterais fazem, é A-ta- car como se eu fosse um ponta mesmo, entende? E depois na defesa? A gente tenta consertar o problema. A gente dá um jeito. Mas primeiro a gente gostava de atacar. Você só pode jogar desse jeito se você tiver um bom entendimento com os seus companheiros de equipe (…) É como o Casemiro faz comigo hoje: ‘Vai pra cima, Marcelo. A gente dá conta do resto depois’. Ahhhhh, Casemiro. Ele salvou a minha vida. Eu poderia jogar até os 45 anos de idade com esse cara do meu lado”, escreveu.

O segundo tempo começou de novo com mais Bayern, a carrilar jogo pela esquerda com Ribery a voltar aos tempos em que fintava adversários no espaço de uma cabine telefónica (na melhor oportunidade que criou, Müller, na pequena área pressionado pela defesa contrária, não conseguiu dar o toque para a baliza). No entanto, Zidane tinha mexido ao intervalo. E essa substituição demorou pouco até ser notada. Mais concretamente, 12 minutos.

A história de Asensio, que é Marco por Van Basten, ídolo de Zidane e colocou Rafa Nadal a ligar para o Real

Durante o descanso, Isco acabou por dar lugar a Asensio, com o Real Madrid a perder uma unidade que trata a bola nos pés como ninguém por um elemento que conseguiria dar profundidade e vertigem ao jogo ofensivo do conjunto merengue. Mais e melhor do que isso, alguém eficaz: Rafinha, o lateral direito que voltou mais uma vez a ocupar a vaga no lado esquerdo do corredor defensivo, teve um enorme erro daqueles que são imperdoáveis na Liga dos Campeões, Lucas Vázquez conduziu o contra-ataque e o canhoto atirou sem hipóteses para o 2-1 (57′).

Ribery ainda teve duas oportunidades flagrantes na área (uma delas com excelente intervenção de Navas), Ronaldo chegou a marcar mas o golo foi anulado por ter dominado a bola com o braço antes do remate, Benzema obrigou Ulreich a defesa apertada, Lewandowski pegou mal na bola quando estava isolado na área pronto para picar a bola para o empate. Ainda assim, a última meia hora acabou por ser condicionada pela quebra anímica dos bávaros, que sofreram quando estavam melhor e acabaram por ver frustradas as hipóteses de ganhar a zeros.

A imagem de Heynckes sentado no banco depois do remate certeiro de Asensio disse tudo sobre um jogo decidido por laterais, dois que foram lá à frente fazer a diferença no ataque e um que falhou quando queria sair para o ataque, numa derrota que, voltando ao início deste texto, pode também “travar” o crescimento que o Bayern quer atingir em termos mundiais. Mas, apesar de tudo, a eliminatória encontra-se longe de estar resolvida. Certo, Juventus?