“Ilha dos Cães”

Há um filme de animação inglês dos anos 80, “The Plague Dogs”, baseado no livro de Douglas Adams, sobre dois cães que fogem de um laboratório de experiências do governo e são ajudados por uma raposa. Como poderão estar infectados com o vírus da peste bubónica, os cães vêem-se perseguidos para ser eliminados sem contemplações. É uma animação tradicional, sem quaisquer luxos de produção, mas o realizador, Martin Rosen, evita a antropomorfização sentimental e com a ajuda dos actores que dão as vozes aos animais (um deles, o falecido John Hurt), consegue que “The Plague Dogs” registe muito alto nos índices de aflição dramática e de entrega emocional do espectador à história de dois cães perseguidos como se fossem humanos e inimigos públicos. Isto já não acontece em “Ilha dos Cães”, o novo filme de Wes Anderson, e a sua segunda animação após a deliciosa “O Fantástico Senhor Raposo” (2009).

Apesar de toda a sofisticação e elaboração estética e técnica; do convívio harmonioso entre animação tradicional desenhada, de volumes, e digital; do apuro pontilhista, da obsessão pela simetria e do humor “seco” característicos do realizador; da história, passada numa cidade japonesa fictícia num futuro próximo, envolvendo cães banidos para uma ilha onde só há lixo e ruínas industriais por alegadamente estarem atacados por uma estripe de gripe perigosa para o homem, e aonde ruma dirige um menino que desafia as autoridades para recuperar o seu cão; e ainda da quantidade de intérpretes famosos que falam pelas personagens (Bryan Cranston, Bill Murray, Scarlett Johansson, Edward Norton, Harvek Keitel, etc.), “Ilha dos Cães” resulta num filme muito, muito bem feito, mas “mecânico” e laborioso, emocionalmente insosso e um bocadinho aborrecido. Desaconselhado a quem prefere gatos a cães, pois os felinos são as mascotes de tudo que é vilão no filme e saem com uma péssima imagem.

“Vingadores: Guerra do Infinito”

Homem de Ferro e Homem-Aranha, Capitão América e Pantera Negra, Thor e Hulk, Dr. Estranho e Viúva Negra, e muitos, muitos mais. Este filme de Anthony e Joe Russo, que se segue a “Os Vingadores” (2012) e a “Vingadores: A Era de Ultron”, mais parece um congresso de super-heróis – onde também os maiores vilões fizeram questão de marcar presença. E tudo isto a um custo que deverá ter rodado os 400 milhões de dólares, o que o transforma num dos mais caros já feitos, e o mais caro do universo Marvel. “Vingadores: Guerra do Infinito” representa assim o ponto mais alto desta vertigem de filmes de super-heróis que tomou conta da indústria cinematográfica americana e se impôs como o grande modelo de negócio de Hollywood, secando praticamente tudo em seu redor e sendo cada vez mais orientado para o mercado asiático (liderado pela China), no qual recolhe a parte de leão dos lucros. Neste caso, os Vingadores juntam forças com o Guardiões da Galáxia para impedirem o monstruoso Thanos de se apoderar das Pedras do Infinito, de se tornar no senhor do universo e manipulá-lo a seu bel-prazer. Está anunciada uma parte 2 para “Vingadores: Guerra do Infinito”, ainda sem título, e cuja estreia foi marcada para daqui a um ano, na Primavera de 2019.

“Maria by Callas

O fotógrafo e realizador Tom Volf passou horas perdidas a procurar e ver fotos, entrevistas e imagens de arquivo, incluindo “home movies” inéditos, para pôr de pé este documentário biográfico sobre a mítica cantora de ópera Maria Callas (1923-1977), a quem dá a palavra através de todos esses documentos, para que ela possa falar sobre a sua vida privada e a sua carreira, e esclarecer e corrigir imprecisões e injustiças que foram escritas e ditas sobre uma e outra. São quase duas horas de filme, ao longo das quais descobrimos uma mulher de grande personalidade, senhora do seu nariz, completa e apaixonadamente devotada à sua arte, de que fala com inteligência e sensibilidade, mas que diz que teria trocado tudo por uma vida doméstica e familiar convencional (nunca a conseguiu ter, para mágoa sua). E que a certa altura afirma, de certeza para escândalo das feministas mais esgargaladas, que o lugar de uma mulher é em casa, a criar os filhos e a fazer feliz o marido. Se a mãe de Maria Callas não a tivesse orientado para trilhar ainda muito nova o caminho da música, o mundo teria perdido a maior cantora de ópera de todos os tempos. Mas talvez ela tivesse conhecido alguma da felicidade íntima que lhe escapou ao transformar-se em La Divina.  Fanny Ardant, que a interpretou em “Callas, a Diva”, de Franco Zeffirelli (2002), narra “Maria by Callas” com uma voz assombrosamente próxima da da própria Maria Callas.

“A Morte de Estaline”

Uma hilariante e arrepiante farsa negra política, baseada na banda desenhada com o mesmo título, da autoria dos franceses Fabiel Nury e Thierry Robin, e realizada pelo britânico Armando Iannucci, responsável por séries de televisão passadas bem no centro da cena política do Ocidente democrático, como “The Thick of It” ou “Veep”. Estamos em Moscovo, em Março de 1953. José Estaline morre de uma síncope fulminante na sua luxuosa “dacha” e os membros do comité central do Partido Comunista que formam o círculo mais próximo do ditador comunista, começam a preparar as cerimónias fúnebres e a mexer-se e a conspirar freneticamente para lhe suceder. Mesmo que isso signifique terem que se eliminar uns aos outros. Michael Palin, Steve Buscemi, Simon Russell Beale, Olga Kurylenko, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs ou Paddy Considine surgem no elenco desta fita brilhante e selvaticamente satírica. “A Morte de Estaline” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.