Menos de um ano depois de Serralves ter exposto cerca de 80 peças da Coleção Joan Miró, a arte do pintor catalão regressou ao Porto. E, desta vez, aterrou na Lello sob a forma de livros.

Mas estes não são livros comuns. São obras de arte a quatro mãos – as de Miró e as de um poeta – que se fizeram como se “faz amor”, como se fosse possível “uma união corpórea entre os grafismos e a palavra”, explica o neto do artista, Joan Punyet Miró. Simplificando: são livros de “poesia literária” e “poesia visual”, que nasceram da colaboração direta entre Miró e ilustres poetas (e amigos) da época, como Pablo Neruda, Pierre André Benoit, Michel Leiris e João Cabral de Melo.

“É um diálogo interartístico, é uma fusão”, adianta Maria Bochicchio, programadora cultural da Livraria Lello – “Cada livro contém uma interpretação plástica dos poemas ou uma interpretação poética das pinturas”. E todos os 13, de vários tamanhos e feitios, são autênticas “raridades”: as obras editadas entre 1950 e 1972, que contêm gravuras assinadas e numeradas, fazem parte de edições muito limitadas.

E Portugal é um dos pioneiros na exibição destas peças, acrescenta: “É a primeira vez que a exposição vem a Portugal, mas há que relembrar que esta é muito rara no mundo. Antes de nós, os livros de artista de Joan Miró só foram expostos na Alemanha.”

A inauguração acontece neste sábado, pelas 21h30, com a presença do neto Joan Punyet Miró, mas as obras vão estar expostas na Sala Gemma da Livraria Lello até ao final de junho.

Poesia: “a mais importante expressão humana”

Estes 13 livros são apenas uma pequena amostra da biblioteca privada do pintor surrealista, que ilustrou cerca de 260. A poesia era, aliás, uma paixão antiga e foi ela que o impulsionou a explorar novos trilhos, contou o neto de Miró ao Observador:

“Para o meu avô, a poesia era a mais importante expressão humana. Foi a coabitação em 1920, em Paris, com os jovens poetas dadaístas e surrealistas, que alimentou o espírito e contribuiu para a emancipação da alma do meu avô, para ele ir para lá da pintura realista. Foi o que o fez entrar no domínio da pintura surrealista.”

Ainda hoje, Joan Punyet Miró não consegue dissociar o avô da literatura. Miró era um leitor ávido, apaixonado pelos poemas de Rimbaud, Lautréamont e Alfred Jarry, pelos romances de Dostoiévski e pela filosofia de Nietzsche, revela: “Todos os dias, das seis e meia às oito e meia, eu lembro-me de subir à biblioteca e ver o meu avô a ler e, depois, a parar para pôr música – para alimentar a sua alma. A partir das nove, desenhava sem parar com lápis e papel. Meia hora, uma hora, hora e meia, desenhava e desenhava. A mão estava livre.”

Joan Punyet tinha apenas 15 anos quando o avô morreu, em 1983. No entanto, estes são valores que o historiador de arte de 49 anos carrega até aos dias de hoje: “[Quando convivia com ele] era muito pequeno, não compreendia a literatura, a poesia. Mas ele influenciou-me muito pelo amor que lhes tinha, pelo amor à arte.”

A admiração pelos livros e pelas livrarias ficou. E é por isso que a Lello era o “sítio ideal” para albergar a pequena exposição: “Para mim, duas das livrarias mais belas do mundo são a Livraria Lello, no Porto, e a Shakespeare and Company, de Sylvia Beach, em Paris. E o meu avô ficaria muito contente por expôr este trabalho numa livraria tão simbólica como a Lello.”

Mas quem teve a iniciativa de trazer para solo nacional um outro lado da arte de Miró foi mesmo a direção cultural da livraria da Rua das Carmelitas, explica Maria Bochicchio:

“Nós reparamos que o Estado estava ausente. O Estado valorizou muito as obras artísticas plásticas de Miró, mas, a nosso ver, esqueceu-se de obras com grande potencial para serem mostradas ao público, que são os livros de artista. A Livraria Lello lembrou-se e decidiu organizar esta exposição, em colaboração com a Successió Miró.”

Também há música em Miró

Há mais para ver na Lello, neste fim-de-semana. No domingo, pelas 17h, Joan Punyet Miró volta à livraria para falar do seu livro “Miró & Music”, que já havia sido apresentado em Serralves no final ano passado. A obra é uma análise do relacionamento entre o avô e a música que o acompanhou ao longo da vida. Uma arte que, tal como a literatura, influenciou profundamente a obra do pintor catalão, argumenta o neto: “O meu avô tinha uma relação fortíssima com a música. Ele dizia que as suas mãos pintavam cores – roxo, amarelo, verde, azul – como uma mão tocava piano.”

Desta vez, a apresentação vai contar com a presença do crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida e com a intervenção musical de João Guimarães, da Orquestra Jazz de Matosinhos.

Tanto este evento como a exposição dos livros de artista de Miró são totalmente gratuitos, estando os visitantes isentos da habitual taxa de entrada de três euros.