O número de arguidos no processo de Pedrógão Grande subiu para seis, de acordo com um comunicado da Procuradoria-Geral Distrital de Coimbra. “Em causa estão factos suscetíveis de integrarem os crimes de homicídio por negligência e ofensas corporais por negligência”, diz o Ministério Público para justificar a constituição destas pessoas como arguidos na sequência dos incêndios de junho do ano passado, que fizeram quase 70 vítimas mortais.

Uma primeira nota do Ministério Público apontava para sete arguidos, mas o número foi depois corrigido para seis.

Dois já tinham sido constituídos arguidos em dezembro, e agora foram costituídos mais quatro. Desses quatro, segundo a informação divulgada pela procuradoria-geral distrital (e corrigida umas horas depois, para passar o número de arguidos de sete para seis), três estão ligados à área de gestão de combustíveis e um às operações de comando de combate ao incêndio. Estes quatro foram constituídos arguidos no final do mês de abril. Na mesma nota, a PGDC adianta que “todos os arguidos são pessoas singulares”.

Até final de abril, o inquérito sobre os incêndios de Pedrógão Grande tinha apenas dois arguidos — Mário Cerol, segundo comandante distrital de Leiria, e Augusto Arnaut, comandante dos bombeiros de Pedrógãoão e Ação Penal de Leiria.

No mesmo comunicado em que anuncia a constituição de quatro novos arguidos, o Ministério Público também refere que “recebeu, em novembro de 2017, da Autoridade Nacional de Proteção Civil, o relatório de uma auditoria realizada por aquela entidade na sequência dos referidos incêndios de Pedrógão Grande”. Esse relatório é o mesmo documento a que, esta quarta-feira, o jornal Público dedica a sua capa, e que o Governo tinha em sua posse desde novembro, apesar de o mesmo nunca ter sido divulgado.

O Público teve acesso a essas páginas e diz que estão ali plasmadas limitações sentidas pelos inspetores da Autoridade Nacional de Proteção Civil na realização de uma auditoria interna, na sequência dos fogos do ano passado. No relatório, os auditores também referem que foram “apagados” ou “destruídos” documentos com informação relevante sobre a forma como o fogo de Pedrógão Grande foi combatido e os meios disponíveis para esse combate.

“Não foi possível aceder a um único SITAC [quadro de situação táctica], a um único Quadro de Informação de Células, ou a um PEA [Plano Estratégico de Ação]”, refere o relatório citado pelo diário. “Todos estes documentos haviam sido apagados dos quadros das VCOC e VPCC [viaturas de comunicação], ou destruídos os documentos em papel que os suportaram”. Esse relatório, aponta o Ministério Público de Leiria, “foi junto aos autos, sendo considerado no âmbito das investigações em curso”. O processo continua em segredo de justiça.

Novos arguidos: dois colaboradores da Ascendi e um comandante que se ausentou do terreno

Entre os novos arguidos estão dois colaboradores da Ascendi Pinhal Interior. Em comunicado, a empresa informa ter “conhecimento que dois dos seus colaboradores afetos a esta subconcessionária foram ouvidos em interrogatório e constituídos arguidos no âmbito da investigação” aos incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes, em junho do ano passado.

E acrescenta: “A Ascendi Pinhal Interior e os seus colaboradores têm vindo a colaborar com as autoridades judiciárias, contribuindo com o que está ao seu alcance para o esclarecimento dos acontecimentos verificados, estando seguros de que cumpriram todo o quadro legal aplicável, não lhes sendo imputável qualquer responsabilidade.”

Segundo o jornal Expresso, um outro arguido é um comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Leiria que se ausentou do terreno no fatídico dia 17 de junho do ano passado. Sérgio Gomes, que será um dos quatro novos arguidos, encontrava-se hospitalizado nesse dia, primeiro para acompanhar o filho, e depois porque se viria a sentir mal e ficaria internado.

O operacional do CDOS de Leiria, de acordo com o Expresso, foi hospitalizado por volta das 17h desse dia e, até essa hora, era o responsável pelas operações de combate ao incêndio que teve início pelas 15h. Acabou por ser substituído por Mário Cerol, uma das primeiras pessoas a ser constituída arguida no processo. Sérgio Gomes está por isso a ser indiciado por não ter delegado o comando assim que se ausentou para acompanhar o filho ao hospital.