“Ruth”

Ruth era a filha de um talhante de Lourenço Marques, benfiquista ferrenho. Foi sob esse nome que, aos 16 anos, Eusébio viajou de avião para Lisboa, em meados de Dezembro de 1960, para iludir os sportinguistas que também queriam que ele jogasse para o seu clube. Na sua primeira longa-metragem, escrita pela mãe, a jornalista Leonor Pinhão, António Pinhão Botelho conta a atribuladíssima história da contratação do jovem Eusébio (bem incarnado por Ivan Regalla) pelo Benfica, antes de se tornar uma lenda, de ser o Pantera Negra, o King, enquanto o regime salazarista (apresentado da forma caricatural do costume) enfrentava o desvio do Santa Maria, os massacres em Angola e as pressões internacionais na ONU. Recheado de peripécias mirabolantes e anedóticas que reflectem a eterna rivalidade entre os dois “grandes” de Lisboa, “Ruth” tem muitas caras conhecidas em pequenos papéis, apanha bem um tempo em que o futebol era mais inocente e menos corrompido pela massificação, pelo dinheiro e pela globalização, e narra o que tem a narrar com  eficiência e despretensão, embora a duração pudesse ter sido menor.

Zama

Há quase dez anos, desde “A Mulher Sem Cabeça”, que a realizadora argentina Lucrecia Martel não fazia uma longa-metragem. Martel está presente no IndieLisboa, que a considerou a Heroína Independente da edição deste ano e exibe todos os seus filmes, tendo também antestreado o regresso da homenageada à ficção de fôlego longo: “Zama”, um filme de época baseado no romance do seu compatriota Antonio Di Benedetto.  O mexicanoDaniel Giménez Cacho  interpreta a personagem do título, Don Diego de Zama, um magistrado espanhol ao serviço da coroa no Paraguai do século XVII, que espera transferência para Buenos Aires e está morto de saudades da mulher e dos filhos. Só que essa transferência tarda, Don Diego começa a pensar que nunca sairá dali e junta-se a um grupo de soldados para capturar um perigoso bandido e viver uma aventura. Portugal é um dos países co-produtores de “Zama”, que já valeu a Rui Poças o Prémio Platino do Cinema Iberoamericano para o Melhor Director de Fotografia.

“Um Lugar Silencioso”

O actor John Krasinski (“O Escritório”) realiza e interpreta este filme de terror em cenário de ficção científica pós-apocalíptica. A Terra foi invadida por monstros alienígenas cegos, que comunicam entre si pelo som e têm um aparelho auditivo sofisticadíssimo. Graças a ele, atacam e matam ao menor ruído. Quem conseguiu escapar ao massacre, tem que se habituar a levar uma vida de constante e profundo silêncio. É o que sucede à família Abbott, pai (Krasinski), mãe (Emily Blunt) e filha e filho adolescentes, instalados numa quinta no interior dos EUA, onde tudo está pensado para, em teoria, eliminar todo e qualquer ruído e a comunicação é feita por linguagem gestual (a filha, interpretada pela óptima Millicent Simmonds, de “Wonderstruck”, é surda-muda). Só que a mulher está grávida e a chegada do bebé vai pôr novos e sérios problemas. Um descuido com um choro da criança e é a morte para todos. “Um Lugar Silencioso” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.