“Veio-me à cabeça a ideia de escrever um romance feito só de princípios de romances. O protagonista podia ser um Leitor que é constantemente interrompido. O Leitor compra o romance A do autor Z. Mas é um exemplar defeituoso e não consegue passar do início… Volta à livraria para trocar o volume…”. O propósito é enunciado na pg. 226 pela personagem Silas Flannery e resume, parcialmente, a natureza de Se numa noite de Inverno um viajante. Os leitores que partilhem das preferências que a personagem identificada como Leitor proclama perto do final do livro – “sobretudo gosto dos livros que se lêem do princípio ao fim” – acharão esta obra de Calvino abominável. Porém, quem aprecie os desafios postos pelos labirintos, a decifração das entrelinhas, a vertigem das imagens multiplicadas pelos espelhos, as narrativas que se regem pela lógica do sonho e a mise en abîme, deixar-se-á engolir de bom grado por este romance-serpente-que-devora-a-sua-própria-cauda.

“Se numa noite de inverno um viajante”, de Italo Calvino (Dom Quixote)

Para a génese desta obra audaciosa, contribui o facto de Calvino se ter estabelecido em Paris, em 1967, e de ter estabelecido relações com o grupo Oulipo (Ouvroire de Littérature Potentielle = Oficina de Literatura Potencial), que teve como figuras mais notáveis Raymond Queneau, Georges Perec e Jacques Roubaud. O Oulipo, fundado em 1960 por Queneau e pelo matemático François Le Lionnais, pretendia “pesquisar novas estruturas destinadas a encorajar a criação”, recorrendo a constrangimentos auto-impostos e a técnicas combinatórias. O mais célebre e radical resultado da aplicação das técnicas combinatórias à literatura foi Cent mille milliards de poèmes (1961), de Queneau, “uma máquina de fabricar poemas” (nas palavras do autor) cujas 10 folhas divididas em 14 segmentos horizontais, cada um com um verso, permite ao leitor combiná-los da forma que entender, gerando, no limite, 100.000 biliões (10 elevado à 14.ª potência) de sonetos diferentes. Sob a influência do Oulipo, Calvino empregaria também técnicas combinatórias em Il castello dei destini incrociati, de 1969 (também reeditado recentemente pela D. Quixote, com o título O castelo dos destinos cruzados), em que vários viajantes temporariamente privados do uso da palavra recorrem a um baralho de cartas de Tarot para narrar uns aos outros as suas histórias.

Mas a obra que coroa a fase meta-literária de Calvino é Se numa noite de Inverno um viajante (1979), em que dez fragmentos de romances, cada um com o seu registo, a sua geografia e as suas personagens, alternam com capítulos que narram as peripécias vividas pelo Leitor em busca de uma continuidade e de um sentido para a sua leitura, peripécias que se vão tornando tão rocambolescas como as dos romances.

Nos fragmentos de romances, Calvino recorre a estereótipos para os subverter, cria expectativas para as defraudar, lança falsas pistas, conduz a narrativa para becos sem saída, multiplica armadilhas. Nos capítulos em que é protagonista o Leitor, questiona-se o papel do autor, do narrador, do leitor, da crítica e da academia, o propósito da literatura, a essência do prazer da leitura. A dada altura, Ludmila, cúmplice da demanda do Leitor, exprime a sua aspiração a libertar-se das análises intelectuais e académicas e “recuperar uma condição de leitura natural, inocente e primitiva”: “O romance que mais me apetecia ler neste momento deveria ter só como força motriz a vontade de contar, de acumular histórias, sem pretender impor uma visão do mundo, só fazer assistir ao seu crescimento, como uma planta, como que um emaranhado de ramos e folhas”.

Não faltam as farpas ao mundo editorial e às ambições dos aspirantes a escritores. No capítulo V, a busca do Leitor pela continuação do livro que começara a ler (várias vezes) leva-o até uma editora, onde se depara com o Dr. Cavedagna, o infeliz incumbido de gerir os infindos atritos entre autores e editora. Ao ver o Leitor, o Dr. Cavedagna julga tratar-se de um escritor que procura saber o que decidiu a editora quanto ao manuscrito que submetera à sua apreciação, e reage com uma amálgama de clichés extraídos da carta-modelo das respostas negativas de todas as editoras do mundo: “Foi lido com interesse, claro que me lembro! Notável elaboração linguística, viva denúncia, não recebeu a carta? Lamentamos muito ter de lhe anunciar, na carta vai tudo explicado […], os programas editoriais sobrecarregados, a conjuntura não favorável […] e agradecendo-lhe por no-lo ter dado a ler, devolvê-lo-emos com urgência, ah, vinha buscar o manuscrito?”. Desfeito o equívoco, o Dr. Cavedagna regozija-se ao descobrir que a enésima pessoa que naquele dia requer a sua atenção não é um autor mas um leitor: “Dá-me muito prazer. Leitores a sério, cada vez os encontro menos”.

Também a perspectiva anatomopatológica típica do meio académico é alvo de sátira, quando, no Capítulo IV, se assiste ao embate entre as mundividências de departamentos universitários rivais, ou quando, no Capítulo VIII, se analisam obras literárias com base na frequência de ocorrência de vocábulos.

Silas Flannery está convencido de que “escrever é sempre esconder alguma coisa que seja depois descoberta” e este romance-labirinto dá-lhe plena razão.