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Trump compara hospital de Londres a "cenário de guerra". E defende o uso de armas, contra as "facas, facas, facas"

Um médico londrino mostrou a sua preocupação com o escalar da violência com facas na capital britânica. O Presidente dos EUA ouviu falar do caso e defendeu a solução: mais armas nas ruas.

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Chris Kleponis / POOL/EPA

Chris Kleponis / POOL/EPA

Donald Trump leu uma notícia em que um médico londrino citava colegas seus sobre as condições em que trabalhavam num hospital da capital britânica. Dizia esse médico que, todos os dias, jovens entre os 13 e os 15 anos davam entrada no serviço de Trauma com cortes resultantes de esfaqueamentos e ferimentos de bala. Foi o pretexto ideal para que, esta sexta-feira, em Dallas, num discurso perante membros da Associação Nacional de Armas (NRA), o Presidente norte-americano fizesse a apologia do armamento. “Sim, é verdade, eles não têm armas, têm facas e, ainda assim, há sangue por todo o lado neste hospital”, contava Trump à sua plateia. “Dizem que é tão mau como um hospital num cenário de guerra.”

Num momento anterior do discurso, Trump — que deverá visitar Londres em julho — já se tinha questionado sobre se a utilização de carrinhas, de camiões e de carros devia ser proibida. É que, nos últimos ataques de inspiração terrorista registados nos EUA e na Europa, os seus autores recorreram sempre a estes veículos para inflingir o maior número de mortes possível. Depois de replicar a comparação entre o hospital londrino e um hospital em plena guerra, Trump simulou que empunhava uma faca e que a espetava, brandindo a mão fechada no ar. Enquanto fazia o gesto, repetiu três vezes: “Facas, facas, facas.”

O episódio aconteceu sensivelmente a meio da sua intervenção (por volta do minuto 25:55 do vídeo colocado aqui em cima) e serviu para o Presidente dos EUA reforçar a ideia de que, se houvesse uma arma de fogo por perto, de cada vez que alguém pega numa faca, o desfecho destes casos seria diferente. É o mesmo argumento usado pelos defensores da liberalização das armas, quando procuram defender a ideia de que mais armamento nas ruas é sinónimo de mais segurança.

Trump não especificou de que hospital se tratava, mas a BBC recuperou as notícias publicadas há um mês pelos meios de comunicação social britânicos. O cenário descrito pelo Presidente norte-americano foi, afinal, partilhado por Martin Griffiths, médico-cirurgião do hospital Barts Health.

Citando colegas do hospital, Griffiths disse que os seus colegas, veteranos de guerra, “descreveram a sua atividade como sendo o mesmo que estar em [Camp] Bastion”, agora Camp Shorabak, uma antiga base militar britânica na província de Helmand, no noroeste do Afeganistão.

Temos habitualmente crianças de 13, 14, 15 anos de idade sob os nossos cuidados com ferimentos de facas e armas”, disse o médico, citado pelo tabloide Daily Mail.

Pelo menos um dos médicos do hospital (não é claro se do mesmo serviço de Griffiths, ainda que o clínico faça referência ao hospital de Griffiths) partilhou a sua opinião sobre aquilo que diz ser uma “epidemia de violência contra e entre crianças”, em Londres. O desabafo foi publicado depois de Jonny Scrimshaw se deparar com um número “desconcertante” de crianças esfaqueadas e baleadas, num fim de semana do início de abril.

Um outro médico respondia a Scrimshaw nesse dia para dizer que essa é uma realidade sentida noutras cidades do Reino Unido em que se sente um “preocupante aumento de crimes em que se usam armas brancas”.

Durante algumas semanas, o assunto esmoreceu. Até que, esta sexta-feira, a discussão foi reaberta pelas palavras de Donald Trump. O próprio Martin Griffiths foi ao Twitter para deixar um convite ao Presidente dos EUA.

Teria todo o gosto em convidar o senhor Trump para vir ao meu (prestigiado) hospital, para se encontrar o nosso presidente da Câmara e o comissário da Polícia para discutir o sucesso na redução da violência em Londres”, escreveu o médico cirurgião na rede social Twitter, já este sábado.

Uma animação “GIFF”, em baixo, sugere que Trump não percebeu o ponto das palavras que Griffiths partilhou há um mês: o de que a solução para o crime que se sente na capital do Reino Unido não se combate com armas de fogo. No mesmo registo, um colega de Griffiths que estava no serviço quando enviou a mensagem escreveu: “Não diria que é uma zona de guerra, mas a máquina de vending está sem Coca-Cola Zero.” A seguir, as hashtags “desastre” e “Deus nos valha”.

A ideia de que Donald Trump não percebeu onde Griffiths queria chegar quando falou com o Daily Mail foi, aliás, a mensagem que outro clínico deixou partilhou no Twitter.

“Londres tem um problema de violência relacionado com facas que precisa de ser acautelado, de forma urgente e a todos os níveis”, começa por escrever Karim Brohi, também ele cirurgião no serviço de Trauma do Royal London Hospital. “Há soluções. Nenhuma delas envolve armas”, defende Brohi.

A referência de Trump não passou despercebida às autoridades policiais de Londres. Alertada pelos níveis de violência a que a cidade chegou em 2017, quando atingiu o pico mais alto desde 2011, a Metropolitan Police já está a investigar o que levou à subida dos números. Mas também vai dizendo que Londres continua a ser uma das mais seguras do mundo.

Este ano, houve 60 homicídios registados até ao final de abril. Em todo o ano passado, esse número fixou-se nos 116 casos, dos quais 80 foram resultado de esfaqueamentos e 10 do recurso a armas de fogo.

Quem também não deixou passar o caso em branco foram os Democratas Liberais ingleses que, reconhecendo o problema de violência em Londres, consideram “ridículas” as declarações de Trump.

Defender a chocante legislação de armas norte-americana revelando a sua ignorância sobre o Reino Unido deveria alarmar até os seus defensores no Partido Conservador”, defende aquela força política.

Os liberais querem que a primeira-ministra Theresa May, no Parlamento, faça a necessária pedagogia junto do Presidente dos EUA para mostrar como as “leis apertadas” do país, no que diz respeito à utilização de armas, foram “fundamentais” para manter este tipo de crime “muito inferior” ao norte-americano.

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