Crítica de Livros

O amor e a perdição segundo Marcel Proust

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Para Proust, não é a beleza, a inteligência ou a virtude dos outros que nos faz amá-los, mas outra coisa qualquer. E é isso que explora nos 74 textos destes "Contos Completos".

Getty Images

Autor
  • João Pedro Vala

Nome: “Contos Completos e Outros Textos”
Autor: Marcel Proust
Editor: E-Primatur
Páginas: 312
Preço: 17,90€

Embora a compilação da ficção curta de Proust lançada pela E-Primatur reúna setenta e quatro textos, torna-se rapidamente evidente que o escritor está quase sempre a falar da mesma coisa, quase sempre da mesma forma. Até na sua obra maior, Em Busca do Tempo Perdido, ainda que a forma venha a mudar substancialmente, as inquietações de Proust manter-se-ão inalteráveis. Assim, a melhor forma de abordar este livro talvez seja escolher mais ou menos ao acaso um dos textos que o compõem e compreender não só as preocupações que nele se reflectem mas também a forma como estas mesmas preocupações voltam a surgir quer nestes Contos Completos, quer no romance em sete volumes que Proust começaria a escrever alguns anos mais tarde.

“A Morte de Baldassare Silvande, visconde de Silvânia”, segundo texto do livro, é, pois, um exemplo tão bom como outro qualquer desta repetição infinita. Neste texto de 1895, Proust conta a história de Baldassare, um homem que sabemos desde a primeira página ter apenas mais três anos de vida, e de Alexis, o seu sobrinho. Quando Alexis sabe desta tragédia iminente, supõe que a consciência da morte dera ao seu tio uma sobriedade e uma elevação que anteriormente não existia, tornando-se, portanto, “solene e ainda mais perfeito do que antes” (p.18). Cedo, o jovem perceberá que não é este, de todo, o caso e que a vida do seu tio não se alterara com a revelação da doença. Chocado pela futilidade e snobismo persistentes do tio, Alexis promete retirar-se do mundo e da sociedade e viver em solidão como um eremita (tal como acontece com Violante em “Violante Ou Alta Sociedade”, com Willie Heath no texto que abre Os Prazeres e os Dias e com o narrador de Em Busca do Tempo Perdido). No entanto, logo de seguida, como sempre acontece na obra de Proust, a vida “ofereceu-lhe o peito para o dissuadir” e as suas decisões são derrotadas pelo hábito.

Ao contrário do que acontecerá com Alexis, que, por ser jovem e são, esquecerá a doença do tio e entrará “nesse período ardente em que o corpo trabalha tão duramente para erguer os seus palácios entre a carne e a alma” (p.26), Baldassare começará o lento processo que vai da vida à morte e que o afastará do mundo, permitindo-lhe ver tudo mais claramente. Este processo não se dá, todavia, de forma linear, mas aos repelões. Muitas vezes, tal como acontece em alguns dos textos das secções Fragmentos de Commedia dell’Arte e Pesares, Devaneios ao Sabor do Tempo, Baldassare vai tentar fechar os olhos para não ver o que a morte lhe procura revelar. A força da morte acabará ainda assim por se impor e Baldassare acabará por se render e desejar que esta chegue.

No entanto, os aspectos mais interessantes e reveladores deste conto prendem-se com a relação de Baldassare com Pia, uma princesa de Siracusa que Baldassare tinha roubado a Castruccio, tendo-a “arrebatado por um amor invencível” (p.28). É-nos dito ainda que Pia, no leito de morte do seu amado, lhe falava “incessantemente com uma destra ternura nunca desmentida” (p.29). No entanto, nem mesmo este amor invencível e arrebatador, que já antes dera alguns sinais de inconstância, permite a Pia resistir aos prazeres oferecidos pela vida. Na última visita que Pia faz a Baldassare, uma semana antes da morte do visconde, este pede-lhe apenas que, como testemunho do seu amor, não compareça a um baile onde estará Castruccio.

Pia, cega pelo desejo de se divertir, incapaz de, estando viva e de boa saúde, empatizar com o sofrimento de um moribundo, nega-lhe este favor alegando que, se faltar, “Castruccio ficaria inconsolável para toda a eternidade” (p.33). Proust está aqui a mostrar-nos (tal como fará também, entre outros textos, em “O Indiferente”, “Melancólica Vilegiatura da Srª de Breyves”, “O Fim do Ciúme” e inúmeras vezes ao longo de Em Busca do Tempo Perdido) quão pouco fidedigno é o amor. O amor, mesmo nas suas manifestações mais sublimes e puras, dura sempre pouquíssimo tempo e é invariavelmente acompanhado de inúmeras infidelidades e suspeições, causando um sofrimento atroz mas prazenteiro aos enamorados.

Em “Melancólica Vilegiatura da Srª de Breyves”, num momento de desespero por não conseguir ter o seu amado junto de si, Proust informa-nos de que a protagonista, sempre ciente da mediocridade do seu amado, já não pode ser curada do seu amor, uma vez que “o Sr. de Laléande não é bonito nem inteligente. Não teve a oportunidade de lhe demonstrar se era terno ou severo, desagradável ou fiel. É, todavia, ele que ela ama, e não os méritos ou encantos que podem em igual medida ser encontrados noutros; é ele que ela ama, pese embora as suas imperfeições, a sua mediocridade; ela está, como tal, destinada a amá-lo, aconteça o que acontecer. Ele — sabia ela o que ele era?” (p.95).

Proust voltará a esta ideia na história de Baldassare e em muitos outros contos: o nosso amor não depende de nenhuma característica dos nossos amados. Aliás, por mais anos que amemos uma pessoa, Proust duvida que possamos algum dia vir a saber quem essa pessoa é. Para Proust, não é a beleza, a inteligência ou a virtude dos outros que nos faz amá-los, mas outra coisa qualquer. E é precisamente a nossa incapacidade de restringir os motivos para o nosso amor que leva a que, tal como um tumor, o nosso amor se alastre até ao ponto em que deixa de ser operável. Saber que são os olhos ou os gostos musicais de alguém aquilo que nos atrai é já uma maneira de domar e matar esse amor, pelo que talvez tenha que ser sempre uma pessoa que não faça o nosso género a levar-nos à perdição. Porque é sempre de perdição que falamos, segundo Proust, quando falamos em amor.

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