Anne Vik e Anderson Sadvei estavam bem identificados na tarde deste domingo, 6, em Lisboa. Junto ao MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Belém, assistiam de pé ao desfile das comitivas dos 43 países que concorrem ao Festival Eurovisão da Canção com uma indumentária especial: uma camisola com as cores da bandeira da Noruega e o nome do país (escrito em inglês) bem estampado. Ele assiste religiosamente ao festival (sempre in loco) desde a edição de 2008, em Belgrado. Ela está presente no local da final pelo quinto ano consecutivo. Os dois ouviram “Amar pelos Dois” em Kiev e gostam de “O Jardim” — Anne Vik diz mesmo que “adora”, canta-nos baixinho a melodia da canção (e ainda arranha a letra) e diz que ainda a “acha melhor” do que o tema de Luísa e Salvador Sobral.

O Festival Eurovisão da Canção tem um culto difícil de explicar, percebe-se cada vez mais à medida que os ensaios avançam e os dias das semifinais (8 e 10) e final (12) se aproximam. É um festival de emoções, que faz jornalistas confundirem-se com fãs e bloggers confundirem-se com jornalistas: no corredor dedicado à imprensa, onde se assistia à passagem das apresentadoras e concorrentes na “blue carpet”, ou passadeira azul, viam-se profissionais enrolados em bandeiras, a pedir selfies aos concorrentes e a cantar com eles os seus temas de eleição.

Sadvei e Vik são dois bons exemplos das centenas de fãs acérrimos e assumidos que vieram a Lisboa tratar os elementos das suas comitivas por tu, abraçá-los e apoiá-los na missão espinhosa de suceder a Salvador Sobral (a concorrente israelita Netta, a mais exuberante e requisitada, é a grande favorita à vitória nesta edição, segundo apontam as casas de apostas e os meios especializados). Mas a paixão ultrapassa o afeto pelas músicas do seu país. Anderson Savdei, por exemplo, não a sabe traduzir por palavras, diz isso mesmo quando tem de explicar porque é que há 11 anos anda atrás da Eurovisão: “Se ao menos eu soubesse a resposta a essa pergunta…”

Anne e Anderson conhecem bem as participações de Portugal na Eurovisão nos últimos anos — e até no Festival da Canção, cuja final acompanham ocasionalmente (fizeram-no este ano). Falam de “Senhora do Mar”, de Vânia Fernandes (que apadrinhou a estreia de Sadvei nas romarias do festival, em 2008), de “Todas as Ruas do Amor”, dos Flor de Lis. Este ano, têm boas expetativas para a final — “Também gostamos das canções de França, da Grécia, de Israel, da Suécia… e podia continuar. É um bom ano”, diz Savdei, que em 2016 visitou pela primeira vez Portugal para “provar vinhos” de Setúbal. De Lisboa, só têm boas coisas a dizer, embora tenham chegado há apenas 24 horas. Caminhar a pé pela capital, por exemplo, “é lindo”.

Embora gostem de “O Jardim”, o cantor que Anne Vik e Anderson Sadvei vão apoiar é, claro, Alexander Rybak, o concorrente do seu país. Rybak tem subido paulatinamente na lista de favoritos ao pódio, pelo que as expetativas do duo estão “a ficar cada vez mais altas. Ele é um grande performer, é muito carismático e tem uma voz muito doce. Achamos que pode ficar pelo menos nos cinco primeiros”, diz Anne. A vitória dar-lhes-ia ainda mais prazer do que o que tiveram em 2017, quando Salvador Sobral deu a Portugal uma vitória que há muito desejavam: “Nunca tinham ganhado e nós esperávamos há tantos anos por esse momento…”. Simpatia de turista, claro, mas também de aficionados pela canção portuguesa.

Daniela Ruah trata a Eurovisão como “uma peça de teatro”

Pode-se dizer que o desfile da Eurovisão começou e acabou com Portugal. Cláudia Pascoal e Isaura (que tiveram este domingo o seu segundo ensaio para a final) foram as últimas a caminhar pelo corredor da passadeira azul, distribuindo beijos, abraços e autógrafos — e respondendo a perguntas de alguma imprensa selecionada (nacional e internacional). A abertura ficou a cargo de Catarina Furtado, Sílvia Alberto, Filomena Cautela e Daniela Ruah, as apresentadoras da final escolhidas pela RTP.

Daniela Ruah, atriz cuja carreira internacional é notória desde a participação na série NCIS, é a menos experiente na apresentação, mas não se sente menos confiante. À imprensa portuguesa, disse estar a tratar a experiência “como uma peça de teatro”, é como se “entrasse em personagem” nos ensaios para a final. “E faz muito bem o seu papel”, ouviu de Sílvia Alberto. Catarina Furtado, que deu uma longa entrevista ao Observador esta semana onde falou da longa carreira em televisão, da família e de assédio sexual, corroborava: “Nasceu com muito talento”.

“Para nós isto é segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado”, dizia Daniela Ruah, falando da intensidade da preparação para a final. “Acho que no domingo vamos para a Altice Arena e está fechada”, brincava Catarina Furtado. Depois do festival, vêm outros projetos, revelaram: Catarina Furtado vai “organizar a festa de anos da mãe”, que faz anos na véspera, sábado, dia da final, Daniela Ruah vai estar “ocupada a trocar fraldas para dar um alívio” à sua mãe. Os filhos River Isaac, de três anos e Sierra Esther, com um ano, vieram com a atriz para Portugal.

Só decoro aquilo que oiço de bom, é impressionante [ri-se]. Mas há uma avalanche de energia positiva de todos os portugueses e todas as portuguesas e há um consenso em relação a nós as quatro… evidentemente que as pessoas têm os seus gostos mas nota-se aqui uma união que acho que simboliza Portugal. Devíamos ser assim também noutras causas, para além do futebol e da Eurovisão… É uma boa mensagem para nos unirmos mais”, apontou Catarina Furtado.

Os ensaios para as semifinais e final prosseguem esta semana. A primeira meia-final acontece já na terça-feira, dia 8 de maio, com 19 países (Azerbeijão, Islândia, Albânia, Bélgica, República Checa, Lituânia, Israel, Bielorrúsia, Estónia, Bulgária, Macedónia, Croácia, Áustria, Grécia, Finlândia, Arménia, Suíça, Irlanda e Chipre) a lutarem pelos dez bilhetes de acesso à final. Para esta estão já apurados Portugal (por ser o país anfitrião), Reino Unido, Espanha, França, Alemanha e Itália.