O Millennium BCP lucrou mais de 85 milhões de euros no primeiro trimestre, informou esta segunda-feira o banco liderado por Nuno Amado. Trata-se de uma subida superior a 70% face aos 50 milhões de euros registados no mesmo período do ano passado. O presidente do banco comentou, também, as notícias de um alegado “perdão” de dívida ao Sporting CP garantindo que o “único critério que existe é o do interesse do banco”. Sobre a proposta dos juros negativos que vai ser discutida no parlamento, Nuno Amado pede aos legisladores que não “enfraqueçam” a banca.

A subida dos lucros deve-se, afirma o banco, a um “forte crescimento do contributo da atividade em Portugal” e a “evolução positiva do negócio internacional, com contributo estável”. Os resultados líquidos subiram para 85,6 milhões de euros, e para esse valor as operações em Portugal contribuíram com 44,5 milhões de euros. O banco acrescentou que, na sua “melhor expectativa”, é possível que possa já pagar dividendos aos acionistas relativamente aos resultados de 2018, ou seja, em 2019.

O indicador mais destacado pelo banco, contudo, está ligado à redução das exposições a créditos em incumprimento (e outros ativos não-produtivos, non performing exposures, ou NPE), que baixou para 6,3 mil milhões — uma redução de 500 milhões no final de 2017. Houve, diz o BCP, uma “redução dos NPEs líquidos de imparidades de 9,8 mil milhões de euros no final de 2013 para
3,4 mil milhões em 31 de março de 2018”.

Os lucros beneficiaram de um aumento de 3,8% na margem financeira — a diferença entre os juros pagos pelo banco para se financiar, designadamente nos depósitos, e os juros que cobra nos créditos. As comissões também aumentaram, com o valor total cobrado a subir 4,4% e a contribuir com sete milhões de euros para o resultado líquido. Por outro lado, se no primeiro trimestre de 2017 o banco tinha colocado de parte mais de 200 milhões de euros em provisões, desta vez as imparidades e provisões ficaram abaixo de 130 milhões de euros.

“Estamos a caminho da normalização na quantidade de imparidades que o banco regista a cada trimestre”, afirmou Nuno Amado, o presidente do banco na conferência de imprensa de apresentação de resultados. Apesar da subida de 70% dos lucros, o banco teve resultados inferiores a bancos como o Santander Totta e o BPI, algo que Nuno Amado justifica com o facto de esses bancos não terem um fardo de créditos problemáticos da mesma dimensão do BCP — e que o banco tem vindo a reduzir.

O Millennium BCP garante que a carteira de crédito que está a pagar juros normalmente aumentou, em Portugal, em 500 milhões de euros — para cerca de 31.700 milhões, o que Nuno Amado atribui a uma “dinâmica empresarial forte” e ao “crescimento da economia”. “Queremos emprestar. E queremos emprestar bem”, afirmou o presidente do maior banco privado português.

Juros negativos nos créditos. “Nós não vivemos numa ilha”

Nuno Amado criticou, também, como fez horas antes o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), a proposta que será discutida na quarta-feira no parlamento. O presidente do BCP pediu aos legisladores que se lembrem que “não vivemos numa ilha” e estamos na construção de uma União Bancária onde não deve haver medidas que penalizem a concorrência entre os bancos dos vários países.

“Respeitaremos o enquadramento legal que vier a ser seguido. Mas não nos parece que seja uma medida equilibrada, justa e proporcional. Não tem proporcionalidade entre depósitos e crédito, pode ter efeitos colaterais no cumprimento de relacionamento com as autoridades europeias no que diz respeito”, afirmou Nuno Amado. Em causa podem estar operações de refinanciamento ou a existência de mecanismos de emergência junto do BCE onde os ativos do banco podem deixar de contar. Mas estas são questões que o banco só conseguirá analisar em detalhe quando a proposta for aprovada — de qualquer forma, Nuno Amado não exclui avaliar a legalidade ou a constitucionalidade da medida que vier a ser aplicada.

Achamos que é um risco que pode ter efeitos colaterais pedimos aos legisladores para analisarem todos os efeitos.”

“Nós falamos da União Bancária e depois esquecemo-nos da União Bancária”, acrescentou Nuno Amado. “Neste enquadramento, não faz sentido pensar que estamos 10 anos atrás: se queremos concorrer com bancos alemães, espanhóis, não é correto”.

“Não nos prejudiquem”, pede Nuno Amado, argumentando que “bancos nacionais mais fracos implicam menos capacidade para emprestar no futuro”.

Questionado pelo Observador se a alternativa poderá passar por pedir para passar a ser permitido pagar juros negativos, simetricamente, nos depósitos (como acontece na Dinamarca), Nuno Amado assegurou que “a base que gostamos ter, na relação com os nossos clientes, é a base de que a Euribor não baixa de zero — tudo o resto não é algo saudável, é algo difícil de quantificar e qualificar”.

Sporting? “Apenas defendemos os interesses do banco”

Quanto ao caso do alegado “perdão” de dívida ao Sporting CP, o BCP recusa fazer comentários sobre situação de clientes específicos mas garante que “nunca houve outro critério que não a defesa dos interesses do banco”. A direção do banco acrescenta, também, que desde 2013 que não se fazem novos empréstimos nem investimentos em clubes de futebol, já que “por razões emocionais” pode ser “difícil” ser imparcial em decisões de crédito.

“As decisões não são tomadas em folha branca”, acrescentou Miguel Maya, o vice da comissão executiva de Nuno Amado, garantindo que aos administradores cabe “defender o menor nível de perdas, quer do ponto de vista económico seja o mais racional” e remetendo mais questões para os intervenientes que falaram sobre o alegado perdão de dívida ao clube liderado por Bruno Carvalho.