O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, Vítor Veloso, lamenta que os apoios governamentais às famílias que são atingidas por uma situação de cancro não sejam eficazes, o que leva a que tenham de ser as instituições privadas a prestar muitos dos cuidados à população. Em declarações ao Observador, o responsável explicou em que são aplicados os fundos que a Liga angaria através da consignação do IRS e do peditório nacional e adiantou que no ano passado foram gastos 1,3 milhões de euros só em apoios diretos a famílias nesta situação.

Vítor Veloso, antigo diretor do IPO do Porto, critica também a atuação das autoridades portuguesas no caso do hospital de São João, questionando como foi possível que a situação se tenha arrastado durante tantos anos quando em causa estavam crianças e lamentando que os doentes tenham medo de se queixar por temer represálias das instituições.

1,3 milhões para famílias porque “auxílio governamental é péssimo”

Sem financiamento público, a Liga Portuguesa Contra o Cancro depende exclusivamente dos donativos dos cidadãos sobretudo em dois momentos do ano: a entrega do IRS (a Liga é uma das instituições que mais recebem a consignação de 0,5% do IRS) e o peditório anual, realizado por todo o país. “Tudo o que angariamos é da população. Por isso é que temos um cuidado extraordinário na aplicação que damos a esse dinheiro”, sublinha Vítor Veloso.

O escândalo em torno da associação Raríssimas, garante o responsável, apesar de ter sido uma “situação dramática” que afetou as receitas de muitas instituições de caridade, não interferiu nas contas da Liga Portuguesa Contra o Cancro. “Não teve uma grande repercussão”, sublinha Vítor Veloso, salientando que “houve uma diminuição de 5% nas receitas do peditório, que se explica pelo facto de não se ter feito o peditório em regiões do país que foram afetadas pelos incêndios”.

Também a campanha do IRS no ano passado correu bem, garante o presidente da Liga. “Fomos bastante beneficiados pela população, as pessoas reconhecem o trabalho que a Liga está a fazer”, destaca Vítor Veloso, também ex-diretor do IPO do Porto. “Nunca pode faltar dinheiro para auxiliar o doente oncológico.”

Apesar de não divulgar o valor total angariado pela instituição, Vítor Veloso garante que são “quantias muito importantes que permitem a sustentabilidade da Liga” e adianta que só no ano passado a instituição gastou 1,3 milhões de euros no apoio direto a três mil famílias portuguesas.

“O dinheiro usado sobretudo no auxílio nos transportes, nos medicamentos não comparticipados, nas próteses não comparticipadas, mas também no pagamento de luz, água e até alimentação a famílias que ficaram completamente destroçadas quando o único elemento da família que tinha rendimentos foi atingido por um cancro. O auxílio governamental a estas famílias é péssimo e nós intervimos aqui. Estamos a falar pelo menos de três mil famílias. Só aí, no ano passado, gastámos um milhão e 300 mil euros”, observa Vítor Veloso.

O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro destaca ainda o apoio psicoemocional que é prestado gratuitamente a doentes, familiares e profissionais de saúde por 2 mil voluntários hospitalares e por cerca de 15 mil voluntários comunitários (nas vilas e cidades do interior) sob as orientações da Liga. “É importante que haja esse apoio logo num primeiro momento, quando se recebe a má notícia, quando se é confrontado com as opções de tratamento. Os profissionais, por norma, não têm tempo para dar este apoio e nós temos estes voluntários, que são um dos nossos pilares.”

Segundo explica Vítor Veloso, “pode faltar dinheiro até para as campanhas, mas para o apoio aos doentes e às famílias não”. Além do apoio direto, a Liga Portuguesa Contra o Cancro gasta os donativos que recebe na prevenção primária. “O Estado não tem apetência para a prevenção primária. Há 77 anos que nós o fazemos, nomeadamente na promoção de hábitos de vida saudáveis, no alerta contra comportamentos de risco, etc.”, detalha o responsável, sublinhando que “cerca de 60% dos cancros que aparecem precocemente devem-se aos hábitos de vida”.

São João. A culpa vai do conselho de administração até ao primeiro-ministro

A situação do hospital de São João, no Porto, é um dos casos concretos que mais preocupam o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro. O problema mais grave, sublinha Vítor Veloso, é o da quimioterapia realizada nos corredores da ala pediátrica, que há cerca de uma década funciona em contentores. “A situação arrasta-se há vários anos e há inúmeras maneiras de a resolver, mas vai arrastar-se durante meses”, acredita o responsável.

Porque é que o Estado está a falhar na ala pediátrica do Hospital de São João?

A culpa, considera Vítor Veloso, não é exclusiva de uma ou outra entidade. “A culpa é de toda a linha, que vai do conselho de administração até ao primeiro-ministro”, afirma. “Como é que esta situação se arrasta durante anos em crianças?”, questiona, sublinhando que as crianças “são as mais sensíveis em oncologia”.

O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro lamenta também o facto de “ter sabido através dos jornais” da situação extrema a que a oncologia pediátrica chegou. Mas reconhece o porquê: “Os doentes normalmente têm medo de se queixar, temem represálias por parte das instituições. Mas não há qualquer retaliação por parte dos profissionais de saúde”, garante, acrescentando: “São os próprios médicos que muitas vezes levantam os problemas, porque se sentem impotentes para resolver as situações”.

Eutanásia? “Deve dar-se conforto, carinho e amor”

Vítor Veloso garante ainda que a Liga Portuguesa Contra o Cancro vai entrar na discussão sobre a eutanásia para dar um contributo, mas que ainda é prematuro fazê-lo, uma vez que ainda não foi discutido dentro da instituição. Contudo, o responsável considera que “uma eutanásia ativa, pessoalmente, dá que pensar”. “O que eu acho é que, efetivamente, não deve haver terapêuticas agressivas ou de continuidade. Deve dar-se conforto, carinho e amor, tirar dores e criar um ambiente favorável”, defende.