A israelita Netta é a grande vencedora da 63.ª edição do Festival Eurovisão da Canção. A cantora, que apresentou o tema “TOY” em Lisboa, arrecadou 529 pontos, 317 dos quais atribuídos pelos telespectadores espalhados por toda a Europa, Israel e Austrália. Do júri recebeu 212 pontos. Esta é a pontuação mais alta alguma vez atribuída ao país, que não vencia a Eurovisão há 20 anos. Israel, que fez a sua estreia no concurso de música europeu em 1973, participou 41 vezes, vencendo em 1978, 1979, 1998 e agora em 2018. No discurso de agradecimento, depois de ter recebido o prémio das mãos do português Salvador Sobral, vencedor da edição do ano passado, Netta agradeceu ao público por ter escolhido a “diferença”.

A cantora foi, desde o início, uma das grandes candidatas à Eurovisão, surgindo quase sempre em primeiro lugar nas preferências dos fãs. Uma “mistura de Bjork, Yelle e M.I.A”, como descreveu o jornal The Independent, a cantora de 25 anos conta já com uma sólida carreira no mundo da música. Do seu curriculum consta uma passagem pela banda da marinha israelita e um contrato de três anos como cantora no Bar Giora, em Tel Aviv. Em 2016, fundou o grupo The Experiment, participando, nesse mesmo ano, na produção teatral Running on the Sea, como conta o site da Eurovisão

Foi também mais ou menos nesta altura que entrou para os Gaberband (do qual faz ainda parte), que já a levaram a atuar em várias localidades israelitas e também fora do país. A música que a fez destacar-se nesta edição da Eurovisão, “TOY”, foi composta pelos israelitas Doron Medalie (um dos compositores de maior sucesso em Israel), e Stav Beger. O Independent descreveu o tema como uma “mistura de estranhos loops vocais, maneki-nekos”, aqueles gatos chineses que apareciam ao fundo do palco durante a atuação, “referências ao Pokémon e passos de dança de galinha”.

Netta: “O Salvador Sobral respeitou-me quando me deu o microfone”

Depois da atuação final, no encerramento da cerimónia, Netta respondeu a algumas perguntas dos jornalistas. Uma delas foi sobre os comentários depreciativos feitos por Salvador Sobral (que, em entrevista ao Público, descreveu o tema israelita como “horrível”). Ao contrário do que seria de esperar, Netta disse ter sentido que o português a “respeitou” quando lhe entregou “o microfone” de cristal. “Já tweetei sobre esse assunto e mantenho o que disse: só tenho amor por ele”, afirmou. “Disse sempre desde início que comparar géneros musicais é engraçado. Comparar músicos é um pouco peculiar. Quando era favorita [nas casas de apostas] sempre referi isso. Acredito na autenticidade e o meu objetivo é tocar o máximo de pessoas possível com a minha canção.”

[Veja no vídeo quem é Netta Barzilai, a vencedora da Eurovisão]

Pedindo desculpa pelo seu inglês, a vencedora desta edição da Eurovisão disse à imprensa israelita e aos fãs (que cantaram e dançaram a sua música de pé, na sala da conferência de imprensa, situada junto ao Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações) que ficar em primeiro lugar o concurso de música “é a melhor coisa que pode acontece”. “As pessoas escolheram algo diferente, que é vanguardista. Escolheram 2018, no fundo. Estou orgulhosa e honrada por ter participado e por levar este evento mágico até Israel“, disse a cantora, explicando que tenta sempre ser ela própria, “criar algo novo, romper com os rótulos”. “Temos um caminho fantástico pela frente e vamos celebrá-lo”, afirmou ainda.

Enquanto limpava algumas lágrimas da cara, a vencedora recordou o momento do anúncio da vitória de Israel. “É tudo uma grande mancha negra. Lembro-me de ter seis pessoas ao meu lado a gritar, e eu só perguntava: o que é que está a acontecer? As pessoas à minha volta percebiam mais da Eurovisão do que eu”, disse entre risos. “Além do que eu uso óculos e, como não os estava a usar, não conseguia ver o ecrã das pontuações.” Sobre o concurso israelita de acesso à Eurovisão, Netta explicou que este “dura cinco meses ou perto disso”, que é “basicamente um reality show” e que só participou “porque era uma artista em dificuldades”.

Durante a conferência de imprensa junto ao Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, houve lágrimas, risos e elogios a Salvador Sobral (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

“Não esperava ganhar, porque sou demasiado avant-garde. Então pensei: vou fazer um par de audições e vou para casa. E depois ganhei. Foi complicado no início mas percebi que podia fazer algo especial com a vitória. Acho que o meu ‘eu’ mais jovem seria menos infeliz se tivesse um exemplo a seguir no horário nobre na televisão. É por isso que estou a fazer isto nesta plataforma [televisão]. E estou feliz por o ter feito“, afirmou. Em resposta a uma pergunta acerca da devoção que lhe tem a comunidade LGBT presente no festival, a cantora disse que “uma grande parte da equipa” pertence a esse grupo. “Tomaram conta de mim e mantiveram-me segura durante todo este tempo, mesmo quando foi difícil. Não sou nada sem eles”, afirmou, emocionada.

Durante a conferência de imprensa, a cantora mostrou ainda um anel que usa sempre e que pertenceu à sua avó, uma “mulher grande e independente”, que morreu quando Netta tinha 12 anos. “Foi traumático para mim. Quando ganhei o concurso em Israel e ficámos a saber que ia concorrer à Eurovisão, o meu avô decidiu que queria dar-me o anel para me dar força. Deu-me muita confiança. Supostamente só o devo receber quando me casar, o que acho que não vai acontecer em breve por causa da minha carreira.” Questionada sobre o que ia fazer para celebrar a vitória, Netta disse que ia encontrar-se com os fãs israelitas. Até porque “não há nada como uma festa israelita, nada”. “E vão poder vê-lo no próximo ano.”