O minuto, horrível para aqueles que são das balizas, aqueles que se esticam até ao seu último tendão, que tantas vezes desafiam, afrontam mesmo!, as leis da física e voam, era o 92. Patrício acabaria deitado, cabisbaixo, imóvel, rosto sobre o relvado, humilhado. E manteve-se assim segundos que pareceram horas, até que alguém por fim o amparou e Patrício lá se ergueria.

Ghazaryan, um dez arménio com talento a mais para o Marítimo, esgueira-se pela esquerda, William, exausto, fica a vê-lo ir, todos ficam, exausto como William, e Ghazaryan remataria. Em esforço, fraco, rasteiro, enrolado e ao centro da baliza. Era daqueles remates que Patrício defende sem titubear, daqueles que ele diz venham muitos. Mas titubeou.

Aquele pedaço redondo de couro e ar, aquele pedaço redondo de couro e ar que ele impede que ultrapasse uma linha que tem inviolada há tanto tempo, escapou-lhe das luvas, por entre as luvas, e caprichoso, lentamente, entrou na baliza. E o Marítimo derrotou o Sporting. E o Sporting verá a Champions pela TV no ano que vem.

Patrício não merecia. Não ele. Não no Estádio dos Barreiros, no Funchal. Estreou-se lá.

19 de novembro de 2006. Tinha ainda com idade de júnior. Mas o balneário dos “graúdos” não lhe era necessariamente estranho, pois treinava com os seniores durante a semana. Patrício até já tinha sido chamado à baliza do Sporting, contra o Real de Massamá e o Deportivo da Corunha. Isto naqueles encontros de começo de temporada, de que ninguém se lembrará. Ali, na Madeira, seria a sério. E ninguém se esquecerá da estreia de Patrício.

O titular Ricardo lesionou-se antes mesmo do jogo, Tiago, o suplente de Ricardo, lesionou-se durante o próprio jogo, e Paulo Bento acaba por dizer Patrício o que Patrícia mais sonhava ouvi-lo dizer: “Vai!” Entraria nervoso, falhou, acertou depois. Até que ao minuto 74, prrriiiii!, penálti. Patrício, o ainda júnior Patrício, adivinhou o lado para onde Kanú o bateria, o direito, defende e Sporting venceria.

Entre aquela estreia no Funchal, vitoriosa, e a derrota deste domingo, passaram-se centenas e centenas de partidas. É hoje o terceiro jogador mais utilizado na história do Sporting, estando a somente cinco jogos de igualar Damas, o lendário — como lendário Patrício já se tornou também — Vítor Damas.

Mas Patrício não vai igualar — a menos que, como Vítor Damas, regresse ao Sporting já no fim dos seus dias debaixo das balizas. Patrício vai partir nos próximos tempos, talvez a seguir ao Mundial, ou quem sabe antes mesmo deste, talvez para Itália e o Nápoles, talvez para Inglaterra e o Wolverhampton. 15 milhões de euros é o valor pedido, diz-se por aí. A despedia (inglória, tão inglória) na casa de partida, Patrício não a merecia. E sai até avesso com os adeptos — ou as claques –, tendo-se recuado a saudá-los, ao contrário do que sempre fez, no final do encontro com o Marítimo. Todos o fizeram menos ele.

Mas ainda se pode despedir do clube noutra “casa” onde já se fez herói um dia, o Jamor, e despedir-se segurando, capitão que é, um último troféu.