Para quem gosta de corridas e ambiciona tornar-se piloto, há uma série de factores que tradicionalmente impede a materialização do sonho, com o orçamento a ser definitivamente um deles. Os carros tipicamente são caros e, depois, há a preparação para competição – que é tão mais cara quanto complexo for o modelo e a sua mecânica –, a assistência em prova, os pneus e até as reparações dos pequenos ou grande toques, que tendem igualmente a ser tão mais onerosas quanto dispendioso é o veículo utilizado. Felizmente, há espaço para todos, desde os pilotos que visam uma carreira profissional, participando nas disciplinas mais reputadas do automobilismo, aos que correm apenas por prazer, concentrando-se em fórmulas mais simples e acessíveis, mas que assegurem o gozo de medir meças com os adversários, disputando cada milímetro da pista, idealmente com carros tão equivalentes quanto possível.

Em Portugal, a forma mais barata de competir sempre esteve a cargo dos troféus monomarca, com carros necessariamente iguais, e assim mantidos através de inspecções minuciosas. Mas depois de serem muito populares nos anos 90, desapareceram do mapa. Até este ano, em que a Kia e a CRM Motorsport uniram esforços para montar o Kia Picanto GT CUP, uma competição em que os pilotos têm à disposição um veículo citadino, tão pequeno quanto leve, equipado com um motor 1.0 Turbo de três cilindros, que assegura 140 cv e a necessária diversão.

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O Picanto GT é proposto por cerca de 11.500€, mas trata-se de uma versão distinta da que é comercializada entre nós, recorrendo a um motor sobrealimentado que, com uns pequenos toques na electrónica de gestão do motor, sobe dos originais 101 cv para uns bem mais entusiasmantes 140 cv. De caminho, os 993 kg do modelo também baixam, pois todos os elementos de conforto desaparecem (bancos, tapetes e isolamentos) com o habitáculo a passar a exibir apenas uma baquet de competição e um roll-bar integral, fabricado em Portugal pela Kimso. A estas peças há que juntar o restante kit de transformação, proposto por 12.700€, que inclui ainda um escape completo e uma nova admissão de ar, além de extintor, cintos de segurança, jantes de competição, molas e amortecedores.

Tivemos a oportunidade de conduzir o pequeno bólide no Autódromo do Estoril, numa fase em que o Picanto GT de troféu já estava pronto para começar a ser entregue aos seus futuros pilotos, com a Kia a ter garantido 13 veículos à partida para a primeira prova da época (a Rampa da Falperra, realizada este fim-de-semana), número que rapidamente ascenderá às 20 unidades para as restantes cinco provas.

O Picanto GT é um daqueles carros que mais parece um brinquedo, mas que assim que saímos das boxes em direcção à primeira curva nos conquistou por ser fácil e previsível, onde tudo funciona como num automóvel convencional. Destina-se a atrair pilotos recém-chegados dos karts, em busca de uma fórmula que lhes permita evoluir, mas igualmente condutores mais velhos, interessados numa disciplina que lhes permita “brincar” aos pilotos ao fim-de-semana.

Os travões de série revelam-se mais que suficientes para parar o GT, mesmo depois de três voltas com um ritmo mais vivo, para com a ajuda de uns Hankook (propostos por pouco mais de 80€, mas garantindo duas a três centenas de quilómetros com um nível de aderência respeitável), o Picanto revelar uma agilidade muito interessante. A frente entra bem nas trajectórias, aqui a usufruir de uma distância tão curta entre eixos que limita o fugir de frente, para depois nas curvas rápidas se revelar estável e previsível.

Não será um Fórmula 1, mas anda mais do que antevíamos, é fácil de conduzir e, garantida como está a igualdade entre os 20 carros (com mecânicas seladas e inspecções regulares), vai dar origem a corridas animadas, para já em circuito e em rampas (quatro e duas, respectivamente), mas também em breve nos ralis, com a promessa de que o Picanto GT CUP vai manter-se durante os próximos quatro anos, o que faz reduzir drasticamente os custos por época e prevê melhorias anuais, para se tornar mais rápido e eficaz, e um maior desafio para os pilotos, que até podem partilhar um carro por cada fim-de-semana de corridas, cortando as despesas para metade. Mas a competição vai ficar mesmo em conta para os dois vencedores do Kia Racing Opportunity, iniciativa que seleccionou os melhores entre quase centena e meia de candidatos, que agora têm como prémio uma época de corridas, com tudo pago.