Crítica de Livros

Ribeira Grande: uma escola exemplar

A Escola Gaspar Frutuoso em Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, é o tema do novo livro de Carlos Almeida Marques, o arquiteto que a projetou. Vasco Rosa dá-lhe cinco estrelas.

A Escola Gaspar Frutuoso fica situada em Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, Açores

Fernando Guerra | FG + SG ultimasreportagens.com. Cortesia do Autor

Título: Gaspar Frutuoso School. Architecture as a pedagogic space
Autor: Carlos Almeida Marques
Editora: Caleidoscópio
Páginas: 128
Preço: 34,98 €

Gaspar Frutuoso School. Architecture as a pedagogic space, de Carlos Almeida Marques, foi editado pela Caleidoscópio

Inaugurada em setembro de 2017, no início do presente ano escolar, a Escola Gaspar Frutuoso em Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, é agora também o tema deste livro a todos os títulos exemplar, espelhando e refletindo a própria obra do arquiteto Carlos Almeida Marques. Desde logo — e apesar disso não vir indicado, como merecia, na capa e/ou no frontispício — pelo portefólio de Fernando Guerra, grande mestre da fotografia de arquitetura, tornando o conjunto de imagens do interior e do exterior dos edifícios uma lição de ver e de dar a ver. A escolha dessa prestigiada e competentíssima colaboração dá-nos logo boa nota da excelência exigida para o livro que folheamos com gosto e admiração, expondo da melhor maneira os conceitos orientadores do projeto e da construção. Quem não vive nos Açores ou a eles não possa deslocar-se, como gostaria, encontra nas fotografias aqui publicadas a presença dos ambientes — diurnos e noturnos — do equipamento escolar e sua envolvência paisagística. Tirando todo o partido da transparência de grandes estruturas de vidro e aço, a imaginação do arquiteto desenhou uma estrutura física aberta às envolvências naturais e humanas, que reciprocamente varre cortinas sobre o ambiente escolar interno, expondo-o à curiosidade de quem vem ou passa, e sem que o vasto complexo escolar se imponha na paisagem com a falta de elegância e parcimónia habituais.

Essa lúcida negação da opacidade e da monumentalidade tantas vezes induzidas a construções públicas de educação e justiça, aproveitando toda a beleza dos panoramas ilhéus e o próprio conforto das instalações contemporâneas (que já não são os pavilhões pré-fabricados quase definitivos de outros tempos), favorecem sem dúvida a qualificação do quotidiano de crianças e jovens, tornando o tempo que eles passam na escola duplamente proveitosa e aprazível. E isso é importantíssimo. Uma arquitetura de excelência exibida e posta ao serviço de gente de terna idade, ensina-lhe o sentido profundo e amplo da palavra educação — e obviamente instalações escolares desse nível e padrão também favorecem o ânimo e dignificam o desempenho dos próprios professores, hoje oficiais de um serviço público difícil, a ponto de comportar riscos físicos e outros. Também por isso o caso desta nova escola açoriana me parece exemplar como resposta a disfunções sociais em meios carenciados e expostos a conflitualidade. O bem-estar propiciado por um bom equipamento escolar — em que espaços de ócio clássico e outras funcionalidades complementam salas de aula generosas —, concede a jovens de diferentes grupos etários um termo comparativo face a outros contextos da sua vida diária, ela própria ali a todos os momentos marcada pelo inevitável efeito da insularidade e do isolamento oceânico: o estabelecido Azorean torpor, o “mormaço”.

Fernando Guerra | FG + SG ultimasreportagens.com. Cortesia do Autor

Uma escola onde seja muito bom estar também pode servir de travão ao crescente — e inquietante — abandono escolar. Não admira, por isso, que a experiência ou a lição constituída por esta construção se queira fazer notada internacionalmente como paradigma de boas práticas dum “espaço pedagógico” (no título). Não passa despercebido o caso raríssimo entre nós de no livro a versão inglesa preceder e destacar-se tipograficamente do texto português, nem tão-pouco a aposta nas fotografias de Fernando Guerra, que é um nítido up-grade face, por exemplo, ao portefólio incluído em anterior álbum deste arquiteto (também editora Caleidoscópio, 2015, 168 pp.).

Esta não é a primeira vez que Carlos Almeida Marques projeta estabelecimentos de ensino. Além da Escola Secundária Júlio Dantas, em Lagos (2009-10), assinou em 2007 o centro escolar de Oliveira do Douro (Cinfães), o projeto que melhor dialoga com a escola básica integrada da Ribeira Grande. Não tanto topograficamente, pois a implantação faz-se ali no declive sobre um vale rural, mas pelo empático arrojo visual, com revestimentos de chapa de zinco-titânico pré-patinado, betão descofrado nas fachadas, muito vidro nos espaços de transição e nos corredores de salas de aula, consolas suspensas com claraboias abertas aos panoramas vizinhos, além dum “castro” infantil, uma horta pedagógica e um campo desportivo polivalente. Mas os seus interesses e obra de projetista também atingem outras áreas de evidente propósito comunitário ou social: na dinâmica Vila Nova de Paiva (Viseu), por exemplo, além da biblioteca municipal, desenhou em 1998-2004 o parque urbano envolvente da praia fluvial; e em São Pedro do Sul concebeu em 2002-4 o novo cemitério municipal, uma estrutura moderna, depurada, circular, com socalcos suaves e aconchegada a um pequeno bosque. Este trabalho marcante com diferentes intervenções num mesmo lugar também ocorre em Ribeira Grande, onde o arquiteto desenhou o Passeio Atlântico e é coautor da Casa-Museu do Arcano, distinguida pela Fundação Vilalva em 2013. (E faço notar que a segunda cidade micaelense também dispõe, desde maio de 2015, do centro de artes contemporâneas Arquipélago, concebido por João Mendes Ribeiro, Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes, um edifício arrojado que já recebeu um prémio internacional e é candidato a outro).

O livro é composto por quatro partes, além do portefólio fotográfico propriamente dito: o prefácio de Luiz Fagundes Duarte, antigo deputado socialista e o diretor regional de educação envolvido no concurso e implementação desta unidade escolar; o texto “A experiência da arquitectura” de Lizete Rubano e Isabel Villac, que do meu ponto de vista não aquece nem arrefece o que seja sobre o assunto; “A arquitectura como espaço pedagógico” do próprio Carlos Almeida Marques (a que voltarei adiante); e finalmente um conjunto de plantas, cortes e alçados dos edifícios da Escola Gaspar Frutuoso, que podem ser vistos com toda a atenção que merecem, ainda que as informações sobre os materiais utilizados sejam reduzidas, ao contrário do que sucedera no citado livro de 2015. Mesmo assim, é sobretudo aqui (pp. 107, 118; 120-21) que podemos aperceber o profundo trabalho induzido neste projeto: todas as áreas de salas de aula estão ordenadas por uma série de paredes amovíveis (na verdade, “painéis compósitos de partículas de madeira e cimento”), suportadas por extensa e discreta estrutura metálica (pp. 116-17), permitindo que facilmente novas valências e funcionalidades ali possam vir a ser criadas no futuro; e particular atenção foi dada ao desenho das janelas, em função direta das condições climáticas locais, quer para indispensável controlo do dispêndio energético por via do isolamento térmico, quer em termos de gestão da luminosidade — e a série sequencial de finestras colheram inspiração na fachada do convento de Nossa Senhora da Esperança, contíguo à igreja do Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada (v. p. 32): um exercício autoral de reinterpretação histórica típico de Carlos Almeida Marques, que em 2000 “refez” a janela de guilhotina num edifício da Travessa da Água da Flor, em Lisboa.

Fernando Guerra | FG + SG ultimasreportagens.com. Cortesia do Autor

O texto do arquiteto incluído neste volume é um comentário pessoal e direto à obra The Language of School Design. Design paterns for 21st Century Schools, de Prakash Nair e Randall Fielding, de 2005, a partir do qual Almeida Marques explica as suas opções de escola como “centro de formação para a comunidade” (p. 90), a sua preocupação com a formação física e a consciência ecológica destes futuros adultos, em especial na recuperação e uso das águas pluviais para fins sanitários, mas também com a eco-edificação, já referida a propósito das paredes amovíveis, naquilo que chama “uma arquitectura para desconstrução” (pp. 94-95), um desenho sustentável que atende ao tempo de vida dos edifícios e jogue com a “ideia prática de reutilização” ou reciclagem. A escola pode, por tudo isso, ser entendida como um espaço de pedagogia dum viver social esclarecido, consciente dos debates e desafios do tempo presente e futuro em que estes jovens estudantes terão — melhor ou pior — uma palavra a dizer.

Nesse sentido, o nome tão auspicioso de Gaspar Frutuoso — ilustre cronista e famoso autor de Saudades da Terra (um elogio dos Açores e da sua gente em seis volumes, de publicação muito póstuma), falecido ali em Ribeira Grande em 1591 — dado a esta nova e bela escola também pode ser visto, além da justíssima homenagem que é, como uma clara herança recebida que vem desafiar fortes compromissos com o futuro. Que pelo menos alguns dos seus 12 mil alunos o saibam entender assim…

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