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No final do encontro em Alvalade com o P. Ferreira, que Bruno de Carvalho admitiu esta segunda-feira ter sido uma espécie de “cartão amarelo” para si por parte dos sócios e adeptos, o presidente leonino deslocou-se ao auditório Artur Agostinho para abordar tudo o que se tinha passado na primeira noite em que sentiu pela primeira vez (pelo menos de forma mais visível) sinais de contestação. Ao longo de 15 minutos, o líder verde e branco falou de vários temas; pelo meio, voltou a surgir o nome que menos saudades lhe traz desde que chegou a Alvalade: Marco Silva.

“Todos temos o direito de mostrar os nossos descontentamentos, fiquei um bocadinho vacinado depois dos assobios relativamente ao treinador Marco Silva, mas o que não é admissível é o de adjetivarem, se querem a demissão há regulamentos (…) Essa pergunta faz-me lembrar um outro post, que foi a seguir a um jogo da equipa B e não em Guimarães [n.d.r. 2014, altura em que Marco Silva estava no comando da equipa]. Continuo a achar que o post é perfeitamente normal e que tudo isto… É normal, somos Sporting, somos pródigos nisto. Mas não vou voltar a sofrer calado aqui que sofri durante um ano: as pessoas do Sporting podem não querer saber das coisas, que é um direito que lhes assiste, agora da minha parte vou continuar a informar (…) Dentro do Sporting ninguém me falta ao respeito. Esta situação não é nova, mudaram os atores: deixou de ser um para serem muitos”, disse.

Não foi a primeira vez que tal aconteceu em 2018. Em fevereiro, na Assembleia Geral que ratificou com quase 90% a permanência dos órgãos sociais no clube, Bruno de Carvalho falou das acusações do antigo treinador, “que foi despedido do Olympiacos, desceu de divisão uma equipa que gastou milhões, foi despedido do Watford e disse aos jornalistas que nunca o ia despedir do Sporting, mas que seria ele a fazer com que os sportinguistas me despedissem a mim”. Mais recentemente, contou no canal do clube um episódio onde percebeu que a fonte que tinha feito uma manchete num jornal desportivo dizendo que a porta do balneário estava fechada para o líder tinha sido o próprio Marco Silva. Antes, desde a saída do técnico, já tinham existido mais farpas do presidente.

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Se existe episódio que Bruno de Carvalho não esquece em cinco anos do Sporting foi a “novela Marco Silva”; se existe algo que quer agora evitar é o aparecimento de uma “novela Jorge Jesus”. Pelo menos, nestes moldes.

Leonardo Jardim foi a primeira aposta do atual presidente em Alvalade, em 2013. Depois das boas campanhas no Desp. Chaves, no Beira-Mar e no Sp. Braga, o técnico passou pelo Olympiacos e chegou a estar apontado mais do que uma vez ao FC Porto. Bruno de Carvalho encontrou-se duas vezes com o treinador, quando as hipóteses verde e brancas de corrigir a pior temporada de sempre estavam esgotadas (sétimo lugar em 2012/13): na primeira, sentiu que havia uma partilha de métodos e objetivos; na segunda, discutiu questões salariais e assinou.

Durante um ano, a relação chegou a ter momentos de alguma tensão, como quando o técnico relativizou as críticas à arbitragem que tinham vindo de cima e acabou por levar um “toque”, mas foi globalmente funcional. E com vários pontos que agradaram ao presidente leonino logo desde a pré-temporada, numa perspetiva mais macro (segundo lugar com regresso à Champions tendo uma equipa com muita juventude à mistura) e em pontos mais micro, como o pedido que fez para que William não fosse lançado até estarem criadas as melhores condições para renovar contrato e, assim, deixar o clube mais protegido. No entanto, e no final dessa mesma época, Jardim acabou mesmo por sair para o Mónaco quando já tinha alinhavada o prolongamento do vínculo com os leões: o Sporting recebeu um total de três milhões de euros (fora cláusulas de bónus mediante os resultados desportivos dos franceses), blindou o regresso do técnico a Portugal e Bruno de Carvalho desfez-se em elogios na hora do adeus oficial.

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“Tenho tido experiências com presidentes com personalidade vincada, alguns deles difíceis de trabalhar [risos] O importante é as pessoas manterem o respeitem e justificarem a sua posição. Não tenho de concordar sempre com os presidente mas sim manter as coisas viáveis. Mas atenção: tenho uma boa relação com ele. Trata-se de alguém que vive o Sporting com intensidade, foi necessário no processo de mudança do clube (…) A sua forma de ser por vezes é difícil, se não estiver em consonância com aquilo que estamos a fazer, mas entre nós houve sempre respeito. Ao longo da época, tivemos algumas opiniões diferentes mas as nossas decisões foram sempre em prol do êxito do Sporting”, comentou o treinador em entrevista ao jornal Record, em dezembro de 2014.

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Marco Silva foi o senhor que se seguiu, também ele um treinador que, após o grande trabalho feito no Estoril, andou a ser cobiçado por outros clubes grandes antes de chegar a Alvalade, no Verão de 2014. Neste caso, tudo correu ao contrário. E desde a pré-temporada que a relação entre presidente e técnico começou a azedar.

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O post feito no fim de semana em que a equipa principal perdeu por 3-0 em Guimarães e o conjunto B foi goleado na Tapadinha pelo Atlético por 5-0 acabou por ficar sempre como o momento em que as relações entre ambos se começaram a degradar, no início de novembro. Seguiram-se semanas a fio de notícias dando conta dos problemas, houve um blackout pelo meio e a rescisão por justa causa onde, além de argumentos como a falta de comparência numa reunião em Alvalade ou deslealdade, estava também a utilização de fato de treino em vez da indumentária oficial numa partida da Taça de Portugal. No entanto, já em agosto as coisas tinham começado a correr mal, depois da não utilização de Marcos Rojo no Troféu Teresa Herrera, contrariando um pedido da SAD.

Mais tarde, Bruno de Carvalho descreveu Marco Silva como alguém que “gostava de passar uma falsa imagem de santo quando na verdade era um cínico e deixou de obedecer a uma estratégia e agenda”. Por seu turno, Marco Silva foi tentando passar à margem dessas polémicas, apesar do natural desagrado com tudo o que foi dito.

Três anos depois, o Sporting repete o cenário de saída do treinador apesar de ter ainda mais um ano de contrato (pelo valor de 7,8 milhões de euros brutos). Como o Observador explicou esta segunda-feira, e no seguimento da derrota na Madeira frente ao Marítimo, Bruno de Carvalho terá explicado a Jorge Jesus que o seu trajeto em Alvalade chegou ao fim, no âmbito de uma série de mudanças que serão feitas pelo conjunto verde e branco depois de ter ficado privado da Liga dos Campeões e de pelo menos 22 milhões de euros que já estariam contabilizados pela SAD leonina. A primeira tentativa de acordo (com cláusula anti-rival) foi rejeitada pelo treinador.

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Depois, numa conversa em Alvalade que durou cerca de uma hora e meia (realizada antes da reunião entre Bruno de Carvalho e os jogadores), terá sido levantada a hipótese da instauração de um processo disciplinar ao treinador por falta de lealdade. No entanto, sem apresentação de qualquer nota de culpa, nada existe sobre isso e Jesus deverá marcar presença esta terça-feira na Academia para preparar a final da Taça de Portugal, no Jamor, com o Desp. Aves. Sendo assim, existe apenas uma certeza: o grande objetivo dos responsáveis do Sporting, que ficaram desagradados com alguns atos do técnico nos últimos meses, é evitar um novo caso como o que aconteceu com Marco Silva, mas só os próximos dias ou semanas mostrarão se será algo possível.

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“Uma pergunta mais inteligente seria: quem é o líder do balneário? Então acha que um treinador permitiria que os jogadores fizessem aquilo que se escreveu ao seu presidente? Que os jogadores tinham virado as costas ao presidente, que se tinham recusado a treinar, e por aí fora. Só pode ser invenção da comunicação social, não é? Porque se fosse verdade era gravíssimo. Tem tudo de ser invenções, não é? Porque senão era mau sinal haver um líder de balneário assim. E o líder de balneário é o treinador (…) Se geriu bem todo esse processo? Partindo do princípio de que é tudo mentira, menos o post, sim, geriu bem. Você acredita que alguma coisa acontece no balneário sem o OK do líder? Um líder lidera. Imagine que no meu Conselho de Administração acontecia uma série de coisas e atitudes para as quais eu não tinha dado o meu OK. Se isso acontecesse, eu não era líder algum”, comentou Bruno de Carvalho sobre Jorge Jesus no último sábado ao Expresso. Daqui se percebe que a forma como o técnico geriu a crise institucional após a derrota em Madrid será um dos focos de discordância, mas os mesmos não terão ficado por aí.