Saí, num ato doloroso, mas desengane-se quem pensa que eu agora vou dizer mal do PS. Saí, mas continuo socialista. Só quem não me conhece é que passaria pela cabeça que eu seria capaz de magoar fosse quem fosse militante do PS”. Foi assim que José Sócrates começou por se dirigir aos cerca de 100 apoiantes que esta tarde estiveram no almoço de apoio ao ex-primeiro-ministro organizado pelo “Movimento Cívico José Sócrates Sempre”. Era só isso que tinha planeado dizer sobre a polémica desfiliação do partido, mas no final dos cerca de 45 minutos de discurso, receberia uma indicação discreta para repetir a ideia, uma vez que nem todos os jornalistas estavam presentes na sala no início da intervenção.

Então lá foi: “Eu desfiliei-me do PS pelas razões que já disse, não vou fazer mais nenhum comentário. Mas os que pensavam que eu ia atacar o PS, que se desenganem. Era o que faltava eu agora agredir a sensibilidade e a militância do PS com comentários menos respeitosos, ainda para mais num momento em que o PS se prepara para mais um congresso”. E repetiu a parangona: “Saí, mas continuo socialista”. A sala aplaudiu, mas eram muito mais os apoiantes anónimos do que socialistas. Um almoço que teve muito mais de apoiantes anónimos do que socialistas. Ao lado de Sócrates, na mesa central, sentou-se o ex-ministro das Obras Públicas Mário Lino, e à frente, o histórico fundador socialista António Campos. De resto, só o ex-secretário de Estado Paulo Campos apareceria mais tarde: não almoçou mas chegou a tempo de ouvir o discurso e um elogio dirigido diretamente a si.

JOÃO PORFIRIO/OBSERVADOR

Sócrates demarca-se de Costa: “Eu nunca estive num camarote do BES”

É que Sócrates prometeu não dizer mal do PS, mas nos mais de 45 minutos em que esteve de microfone em riste, não resistiu a criticar os silêncios dos socialistas. E sobretudo a demarcar-se de António Costa. O tema era o caso de Manuel Pinho e a suposta entrada do ex-ministro para o Governo PS por indicação de Ricardo Salgado (ex-BES): “Isso é uma infâmia, e muita gente sabia disso e ficou em silêncio durante ano e meio. Porque é que não disseram que estiveram lá e que sabiam que a história não tinha sido assim?”.

Mais: Manuel Pinho esclareceu este sábado numa entrevista escrita ao semanário Expresso que foi António Costa que o apresentou a José Sócrates à saída de um jogo do Euro-2004, que tinham assistido a partir de um camarote do BES. “Estou bem recordado dessa cena: eu não estava em camarote de BES nenhum, porque nunca fui a camarote de BES nenhum”, disse, sublinhando a ideia de que enquanto António Costa esteve no camarote com Pinho, Sócrates só os encontraria “à saída do estádio”.

O caso de Pinho, que Sócrates defendeu em toda a linha, serviu, de resto, para ilustrar a ideia que serviu de fio condutor a toda o discurso de Sócrates: de que a única agenda da direita portuguesa, e do Ministério Público (que foi “nomeado” pela direita portuguesa), é “atacar o PS e a governação de que eu fui primeiro-ministro”. Esse ataque é feito através das várias vias possíveis: seja pelas PPP, seja pela Parque Escolar, seja pelo próprio Sócrates, seja pelo ministro Manuel Pinho, seja através do processo judicial sobre os cartões de crédito dos membros do gabinete dos governos de José Sócrates, ilustrou. Tudo casos que o ex-primeiro-ministro diz servirem unicamente à agenda do Ministério Público.

Um almoço frouxo e um autocarro de apoiantes com um furo no pneu

O local era o mesmo, o homenageado e o movimento organizador também. Mas as semelhanças ficam-se por aí. O que se passou esta tarde e o que se passou em setembro de 2016, no mesmo restaurante Lisboa Marina. Alguma coisa mudou desde 2016, e sobretudo desde o início deste mês, quando altas figuras do PS começaram a falar em “vergonha” e “embaraço”, levando José Sócrates a desfiliar-se do partido para desfazer o “embaraço mútuo”. Se há dois anos, Sócrates foi recebido entre beijos e abraços emocionados pelos apoiantes presentes no almoço, dizendo: “Não me afastaram do coração dos socialistas”, desta vez foi diferente.

JOÃO PORFIRIO/OBSERVADOR

Desta vez, não estavam mais de 100 pessoas, e os jornalistas não tinham lugar. “Agora vamos almoçar, no final falo aqui dentro e vocês se quiserem podem ouvir”, disse José Sócrates aos jornalistas, depois de as organizadoras do evento já terem dito que não havia “sistema de som” no restaurante, ou seja, não havia condições apropriadas para as televisões e rádios captarem o discurso. O almoço decorreu, por isso, à porta fechada, com muitos dos presentes a evitarem falar aos jornalistas.

José Sócrates chegou às 13h50, quando a hora marcada no evento “Tu avanças sempre e não recuas” — promovido via Facebook — era as 12h30. Veio a pé, como na última vez, mas, desta vez não chegou sozinho. Apareceu no passadiço que dava acesso ao restaurante ladeado por cinco pessoas, desconhecidas do público, e, apesar da corrente de jornalistas que se encontrava à porta, ficou-se pelo desejo de “boa tarde”, e entrou. Recebido com aplausos e gritos esmorecidos de “Só-cra-tes!”, o ex-primeiro-ministro sentou-se numa mesa central, ao lado de Mário Lino.

Distribuídos por 13 mesas redondas, com cerca de 8 a 9 pessoas cada, a sala estava composta, embora na zona da esplanada houvesse mais mesas para outras dezenas de pessoas. Essas ficariam vazias toda a tarde, e só no final se percebeu porquê: um autocarro carregado de apoiantes do “norte”, incluindo, Porto, Gaia, Famalicão, Matosinhos e Vila do Conde, terra onde milita uma das organizadoras do evento, Ana Lúcia Vasques, tinha tido um problema com um furo no pneu, e a viagem que se faria em três horas demorou 8. A comitiva chegaria já perto das 16h, muito depois de o almoço terminar. Sócrates esperou.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR