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As 12 empregadas que fugiram de um restaurante norte-coreano na China foram enganadas para viajarem para a Coreia do Sul, revela esta terça-feira a CNN. As mulheres abandonaram o restaurante na cidade de Ningbo em 2016, juntamente com o gerente, e na altura o caso foi noticiado como sendo uma deserção.

O gerente, Heo Gang-il, falou com a CNN — naquela que foi a primeira entrevista a um meio de comunicação internacional — e diz que enganou as empregadas a pedido dos Serviços Secretos sul-coreanos. O homem disse que começou a trabalhar como informador dos Serviços Secretos numa altura em que se sentiu desiludido com o regime de Kim Jong-un.

Na altura, o Ministério da Unificação da Coreia do Sul disse que se tratava da maior deserção de cidadãos norte-coreanos desde que Kim Jong-un assumira o poder. Agora, o ministério diz que vai tentar perceber em que condições é que as mulheres e o homem chegaram a Seul.

Heo Gang-il revelou agora que o primeiro encontro com um responsável dos Serviços Secretos sul-coreanos aconteceu em novembro de 2015. Assinou um contrato, recebeu uma bandeira da Coreia do Sul e jurou fidelidade; e disse à CNN que na altura se sentiu “orgulhoso”.

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Entretanto, um cliente de Heo descobriu que ele estava a colaborar com o sul e ameaçou denunciá-lo à Coreia do Norte. Foi neste momento que o gerente se viu obrigado a fugir para a Coreia do Sul, e os Serviços Secretos pediram-lhe para levar pessoas consigo.

Disseram-me para trazer toda a gente comigo, mas eu disse-lhes que era impossível. Disse que era muito arriscado porque se a Coreia do Norte descobrisse seria muito perigoso. Disseram-me para trazer as pessoas custasse o que custasse”, revelou.

Diz ainda que se sentiu ameaçado: “A atitude deles mudou, dizendo que se não trouxesse as pessoas comigo me denunciavam à embaixada norte-coreana”.

Foi então que enganou as empregadas, dizendo que se iam mudar para instalações melhores. “Os Serviços Secretos disseram-me para não dizer nada às trabalhadoras porque se elas descobrissem podiam fugir”, contou à CNN. Diz que viajaram para a Malásia com bilhetes pagos pelos Serviços Secretos. Na altura, era possível cidadãos norte-coreanos permaneceram no país durante um mês sem qualquer tipo de visto, algo que mudou em maio 2017 depois de o meio-irmão de Kim Jong-un ter sido assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur um mês antes, com as suspeitas a recaírem sobre o regime norte-coreano.

Este mês, a estação televisiva sul-coreana JTBC falou com três das mulheres que viajaram para o sul (sem nunca as identificar), que confirmaram que Heo Gang-il as enganou. Uma delas diz que só se apercebeu do que estava a acontecer quando viu que estavam a ir para a embaixada da Coreia do Sul na Malásia. Dizem que foram ameaçadas pelo gerente, que lhes disse que alguns familiares podiam ser assassinados se elas voltassem atrás. Foi na embaixada que receberam passaportes com nomes falsos e de seguida viajaram para o aeroporto de Incheon, o maior da Coreia do Sul.

O restaurante que o homem geria é um dos vários que o governo norte-coreano tem alguns países e acredita-se que os membros do staff são escolhidos por serem da confiança da elite do regime, o que torna o caso mais relevante. O gerente revelou que grande parte do dinheiro ganho por ano vai para o governo da Coreia do Norte.

Heo Gang-il diz agora que quer voltar para a Coreia do Norte, apesar de arriscar ser acusado de traição, um crime punido com a morte. O gerente diz que se sente manipulado pelo governo sul-coreano e pelos Serviços Secretos do país.