Rádio Observador

Saúde

O guia essencial para todos os viajantes

Antes de partir para o paraíso, certifique-se que leva consigo tudo o que precisa para evitar complicações. Vacinas, medicamentos e muita informação. Marque uma consulta do viajante

A ansiedade é muita. Depois de meses de antecipação e planeamento, a data da partida está cada vez mais próxima. Ultimam-se os preparativos e multiplicam-se as checklists – com medo de que alguma coisa fique esquecida. Parece que já sente o calor do sol no rosto e a areia branca entre os dedos dos pés… Mas será que tratou mesmo de tudo?

“O ideal é ir à consulta do viajante com cerca de um mês de antecedência”, recomenda Jorge Atouguia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante. Isto porque algumas das vacinas necessárias poderão incluir mais do que uma dose. Por outro lado, o especialista alerta que ir demasiado cedo também não é aconselhável. “Por exemplo, fazemos a consulta em janeiro e a viagem para a Ásia é só em julho. A esta distância não sabemos o que irá acontecer, se haverá alguma doença emergente ou um aumento inesperado de casos de uma doença endémica.” Daí pedir sempre a quem viaja para lhe enviarem um e-mail, 15 dias antes da partida, para o especialista procurar informação sobre a área de destino – pois há zonas com um maior risco epidémico.

A Direção-Geral da Saúde aconselha

  • Considere a necessidade de adquirir um seguro de saúde
  • Se viajar para países de maior risco informe a embaixada ou um consulado local da sua ida
  • Leve os medicamentos habituais e outros para cuidados básicos
  • Leve consigo um cartão com informação traduzido na língua local com tipo de sangue, doenças crónicas de que sofra, alergias, medicamentos que esteja a tomar ou outra informação relevante
  • Se está grávida, vai viajar com crianças, tem doença crónica ou qualquer outra condição que requeira cuidados especiais de saúde, consulte o seu médico antes de viajar
  • Vá a uma consulta do Viajante

“Quanto mais perto estamos do Equador, maior o risco”, alerta o Jorge Atouguia, especialista em Medicina Tropical. “O clima é mais quente e húmido, sendo ideal para o desenvolvimento de microrganismos e, por outro lado, dos próprios vetores: os insetos. São também geralmente países mais pobres, com um difícil acesso à saúde e a água potável.” Assim, a consulta do viajante possui um papel determinante na orientação e aconselhamento de quem viaja. O problema é que, segundo Jorge Atouguia, a maioria das pessoas só recorre a este tipo de consulta quando sabe que o destino que escolheu obriga a levar determinadas vacinas. “Uma viagem sem vacinas obrigatórias não significa que seja uma viagem sem riscos para a saúde”, recorda. E acrescenta: “Basta observar o seguinte: há mais de mil microrganismos que podem provocar doenças no viajante, mas as pessoas, no máximo, levam quatro a cinco vacinas, isto é, ficam apenas protegidas contra 4 ou 5 desses microrganismos”.

Existem dois motivos essenciais para o viajante se proteger com vacinas: para evitar que o próprio contraia doenças no país de destino e para proteger a população vulnerável do país de origem desse viajante, após o seu regresso da viagem. Mas apesar de as vacinas serem extremamente eficazes, por si só, não tornam o viajante imune a tudo. É preciso adotar um conjunto de precauções que ajudarão a minimizar o risco de contrair doenças.

Todos os cuidados são essenciais

Beber apenas água fervida ou engarrafada e não consumir alimentos crus são talvez as atitudes mais óbvias para quem viaja para um destino perto do Equador. “Quanto maiores diferenças existirem entre a cultura gastronómica do destino e a nossa, maior o risco. A Índia é dos piores destinos, nesse sentido”, alerta o médico. Porquê? Porque o sabor dos alimentos está camuflado por molhos e especiarias que toldam os sentidos. Fica o conselho: “Tentar comer os alimentos, sobretudo as proteínas – carne, peixe, marisco, ovos – na sua forma mais pura, sem disfarces, protegendo-nos sempre com o que sabemos: o cheiro e o sabor originais. Digo muitas vezes que a forma mais pura de proteção é ser-se vegetariano”. E remata, em tom de brincadeira: “As bactérias não são burras. Elas gostam dos alimentos ricos e não dos talos das couves”.

Vacinas obrigatórias

Segundo a Organização Mundial de Saúde, são três. Mas apenas indicadas para zonas restritas do globo

Febre amarela

  • Descrição: doença hemorrágica viral aguda; o adjetivo “amarelo” designa a tonalidade da pele que afeta alguns doentes.
  • Transmissão: por mosquitos infetados. Não se transmite diretamente entre animais.
  • Incubação: três a sete dias após a picada
  • Sintomas: febre, dores de cabeça, icterícia, dores musculares, náuseas, vómitos e fadiga. Muitas pessoas não apresentam sintomas e apenas uma pequena percentagem de doentes que contraem o vírus revelam sintomas graves.
  • Áreas de risco: regiões tropicais da África e América Central e do Sul.
  • Tratamento: não existe um medicamento antiviral específico. São tratados os sintomas da doença.
  • Prevenção: Vacina: uma dose única é suficiente para conferir uma imunidade sustentada – no prazo de dez dias – e uma proteção para toda a vida contra esta doença, não sendo necessárias doses de reforço. Combate ao mosquito: manter seco o prato dos vasos das plantas, desobstruir as calhas do telhado para evitar acumulação da água, não deixar ao ar livre pneus e outros objetos que possam acumular água da chuva, etc.

Meningite meningocócica

  • Descrição: forma grave de meningite bacteriana, altamente contagiosa. A bactéria fica alojada entre as meninges (membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal), causando inflamação das mesmas. Mais frequente em crianças com menos de cinco anos, tem um pico de incidência no primeiro ano de vida.
  • Transmissão: através do contacto direto – pois a bactéria é muito frágil fora do organismo humano – com gotículas e secreções rinofaríngeas. O contágio é favorecido pela tosse, espirros, beijos e proximidade física e deixa de existir 24 horas após o início de terapêutica eficaz.
  • Incubação: entre um e dez dias, mas geralmente não ultrapassa os quatro.
  • Sintomas: febre elevada, dores de cabeça, náuseas, vómitos, confusão mental, rigidez da nuca, podendo evoluir para coma e/ou uma infeção generalizada (sépsis meningocócica). A doença é fatal entre cinco a dez por cento dos casos e 20 por cento dos sobreviventes ficam com lesões neurológicas graves.
  • Áreas de risco: zona endémica situa-se entre o Senegal e a Etiópia (a chamada “Cintura da Meningite”)
  • Tratamento: é feito através de antibióticos.
  • Prevenção: vacina. A Arábia Saudita exige prova de vacinação como requisito obrigatório para a atribuição de visto aos peregrinos e aos trabalhadores estrangeiros.

Poliomielite

  • Descrição: doença viral altamente contagiosa, também conhecida como polio ou paralisia infantil, que afeta principalmente crianças
  • Transmissão: através de alimentos e água contaminados por fezes infetadas.
  • Incubação: varia entre três e 35 dias. O vírus multiplica-se no intestino, de onde pode invadir o sistema nervoso.
  • Sintomas: inicialmente, febre e dor de garganta, ou náuseas, vómitos e dores abdominais; depois vai-se disseminando pela corrente sanguínea, infetando outros órgãos (os mais atingidos são o cérebro, o coração e o fígado). Mas muitas pessoas infetadas não apresentam sintomas. Causa paralisia e deformações no corpo.
  • Áreas de risco: Afeganistão, Nigéria e Paquistão.
  • Tratamento: não tem tratamento específico.
  • Prevenção: vacina – incluída no Plano Nacional de Vacinação. É exigida pela Arábia Saudita a todos os peregrinos.

Outro ponto importante é a proteção contra os insetos, responsáveis pela transmissão de doenças como a malária, dengue, zika, ou outras mais raras, como a encefalite japonesa. A proteção deve ser feita quer através de redes mosquiteiras, produtos repelentes e roupas claras e largas, que cubram a maior parte do corpo; quer evitando locais mais húmidos e insalubres, perto de riachos e pântanos, e a exposição nas horas de maior prevalência destes vetores de doença.

No caso do dengue, zika, chikungunya, vírus que são transmitidos em todas as zonas tropicais, mas mais prevalentes nas Américas Central e do Sul, e Ásia, o mosquito pica durante o dia, entre o nascer e o por do sol. No caso da malária, é ao entardecer e durante a noite que o mosquito pica. E para esta doença – a mais importante em termos de risco de mortalidade, entre todas as doenças tropicais – não existe vacina nem prevenção 100 por cento eficaz. Para além da profilaxia com medicamentos, é fundamental evitar a picada do mosquito.

Mesmo após o regresso é preciso cuidado e estar atento. ”A malária, num indivíduo que nunca contactou com essa doença, é uma emergência médica, e deve ser assim encarada pelo doente e pelo médico que o assistir”, alerta Jorge Atouguia. “Febre até 30 dias depois é malária. Sejam quais forem os sintomas que a acompanham.” Numa pessoa que nunca teve malária, a doença pode evoluir para morte em 3 dias a partir do início da febre. É determinante realizar os testes de diagnóstico nas 12 horas seguintes ao aparecimento da febre e iniciar o tratamento o mais depressa possível.

Vacinação seletiva para viajantes

– Cólera

– Encefalite europeia da carraça

– Encefalite japonesa

– Febre tifóide

– Hepatite A

– Hepatite B

– Influenza

– Raiva

– Sarampo

Para se proteger, é crucial saber exatamente onde ficará instalado e durante quanto tempo. Quanto maior a permanência, maior o risco. A localização exata permitirá consultar a informação sobre a distribuição geográfica de determinada doença no ponto de destino. “Temos de estar bem informados sobre a cidade ou a zona A, B, C ou D e não sobre o país ou o continente”, lembra. O ‘Weekly Epidemiological Record’ (WER) da Organização Mundial de Saúde é uma das fontes essenciais para a disseminação de informação epidemiológica, de forma rápida e precisa. Para isso, existe uma versão bilingue – em inglês e francês – disponível para download todas as sextas-feiras.

A farmácia de viagem é outro dos pontos a não esquecer. A escolha dos medicamentos e artigos a incluir depende do destino, do tipo de viagem, do tipo de viajante e da sua capacidade para entender e utilizar essa farmácia. “O mais importante é o viajante saber quando e como deverá utilizar os medicamentos que possui”, explica o especialista. “Em caso de dúvida, os meus viajantes deverão sempre contactar-me por e-mail”. Se a situação obrigar a deslocação a uma unidade de saúde, é bom que tenha um seguro de viagem, pois na maioria dos destinos os cuidados médicos para estrangeiros só estão disponíveis em clínicas privadas.

A checklist parece não ter fim. E o medo de esquecer algum ponto importante permanece. É aqui que entra a consulta do viajante. “Não nos limitamos a debitar informação. Temos de traçar o perfil psico-comportamental do viajante, conhecê-lo e pô-lo a falar”, alerta. Por isso, a primeira consulta tem de ser sempre presencial. O grande desafio é sentar na cadeira do consultório pessoas cujo destino não exige vacinas, porque a maioria dos viajantes ainda não compreende a necessidade de ter informação especializada sobre todos os outros riscos, para quem viaja. Quem já foi à consulta e sabe como funciona, geralmente volta antes da próxima viagem. No fundo, sentiram na pele a diferença da orientação e informação prestadas por um profissional de saúde qualificado. Mas muitos arriscam. E quando se fala de crianças, grávidas, idosos e pessoas com doenças crónicas, o risco é exponencial.

Ao nível da vacinação, uma outra limitação é o facto de ainda existirem algumas vacinas que não são comercializadas nas farmácias, obrigando o viajante a deslocar-se a uma unidade hospitalar ou a um Serviço de Vacinação Internacional (SVI). Estes serviços fazem a administração das vacinas obrigatórias, e são os únicos onde o viajante poderá obter o Certificado Internacional de Vacinação, exigido nos procedimentos de entrada em muitos países. “A vacina da febre amarela terá sempre que ser tomada num SVI, mas estamos a tentar que as restantes vacinas não obrigatórias, e as novas vacinas, estejam todas disponíveis nas farmácias. O objetivo é facilitar o acesso do viajante às vacinas”, explica o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante.

Destino: check. Companheiros de viagem: check. Mala: check. Saúde: check. Antes de viajar marque, um mês antes, uma consulta do viajante. A oferta é muita e cobre todo o território nacional. Proteja-se e aproveite!

Links úteis para si que vai viajar

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