Tal como as várias marcas da indústria automóvel têm que pôr novos modelos no mercado com regularidade, assim os estúdios da indústria cinematográfica americana precisam de ter em permanência nas telas filmes das suas respectivas séries. Como não consegue colocar todos os anos nos cinemas um título da saga “Star Wars”, a Disney concebeu uma série autónoma, baptizada “Star Wars Anthology”, de que “Rogue One: Uma História de Star Wars”, de Gareth Edwards, em 2016, foi o filme inaugural. Assim, as fitas  “oficiais” vão alternando com as desta linha paralela, surgindo nos dois momentos mais fortes da temporada, o começo do Verão e as festas natalícias. Este ano, estreia-se a segunda produção da “Anthology”, “Han Solo: Uma História de Star Wars”, de Ron Howard, e para o ano teremos “Star Wars: Episódio IX”, da linha “institucional”, e assim sucessivamente. (E há mais coisas na forja).

[Veja o “trailer” de “Han Solo”:]

Realizado pelo veterano Howard (que entrou no projecto já este ia a meio, para substituir os realizadores originais, Phil Lord e Christopher Miller, dispensados pela Disney), e escrito pelo experimentadíssimo Lawrence Kasdan (que tem o nome nos argumentos de outras fitas da saga) e pelo seu filho Jonathan, “Han Solo” cumpre, tal como já fazia “Rogue One”, com todas as exigências, convenções e piscadelas de olho auto-referenciais do rigoroso caderno de encargos desta epopeia multimilionária, e não poderia ser de outra forma. Aqui não há lugar para a inovação, tirando as premissas narrativas. “Rogue One” apresentava personagens novas e desenrolava-se no seio do conflito entre rebeldes e Império, “Han Solo” conta a juventude da personagem mais querida da saga e decorre quase todo nas margens daquele confronto, no meio do crime cósmico. Em tudo o resto, segue-se à risca o modo de fabrico.

[Veja a entrevista com o realizador Ron Howard:]

Em traços largos, “Han Solo” conta-nos o que fazia o jovem Han (Alden Ehrenreich) no seu planeta natal Corellia (era obrigado a roubar para uma quadrilha liderada por uma lagarta aquática gigante); mostra-nos como ele conseguiu fugir, embora tenha deixado para trás, e dramaticamente, a sua namorada Qi’ra (Emilia Clarke); como se envolveu com o bando do mercenário Beckett (Woody Harrelson) e que peripécias viveu; revela as peculiares circunstâncias em que conheceu Chewbacca (Joonas Suotamo); como encontrou um também jovem Lando Calrissian (Donald Glover) e ficou proprietário da Millenium Falcon; e ainda como se relacionou com o vilão Dryden (Paul Bettany), que além de ser mau como as cobras, está a precisar de um dermatologista.

[Veja a entrevista com Alden Ehrenreich:]

“Han Solo” foi concebido como um “western” espacial. Há um vertiginoso assalto a um comboio, um arriscado raide a uma mina de trabalho escravo, uma alucinante perseguição por paisagens perigosas (com direito ao extra de um monstro saído de um livro de Lovecraft), alienígenas variados no lugar de índios e mexicanos, muito tiroteio quase sempre em circunstâncias acrobáticas, uma sequência de traições e as necessárias guinadas no enredo. E além de um filme de “cowboys” no cosmos, este é também um “buddy movie” como mandam as regras, já que na sequência do seu belicoso e nada higiénico encontro num planeta em guerra, nasce entre o humano Han e o wookiee Chewbacca uma cumplicidade mais forte do que o mais resistente metal do universo. É o início de uma bela amizade galáctica.

[Veja a entrevista com Joonas Suotomo:]

Alden Ehrenreich teve um “padrinho” de peso para obter o papel de Han Solo: Warren Beatty, que o dirigiu no seu último filme como realizador, “Excepção à Regra” e o recomendou à Disney. Mas nem isso o livrou de, a meio da rodagem, os produtores, descontentes com o seu trabalho, terem chamado um professor de representação para o meter nos eixos. Ehrenreich é aceitável a personificar o convencido e atrevido jovem Solo, embora lhe falte o carisma nato e a empatia descontraída de Harrison Ford. Quem é muito bom é Woody Harrelson no pragmático Beckett, com Donald Glover a segui-lo num “dandy” Lando Calrissian, cuja co-piloto droide de pêlo na venta, L3 (voz de Phoebe Waller-Bridge) ameaça “roubar” o filme com a sua veemente militância pelos direitos dos robôs. Por um pouco, L3 fundava o BD (Bloco dos Droides).

[Veja a entrevista com Woody Harrelson:]

A exemplo do que aconteceu com “Rogue One”, também “Han Solo” acaba por se revelar, na forma, na escrita e na execução cinematográfica, melhor do que os títulos “oficiais” da saga. Graças às presenças de Ron Howard atrás das câmaras, e de Lawrence Kasdan no argumento, a fita está mais chegada ao espírito e à vibração da trilogia original, e remete de forma mais imediata e sentida para as grandes referências de George Lucas quando a concebeu e lançou em 1977 com “A Guerra das Estrelas”: as velhas “space operas” e os filmes em partes de ficção científica.  Sem trazer nada de novo, original ou subversivo, “Han Solo” cumpre com a empreitada dentro das regras estabelecidas pelo universo “Star Wars”. Que incluem, infelizmente, uma duração média de quase 2 horas e meia por filme. É esticar demasiado a corda da resistência até do fã mais irredutível de “Star Wars”.