Marinha

Amarrada, amordaçada e fotografada pelos colegas de trabalho. Funcionária da Marinha escocesa avança com processo

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Denunciou a cultura de "ameaças, misoginia e racismo" que se vivia no escritório onde trabalhava. E por isso durante 10 anos foi alvo de assédio moral e até gozada por ter tido um aborto espontâneo.

O episódio aconteceu em 2010 mas só agora DeeAnn Fitzpatrick decidiu avançar com um processo (Foto: cbcasithappens/Twitter)

cbcasithappens/Twitter

“É o que acontece quando falas mal dos homens”. E o que aconteceu está na base da decisão de DeeAnn Fitzpatrick, canadiana de 49 anos que trabalhou na Marinha escocesa, para avançar com um processo contra dois colegas de trabalho — Reid Anderson e Jody Paske — que a amarraram a uma cadeira, amordaçaram e fotografaram. A fotografia tirada por um dos funcionários foi divulgada esta quarta-feira pela BBC Scotland.

O episódio — um em quase 10 anos de assédio moral em que chegou até a ser gozada por ter tido um aborto espontâneo — aconteceu em 2010. Segundo a funcionária, foi amarrada e amordaçada como resultado da denúncia que fez à cultura de “ameaças, misoginia e racismo” que se vivia no escritório onde trabalhava, na zona norte da costa do condado de Caithness. Um dos funcionários, Reid Anderson, terá mesmo justificado o que estava a fazer:

É o que acontece quando falas mal dos homens”, terá dito um dos funcionários que Fitzpatrick vai processar.

Já o gerente daquele departamento apresentou outra justificação: “Tenho a certeza que eles não tinham intenção de fazer mal a ninguém e eram só rapazes a serem rapazes“. A resposta foi dada a Fitzpatrick que enviou e-mails ao gerente a denunciar o episódio de que tinha sido alvo e aos quais a BBC Scotland teve acesso. Embora o gerente tenha dito que ia falar com os dois funcionários, “aparentou não levar muito a sério” o ataque a Fitzpatrick.

Não queremos “uma mulher, especialmente estrangeira” a trabalhar na Marinha

Este foi apenas um episódio em 10 anos de assédio moral, até 2016, quando se demitiu depois de o pai ter morrido na sequência de uma doença. Em informações dadas pela ex-funcionária ao tribunal, Fitzpatrick recordou ainda que foi gozada por ter tido um aborto espontâneo e foi alvo de linguagem racista, chegando a ouvir de um dos funcionários que não queriam “uma mulher, especialmente uma mulher estrangeira”. Fitzpatrick alertou ainda que o assédio moral por parte daqueles dois funcionários dirigia-se a várias trabalhadoras do sexo feminino. No geral, referiam-se a elas como prostitutas.

Outros e-mails a que a BBC Scotland teve acesso mostram que Fitzpatrick recebeu ameaças por viajar quando o seu pai estava doente. “Ponha-se em contacto comigo o mais rápido possível assim que receber este e-mail, para explicar as razões da sua ausência. Se não o fizer, vamos recorrer a ações disciplinares”, pode ler-se na mensagem enviado pelo departamento de recursos humanos da Marinha escocesa.

Anderson recusou comentar as acusações. Ainda continua a trabalhar no mesmo local e foi recentemente promovido, ao que a BBC Scotland conseguiu apurar. Paske já não trabalha para a Marinha escocesa e disse que todas as acusações são mentira:

São falsas acusações. Não me consigo lembrar do episódio mas, se aconteceu, foi uma brincadeira de escritório. Apenas uma partida. Certamente não esteve nada relacionado com abuso”, garantiu Paske.

O caso já chegou à primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, que disse estar “absolutamente horrorizada”, depois de ter visto a fotografia de Fitzpatrick amarrada à cadeira e amordaçada. Sturgeon pediu que seja levada a cabo uma investigação às circunstâncias em que aconteceu este episódio. Exigiu ainda ser informada acerca das conclusões da investigação “o mais rapidamente possível”.

Bullying, abuso, sexismo, racismo não têm lugar em nenhum local de trabalho e não serão tolerados no governo escocês ou nas suas instituições”, afirmou Sturgeon.

A reação da primeira-ministra vem na sequência da questão colocada por Rhoda Grant — uma deputada que tem vindo a apoiar Fitzpatrick desde 2010 — sobre se Sturgeon ia ou não intervir no caso. Grant contou que já tinha ouvido da própria Fitzpatrick o que lhe tinha acontecido mas ver a foto tornou tudo “dez vezes pior”.

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