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Conflito na Síria

Estudantes sírios. Guerra destruiu casas e também a alma das pessoas

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Guerra na Síria não destrói só prédios e casas, mas também a alma das pessoas. Estudantes sírios que chegaram a Portugal desejam que a paz retorne ao seu país e que a nação volte a ser como outrora.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A guerra na Síria não destrói só prédios e casas, mas também a alma das pessoas e os estudantes sírios que chegaram hoje a Portugal desejam que a paz retorne ao seu país e que a nação volte a ser como outrora.

“É uma situação ruim (na Síria), não é uma situação boa, não é seguro, não é bom para viver, (a guerra) destruiu o país, tudo é muito difícil lá. Eu não acho que acabe logo. Ainda há bombas, tudo está destruído. A guerra também destrói a alma das pessoas”, declarou à Lusa, na cerimónia de receção aos estudantes, Salma Rahma, que veio para Portugal tirar um mestrado em engenharia biotecnológica.

Um grupo de 55 estudantes sírios – composto por 39 raparigas e 16 rapazes – chegou hoje a Portugal para dar continuidade aos estudos nas universidades e politécnicos que fazem parte do consórcio académico que apoia a Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios (APGES), dirigida pelo ex-Presidente Jorge Sampaio.

“Eu espero ver a Síria um dia grande, um país dos melhores, seguro e bom”, disse Salma Rahma, de 23 anos, que é da cidade de Al-Salameh e estudava na Universidade de Aleppo, no norte da Síria.

Os seus colegas, Mohammad Abdeen e Majd Murad, ambos de 25 anos, também consideram que a situação é muito complicada atualmente na Síria.

“É uma situação muito má, muito complicada para nós e espero que melhore logo”, afirmou Mohammad Abdeen, que é da cidade de Al-Salameh e estudava na Universidade Al-Baath, na cidade de Homs, na região central do país. Mohammad Abdeen, que está em Portugal para tirar um mestrado em Saúde Pública, sublinhou que tudo o que espera para a Síria é “somente a paz”, referindo ainda que os pais morreram e que a irmã está em Portugal e veio estudar através do APGES.

Os estudantes sírios estão divididos em relação a voltar para a Síria após o final da guerra e tem expectativas em relação a Portugal.

“Retornar para a Síria? Não tenho a certeza, para ser honesta. Tenho planos de continuar os meus estudos, talvez tire o meu doutoramento aqui. Já vi a vista de Lisboa e amei, então, talvez eu fique aqui”, disse Salma Rahma, que deixou a mãe e a irmã na Síria.

“Eu espero ser feliz aqui (em Portugal) e aprender muita coisa sobre tradução, educação e muita coisa sobre este país, muita coisa sobre o povo. Estou muito feliz”, completou Salma.

Majd Murad também não tem a certeza se voltará à Síria, talvez para visitar os pais e a irmã que ficaram na cidade de Homs, onde a estudante também nasceu e cresceu. “Não tem a certeza, porque é tão difícil e há tantas dificuldades” na Síria, declarou Majd, que pretende tirar um mestrado em Planeamento Urbano, já que é formada em Arquitetura pela Universidade de Al-Baath, na cidade de Homs.

Mohammad Abdeen disse que quer passar “bom momentos” no tempo em que permanecer em Portugal”. “O meu mestrado deve durar dois anos e, talvez tire o meu doutorado aqui, antes de voltar para o meu país”, declarou o estudante, que quer retornar para ajudar a sua pátria.

O ex-Presidente Jorge Sampaio fez um balanço positivo desta iniciativa que traz alunos sírios para Portugal, lembrando que agora são “mais de 170” estudantes sírios que conseguem prosseguir os seus estudos, maioritariamente em Portugal, mas também em países como o Líbano, a Jordânia, o Egito, o Canadá.

“Não podemos esquecer que com esta iniciativa habilitamos um conjunto de pessoas completamente afastadas dos seus estudos, porque as suas universidades e politécnicos foram destruídos, os seus pais desapareceram ou foram torturados. Conseguimos fazê-los reentrar na vida académica e os habilitamos para o futuro e isso é fundamental, apetrechar as pessoas de modo que possam ser úteis ao seu país no futuro”, declarou.

O ex-Presidente disse que esta oportunidade de estudar em Portugal dá-lhes uma esperança nova, referindo ainda a “grande ansiedade” que estavam por chegar a Portugal, pois estavam a sair “de um cenário de guerra para um cenário de paz”.

Os estudantes sírios vão iniciar o ano académico de 2018-2019 em Portugal, após completarem um curso intensivo de língua portuguesa de três meses.

As suas bolsas de estudo serão financiadas pela Fundação La Caixa/BPI, pela empresa ELEVO, pela Fundação Al Babtain e pela Santa Casa da Misericórdia do Porto. Entre 25 de maio e 30 de junho, os 55 estudantes ficarão alojados na Academia Militar, onde lhes será ministrado o primeiro curso intensivo de Língua Portuguesa.

“Já ouviu algumas palavras em português, são simples e parecem música. É muito agradável”, disse Majd Murad.

A Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios é uma organização sem fins lucrativos criada por Jorge Sampaio, que foi Presidente da República português entre 1996 e 2006, com o apoio de instituições parceiras como o Conselho de Europa, Liga Árabe, Organização Internacional para as Migrações (OIM), Instituto Internacional de Educação (IE) e a Fundação Calouste Gulbenkian, entre outras.

A guerra na Síria começou em 2011 e já deixou mais de 500 mil mortos e provocou milhões de refugiados.

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