“Receio? Não temo nada! Se temesse, tenho quatro cães, dois no Alentejo e dois aqui em Cascais. Acabava-se o medo, seguramente”, disparou Fernando Santos, a certa altura da conferência de antevisão ao jogo de Portugal frente à Bélgica em Bruxelas. O ângulo da questão, esse, é fácil de compreender: até que ponto poderão todas as questões que norteiam jogadores da Seleção prejudicar o estágio de preparação para o Mundial? O selecionador deu a resposta com um ar meio sisudo, sem rir, mas não deixou de ter a sua graça. Da mesma forma como a pergunta, com menos graça, foi bem colocada.

Portugal empata em Bruxelas com a Bélgica (0-0) no penúltimo teste antes do Mundial

Esta não é a primeira vez que um estágio para uma grande competição acaba por ser secundarizado, como tem acontecido neste, por episódios da atualidade. Neste caso, existe a situação de Rui Patrício, que rescindiu de forma unilateral contrato com o Sporting; de William, que tanto pode revogar vínculo como rumar à Premier League; de Gelson Martins e Bruno Fernandes, que têm menos de duas semanas para definir a sua situação; de Cristiano Ronaldo, no seguimento das declarações que teve após o triunfo na terceira Champions consecutiva; e de outros jogadores que poderão mudar de ares este Verão. A tudo isso, e de forma indireta, Santos respondeu com uma frase que faz acreditar que ir longe no Mundial não será milagre.

Temos uma estratégia que nos levou a ser campeões da Europa. Não podemos dizer que há um estatuto para depois nos transformarmos em não campeões, é bom encontrar esse equilíbrio. Há que saber como lá chegámos e que chegámos mesmo com grande mérito. Será com essa base de trabalho, que tem vincado a Seleção, que vamos encontrar um padrão”, explicou o selecionador nacional.

Ficha de jogo

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Bélgica-Portugal, 0-0

Jogo particular

Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas (Bélgica)

Árbitro: Viktor Kassai (Hungria)

Bélgica: Courtois; Alderweireld, Kompany (Boyata, 56′), Vertonghen; Meunier, De Bruyne, Dembelé (Fellaini, 46′), Ferreira Carrasco (Chadli, 46′); Mertens (Januzaj, 46′), Eden Hazard (Thorgan Hazard, 80′) e Romelu Lukaku (Benteke, 46′)

Suplentes não utilizados: Sels, Casteels, Tielemans, Batshuayi, Ciman e Jordan Lukaku

Treinador: Roberto Martínez

Portugal: Beto; Cédric, Pepe, José Fonte, Raphael Guerreiro; William Carvalho, João Moutinho (Bruno Fernandes, 86′), João Mário (Manuel Fernandes, 72′); Bernardo Silva (André Silva, 78′), Gelson Martins (Quaresma, 63′) e Gonçalo Guedes (Mário Rui, 90+2′)

Suplentes não utilizados: Rui Patrício, Anthony Lopes, Ricardo, Bruno Alves e Rúben Dias

Treinador: Fernando Santos

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pepe (54′)

O técnico sabe que um bom grupo faz toda a diferença. Muitas vezes, tem mais influência do que a qualidade técnica ou a destreza tática. E é esse bom grupo que torna uma equipa mais forte em termos mentais. Foi aí que entroncou a grande diferença de Portugal em relação ao encontro com a Tunísia. Jogando contra uma das seleções mais fortes da atualidade em termos mundiais (pelo menos a nível de nomes, como equipa tem muito que trabalhar), Portugal dividiu os tempos de domínio e controlo com o adversário, melhorou em termos globais e deu uma imagem mais parecida com a Seleção que deixou marca em França há dois anos: sem ser brilhante, foi competente, equilibrada e com uma dupla de centrais sem mácula.

No estádio Rei Balduíno, onde aquela que um dia foi denominada de Geração de Ouro do futebol português viu gorada a hipótese de ganhar uma grande competição internacional quando estava no seu apogeu (naquele famoso França-Portugal da meia-final do Europeu de 2000 decidido com uma grande penalidade de Zidane no final do prolongamento), a Bélgica entrou melhor, explorando espaços entre linhas em velocidade e conseguindo superioridade no jogo em corredor central que depois desaguava nas laterais. Meunier, durante todo o encontro, não acertou um único cruzamento, mas o domínio dos comandados de Roberto Martínez, sobretudo quando De Bruyne e Hazard tinham bola virados para a baliza, acentuava-se perante uma Seleção Nacional com uma manta demasiado curta para esticar o jogo na frente.

A partir dos 20 minutos, e apenas com a troca de dois jogadores (Bernardo Silva na direita, Gelson Martins na frente com Gonçalo Guedes), Portugal subiu e acabou por passar para o comando do encontro. Ferreira Carrasco, o mais português entre os belgas, ainda atirou uma bola às malhas laterais após bom trabalho na área, mas foi à Seleção Nacional que pertenceram as melhores oportunidades, sempre explorando na meia distância. João Mário, com a maior capacidade de posse e circulação, foi crescendo no encontro, mas foram os três Sub-23 na frente que estiveram perto de marcar nos últimos minutos da primeira parte: Bernardo Silva fez um movimento diagonal da direita para o centro, o remate ainda desviou em Vertonghen e saiu a rasar o poste; Gelson Martins, lançado por Gonçalo Guedes, atirou ao lado já com pouco ângulo na área; e Gonçalo Guedes não quis ficar atrás mas o tiro acabou por ter o mesmo destino. Ao intervalo, era justo haver pelo menos um golo.

A experiência de Fernando Santos com três unidades soltas na frente e sempre em alta velocidade correu bem e torna-se uma hipótese viável para a estreia no Mundial, frente à Espanha (já com Ronaldo, claro). Mas correu bem porque para os miúdos andarem à solta na frente houve uma série de “velhotes” que asseguraram essa mesma estabilidade: Beto manteve o registo sem derrotas pela Seleção (13 jogos) com duas intervenções importantes; Pepe e José Fonte estiveram imperiais no centro da defesa, numa exibição sem um único erro e que secou por completo os avançados belgas; João Moutinho, que envergou esta noite a braçadeira, foi fundamental a “colar” a equipa e a encontrar equilíbrios entre transições.

No segundo tempo, com a mesma equipa contra uma Bélgica com quatro substituições ao intervalo, Portugal voltou a entrar com alguns lapsos posicionais mas rapidamente retomou a dinâmica dos derradeiros 25 minutos da primeira parte. Faltou, em algumas ações ofensivas, a capacidade de definir melhor o último passe. Faltou, em algumas ações defensivas, a capacidade de equilibrar melhor a equipa em variações rápidas de jogo. No entanto, houve um salto qualitativo grande em relação ao processo coletivo em comparação com a partida com a Tunísia, numa exibição mais próxima da caminhada do Europeu.

Beto, com duas defesas com nota artística elevada para canto a remates de Vertonghen e Meunier, travou as melhores oportunidades da Bélgica antes de uma quebra de intensidade (e qualidade) advinda da sucessão de substituições, normal num encontro deste cariz, sem que nenhuma conseguisse ter o impacto suficiente para mexer com o jogo. E o empate sem golos acabou por ser um desfecho natural no penúltimo teste antes da estreia no Mundial frente à Espanha.

Cédric e Raphael Guerreiro, também por culpa do sistema tático de Roberto Martínez e de alguns desequilíbrios coletivos, sentiram dificuldades em alguns períodos do jogo. William Carvalho, melhorando em termos físicos e na capacidade na primeira fase de construção, ainda não conseguiu atingir a mesma bitola a nível de recuperações de bola e interceções. Ainda assim, foram mais as notas positivas que Fernando Santos retirou frente a um adversário que, estando numa segunda linha como Portugal, tem legítimas ambições de ir longe no Campeonato do Mundo. Segue-se a Argélia, a viagem para a Rússia e a chegada de Cristiano Ronaldo à concentração. A partir daí, tudo será diferente. E, em condições normais, para melhor.