A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) vai deixar de ter voluntários a trabalhar na Feira do Livro, a partir do próximo ano, uma decisão tomada na sequência de um abaixo-assinado que recebeu contra “o abuso de ‘voluntários'”.

“Foi hoje recebido na APEL um extenso abaixo-assinado contra a existência de voluntários na Feira do Livro de Lisboa. Correspondendo ao pedido que lhe é dirigido, a APEL decidiu não voltar a admitir a participação de voluntários na Feira”, anunciou esta quarta-feira a entidade, numa nota enviada à agência Lusa.

No dia 25 de maio, foi lançado um abaixo-assinado nas páginas de Facebook da escritora Alexandra Lucas Coelho e da diretora de Comunicação da Penguin Random House/Companhia das Letras, Helena Ales Pereira, intitulado “Não ao abuso de voluntários na Feira do Livro de Lisboa”.

Foi hoje recebido na APEL um extenso abaixo-assinado contra a existência de voluntários na Feira do Livro de…

Posted by Feira do Livro de Lisboa on Wednesday, June 6, 2018

O abaixo-assinado, em forma de carta dirigida à APEL, que organiza a Feira do Livro em parceira com a autarquia, reuniu centenas de assinaturas de pessoas “contra o recrutamento de voluntários” pela APEL, que “recebe das editoras muitos milhares de euros pela presença na feira, além das quotas e de outras subvenções”.

Os subscritores da carta defendiam que “quem foi recrutado deve ser remunerado”. Na altura, a APEL alegou que estava a cumprir a lei e argumentou ser uma “instituição sem fins lucrativos”, razão pela qual o apoio financeiro da autarquia “é indispensável” à realização da feira.

A questão do voluntariado na Feira do Livro ganhou contornos ainda mais polémicos, quando, no dia 2 de junho, durante um debate sobre “ativismo”, promovido pela Tinta-da-China, a propósito do livro “Racismo no País dos brancos Costumes”, foi abruptamente interrompido, devido aos comentários alegadamente racistas de uma voluntária da APEL.

Debate na Feira do Livro de Lisboa interrompido. APEL lamenta o sucedido

De acordo com o relato feito pela editora da Tinta-da-China, Bárbara Bulhosa, na sua página do Facebook, a referida colaboradora passou o tempo todo a dizer que não concordava com o que estava a ser dito, e a referir-se aos convidados como “esta gente”, numa “performance racista, num debate contra o racismo”, chegando mesmo a interpelar um dos convidados, Mamadou Ba, quando este falava, quase no final do debate, para lhe dizer: “Vê lá se te despachas!”.

A APEL reagiu, na altura, ao sucedido, lamentando “profundamente os incidentes ocorridos”, e garantindo que “não se revê de nenhum modo na atitude assumida pela sua colaboradora, que dava apoio logístico à sessão de apresentação”. Esta quarta-feira, decidiu pôr fim ao recrutamento de voluntários para a Feira do Livro de Lisboa, a partir já do próximo ano.