Chefs

Uma semana a filmar com Bourdain: “Ele filmava mesmo de ressaca, não era mito”

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A brasileira Gabriela Mascioli está à frente da Herdade de Coelheiros, uma quinta de vinhos no Alentejo. Mas, em 2007, ajudou a equipa do chef a conhecer o estado de São Paulo

Bourdain não tinha uma boa imagem da cidade de São Paulo, mas mudou-a

Mercado de São Paulo, dez horas da manhã. Depois de ter sido contactada pela equipa de produção do programa No Reservations, que a convidaram a servir de guia num segmento onde o chef norte-americano ia passear pelo “Mercadão” (como é conhecido), Gabriela Mascioli dá por si com uma enorme sanduíche de mortadela nas mãos, a conversar com o cozinheiro bad boy enquanto uma equipa de dois cameramen filmam todos os pormenores do queijo derretido a pingar gordura. “Temos de ver que não é a coisa mais atrativa de sempre ver alguém a falar na televisão enquanto come uma sanduíche gigante com queijo derretido a pingar gordura”, contou ao Observador a atual responsável da quinta vínica Herdade dos Coelheiros, no Alentejo.

Há uns bons anos, em 2007, Bourdain já se tinha arrependido da imagem que formara de São Paulo aquando da sua primeira visita à cidade brasileira. “Na primeira vez que o Tony visitou São Paulo ele odiou”, explica Gabriela pelo telefone. A cidade “feia” que o norte-americano tinha conhecido enquanto promovia os seus livros tinha mudado de tom aos seus olhos e a professora universitária Rosa Moraes ajudou a alcançar isso. “Ela fez com que ele gostasse de São Paulo, levou-o a passear, à casa de amigos, à praia…” Foi graças a esta tour de redenção — que nunca foi gravada ou televisionada — que chegámos ao episódio que abre este texto: o episódio do Mercado.

Da esquerda para a direita: Gabriela Mascioli, Rosa Moraes, Bourdain e Marina, a sobrinha de Rosa. Todas acompanharam o chef no seu périplo em São Paulo.

Na altura deste regresso, Gabriela estava a lecionar num mestrado de antropologia da alimentação e foi escolhida para ser a primeira cicerone neste regresso de ‘Tony’, como lhe chama. Ela já o conhecia de antes, de quando o cozinheiro foi à sua loja de livros de gastronomia apresentar um livro, mas nunca tinha tido oportunidade de interagir mais. “Quando fui filmar com ele não sabia muito bem o que tinha de fazer. Eles (a equipa dele, ele é que tinha pedido para se fazer isso) só me tinha perguntado se me importava de falar na cena do Mercadão. Eu disse que sim, claro. Cheguei lá, colocaram-me um microfone e ele falou ‘Oi, tudo bem? Vamos andar.'” Antes de alguém sequer conseguir gritar “luzes, câmara, ação”, a equipa começou a filmar. “Não havia guião, não havia nada combinado, ele não me pediu para falar em nada de específico… O programa era todo assim.”

O sítio por onde vaguearam essa manhã era conhecido por duas coisas: uma banca de pastéis de bacalhau e as tais sanduíches de mortadela. Por entre conversas sobre as influências culturais no Brasil (“ele estava muito interessado nisso”) lá gravitaram em direção aqueles monstros com “quase um quilo” dessa carne fria. “Eu lembro que cheguei lá a pensar: ‘Só espero que não tenha de comer essa sanduíche’, mas foi precisamente isso que ele quis. Ele ainda por cima pediu queijo na dele!”, relata Gabriela, entre risos.

[Em ambiente de diversão, com a namorada e o diretor que admirava. Veja o último vídeo de Bourdain]

A filmagem terminou e tudo correu tão bem que a anfitriã começou a ajudá-los em mais coisas. Não escolhia os sítios que Bourdain devia visitar — o roteiro da tal Rosa já tinha feito esse trabalho –, mas ajudava “em coisas mais técnicas”, como dicas para encontrar sítios onde se filmasse bem o pôr do sol ou autorizações de gravação. Contudo, passou a acompanhar a caravana norte-americana para todo o lado.

“Saíamos à noite todos os dias, eu levava-o de volta ao hotel muitas vezes, depois de sairmos dos bares”, conta Gabriela. A brasileira que hoje vive em Portugal diz que Bourdain era “divertidíssimo”. Todas as noites, todos os elementos da equipa juntavam-se e iam jantar, visitavam “barzinhos”, ficavam na praia a beber e a conversar até “às duas/três da manhã”. Nesta altura, Gabriela já tinha desfeito uma das ideias pré-concebidas que tinha sobre o chef.

Bourdain e Gabriela no Mercado de São Paulo, no dia em que filmaram o programa lá.

“Ele tinha sempre aquele estilo de bad boy, de estar sempre ressacado e a fumar. Isso podia parecer uma persona televisiva, mas logo cedo percebi que não. Ele era mesmo assim, não havia ali nada de forçado. Sempre que almocei com ele de manhã, no hotel, ele estava de óculos escuros e de ressaca. Ele filmava mesmo de ressaca, não era mito”, recorda. Outra coisa que a surpreendeu, por exemplo, foi a maneira como Anthony via os sítios que queria conhecer: “Ele perguntava-me sempre onde é que os meus amigos estavam. Onde quer que eles estivessem era aí que ele queria ir.”

A ideia de dias seguidos (estiveram em filmagens uma semana inteira) a passear, comer e beber pode parecer irresistível para muitos, mas Gabriela explica que as coisas não eram tão simples. “Foi muito intenso, muito puxado, mas ele sempre foi muito gentil connosco. Os dias eram muito preenchidos e como saíamos sempre à noite, acordar às seis como ele fazia era complicado.” Independentemente disso, não faltaram histórias como daquela vez em que Anthony foi assistir a um jogo de futebol entre duas equipas de “garçons” que trabalhavam no mesmo restaurante — “depois do futebol havia sempre um churrasquinho informal” —  ou a refeição no D.O.M., do chef Alex Atala (seu grande amigo) onde “só disseram besteiras” e “se divertiram muito”. Tudo isto, claro, sempre com a sua equipa atrás, mesmo quando não era para filmar nada. “Ele e a equipa eram muito unidos, estavam sempre juntos, sempre que saíamos à noite eles iam todos também. Eram uns sete”.

E assim se foi passando o tempo, entre comida e muita, muita conversa. Gabriela diz que, naquela fase, Bourdain ainda não estava muito ligado à política. Passava horas a perguntar sobre cultura, arte, gastronomia, diferenças sociais, tudo isso relacionado com a cidade que já tinha desdenhado. “Sempre com o seu jeito muito autêntico”.

Quando tudo acabou, Gabriela e Bourdain mantiveram algum contacto, principalmente via e-mail. Ao Observador Mascioli confessou que odeia “sentir que está a pedir favores”, que tem sempre medo de poder estar a incomodar mesmo quando do outro lado isso nem sequer passa pela cabeça. “Ele sempre me disse para avisar quando estivesse em Nova Iorque, queria mostrar-nos restaurantes, bares, sítios giros porque dizia que o tínhamos tratado tão bem… Mas nunca tive coragem”, termina. Depois do dia desta sexta-feira, porém, garante que se arrepende disso.

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