Mundial 2018

Do bruxo que tentou tramar Ronaldo ao alho que deu pouca sorte a Oliveira, as histórias dos seis mundiais de Portugal

Tic-tac, tic-tac. O Mundial está à porta e, com ele, novas histórias. Mas há todo um legado de seis participações portuguesas em que houve de tudo – de campos inclinados a festas com mulheres.

AFP/Getty Images

Antes e depois de 2002 – assim se pode resumir a prestação de Portugal em mundiais. No “antes”, a Seleção Nacional apurou-se duas vezes e falhou 14 apuramentos; no “depois”, fez o pleno – foram cinco presenças, já a contar com a deste ano, na Rússia. Mas isso, provavelmente já sabe.

O que talvez não saiba é que Portugal já treinou num campo inclinado, já trocou de hotel a meio da noite, já teve alho a servir de tempero no balneário; que jogadores portugueses subornaram guardas para receber mulheres, deixaram um treinador a pé e jogaram contra empregados de mesa na preparação de um Mundial. Quer saber mais? Sinta-se à vontade para vir daí conhecer as histórias por detrás das seis participações de Portugal em Campeonatos do Mundo.

1966

Otto Glória a pé e a mudança de hotel a meio da noite

Bem-vindo a 1966, um tempo em que era possível uma meia-final de um Mundial mudar de estádio em cima da hora por vontade de uma equipa (e anuência da outra). Mas já lá vamos. Antes disso, importa perceber porque é que isso aconteceu. Portugal acabava de agarrar na caneta para escrever a primeira página portuguesa nos mundiais. E por isso ninguém dava nada por aqueles “magriços”. Que, pé ante pé, lá foram seguindo até aos quartos de final, depois de vencer Hungria, Bulgária e Brasil – com dois golos de Eusébio, que venceu o duelo particular com Pelé. Mas ali, nos quartos de final, a coisa estava feia. Aos 25 minutos, Portugal já perdia por 3-0 com a Coreia do Norte, ainda conseguiu reduzir para 3-2 até ao intervalo, mas Otto Glória, o selecionador, estava fora de si. “Seus filhos da p***, vocês deram-me a maior alegria de ter ganho aos meus irmãos brasileiros e agora estão a perder com uma equipa da Walt Disney!”, berrou ao plantel. As palavras foram como uma mola nas pernas dos jogadores em geral, de Eusébio em particular: Portugal acabou a vencer por 5-3, com quatro golos do “pantera negra”. Mas no final do jogo não houve cá amizades com Otto Glória… Os jogadores deixaram-no a pé e seguiram no autocarro da equipa para o hotel. Quanto ao selecionador, teve mesmo de viajar à boleia dos jornalistas.

E agora o tal jogo que mudou de palco em cima da hora, lembra-se? Foi a meia-final que se jogou entre Portugal e a Inglaterra e que estava prevista, precisamente, para Goodinson Park, o estádio onde os “magriços” deram aquela tareia aos coreanos. Os ingleses, que até eram os anfitriões do Mundial, não são tontos… e por isso quiseram evitar um campo que tanta força tinha dado à comitiva portuguesa. E quando um inglês sonha a obra nasce? É mais ou menos isso. Pelo menos foi. As duas federações conversaram e a portuguesa acatou mudar o jogo de Goodinson Park, onde cabiam 45 mil adeptos, para Wembley, que levava 100 mil. “Os ingleses até sabiam onde era o nosso hotel em Londres, em Piccadilly Circus. Foram lá à noite e fizeram uma barulheira tal que tivemos de ir para outro hotel a meio da madrugada, a 30 quilómetros de Londres”, recordou Eusébio, em 2011, ao Expresso. O resto foi história: Portugal perdeu por 2-1, arrecadou o terceiro lugar, ainda hoje o melhor resultado em mundiais. Fernando Santos, podemos tratar disso este ano?

Classificação: 3º. lugar

Jogos:

Fase de grupos
Portugal-Hungria, 3-1
Portugal-Bulgária, 3-0
Porugal-Brasil, 3-1

Quartos de final
Portugal-Coreia do Norte, 5-3

Meia final-
Portugal-Inglaterra, 1-2

Disputa do 3º e 4º lugares
Portugal-União Soviética, 2-1

1986

Uma “fortaleza” inclinada e os subornos por mulheres

“Fortaleza”. A palavra, dita assim de repente, e aplicada ao mundo futebolístico, transporta-nos para um passado recente – mais concretamente para a época de 2016/17 e para um Nuno Espírito Santo ainda treinador do FC Porto, referindo-se ao efeito Estádio do Dragão na equipa (que ainda está por comprovar na época em questão, mas isso são outros quinhentos). Adiante. A verdade é que a expressão já tinha sido utilizada 30 anos antes, em 1986, no Mundial do México, para apelidar o Motel La Torre, em Saltilho, quartel-general da Seleção Nacional.

Mas nem tudo eram rosas na tal “fortaleza”. Bem pelo contrário. Não havia campo de treinos, o que obrigava a equipa a deslocar-se de autocarro até um relvado que, além do mau estado do piso, mais amigo de lesões do que de grandes performances desportivas, era… inclinado – e não nos referimos a ajudas dos árbitros. Resultado: os jogadores cansavam-se mais rapidamente.

E se treinar, só por si, já era uma aventura, o que dizer dos jogos de preparação? Estava programado Portugal defrontar o Chile, mas a Federação Portuguesa de Futebol cancelou o jogo, alegando que os sul-americanos pediam dinheiro a mais. À falta de adversário, a equipa lusa jogou mesmo contra cozinheiros e empregados de mesa de um restaurante no México, que tiveram de pedir dispensa para dar uma mãozinha à Seleção Nacional. 11-0 foi o resultado final. Não surpreende, pois não?

Aconteceu de tudo um pouco em Saltilho, 1986 – o tal Mundial da polémica. Paulo Futre, o benjamim da equipa nacional de então, com apenas 20 anos, levantou o véu, anos mais tarde, em forma de livro. Em “El Portugués”, que escreveu em 2011, o antigo avançado pôs tudo a nu – quase que literalmente. E já vai perceber porquê. Primeiro, importa recordar que esse Mundial ficou marcado pelas guerras entre jogadores e a Federação Portuguesa de Futebol relativas a prémios e remunerações por publicidade. Ora, os atletas queriam receber mais e, como não recebiam, não foram de modas: passaram a treinar em tronco nu ou com a camisola do avesso, tudo para esconder as marcas que eram forçados a vestir.

Também as festas com mulheres acabaram por se tornar numa espécie de mito urbano de Saltilho – pelo menos até Paulo Futre as confirmar. Mulheres, eram a rodos a rodar entre o plantel. Garante o antigo internacional português que as folgas dos jogadores eram passadas em festas privadas (foi numa delas que Futre se ligou a uma mulher-polícia, de seu nome Laura Venezuela) e que mesmo quando tinham de ficar entre os muros da “fortaleza”, o quartel-general da Seleção, havia forma de contornar o problema: subornavam os empregados do hotel para poderem sair. O esquema era este: as mulheres chegavam, cada uma no seu carro, e estacionavam em fila indiana à porta do hotel; os jogadores encontravam-nas nas viaturas, ali mesmo. Se tivessem de regressar aos quartos, estavam a um passo deles.

Eventualmente, algumas mulheres acabavam por se apaixonar pelos jogadores e por lhes oferecer presentes – sobretudo ouro. Os casados não tiveram outra opção: para não serem mais tarde descobertos pelas mulheres, venderam o ouro ali mesmo, em Saltilho, a… Paulo Futre, o solteiro do grupo. Era uma espécie de negócio da China: o antigo avançado comprava barato aos colegas, vendia caro em Portugal.

Classificação: fase de grupos

Jogos:

Fase de grupos
Portugal-Inglaterra, 1-0
Polónia-Portugal, 1-0
Marrocos-Portugal, 3-1

2002

Um balneário temperado com alho e os sapatos de Figo, dois tamanhos acima

FB052;, WC2002-POR-KOR;, Action;, World, Cup;, Match;, Football;, Horizontal;, Goal;, Goalkeeper,

O mundo do futebol – e o mundo em geral, vá – presta-se, de vez em quando, a algumas bizarrices. Sobretudo quando a sorte e o azar são a outra face do talento. Podemos achar à partida que uma equipa que conta, nas suas fileiras, com nomes como Luís Figo, Pauleta, Rui Costa ou Vítor Baía – a promissora geração de ouro, que vinha de uma boa prestação no Europeu de 2000 (chegou até à meia-final) e que fez um apuramento imaculado para o Mundial – não precisa assim tanto de ser bafejada pela sorte. Mas António Oliveira terá pensado: “Nunca fiando…”.

O selecionador sempre foi conhecido por ser supersticioso e manteve-se fiel aos pergaminhos quando assumiu o comando da equipa nacional no Mundial de 2002, na Coreia do Sul e no Japão. Oliveira não foi de modas e optou por espalhar alho no balneário para afastar os maus espíritos. Mas a verdade é que nem a si próprio conseguiu dar sorte. Uma rasteira do adjunto José Romão deixou-o de muletas nos últimos dois jogos e quanto a Portugal… bom, digamos que foi um tiro que passou (muito) ao lado: a geração de ouro ficou, de forma inglória, pela fase de grupos, com Luís Figo muitas fichas abaixo daquilo a que nos tinha habituado. O antigo avançado, eleito melhor do Mundo pela FIFA um ano antes, chegou à Alemanha limitado fisicamente. Um choque com Deco no encontro entre o FC Porto e o Real Madrid, para a Liga dos Campeões, deixou-lhe o tornozelo feito num oito: o inchaço era tão grande, que Figo tinha de calçar dois tamanhos acima para conseguir jogar.

Classificação: fase de grupos

Jogos:

Fase de grupos
Portugal-Estados Unidos, 2-3
Portugal-Polónia, 4-0
Portugal-Coreia do Sul, 0-1

2006

Costinha em versão bailarina e as escapadelas para sexo

É sempre assim: há um jogador que fica encarregado de dar música ao plantel. Em Marienfeld, localidade onde ficou instalada a comitiva portuguesa no Mundial da Alemanha, em 2006 (curiosamente o mesmo local que albergou o FC Porto no estágio de pré-época três anos antes), esse jogador era Costinha. Mal chegou ao país germânico, e para que não faltasse nada, usou o próprio cartão de crédito para comprar uma aparelhagem. Estava montado o estaminé.

O que escapou ao antigo médio português foi aquela palestra que estava marcada para depois do almoço. Até achou estranho que ninguém lhe pedisse para pôr música, mas resolveu tomar a iniciativa. Era vê-lo a deslizar como uma bailarina (a expressão é do próprio) rumo à zona de convívio do hotel e a regressar tipo Michael Jackson para desligar a música quando deu de caras com Scolari – o selecionador não achou graça nenhuma ao esquecimento e deixou-o no banco no dia seguinte.

Scolari, aquele treinador que é uma mistura de pai amigo com “poderoso chefão”, mas que é liberal quando o assunto é sexo durante as grandes competições. “Não me interessa saber o que fazem nos dias de folga”, disse por várias vezes. E no Mundial de 2006 não foi exceção. Conta Petit que num dos dias livres em Marienfeld, seis jogadores (não revela quais, mas ele estava, como vai perceber, entre o grupo de felizardos), viajaram de carrinha até um hotel a 30 quilómetros do quartel-general da seleção. O “assunto” foi rápido. Nem 15 minutos depois de entrarem nos quartos, os jogadores já estavam de toalha à cintura, nas varandas, a contemplar o court de ténis…

Classificação: 4º. lugar

Jogos:

Fase de grupos
Angola-Portugal, 0-1
Irão-Portugal, 0-2
México-Portugal-Coreia, 1-2

Oitavos de final
Holanda-Portugal, 0-1

Quartos de final
Inglaterra-Portugal, 0-0 (1-3, g.p.)

Meias-finais
França-Portugal, 1-0

Disputa do 3º e 4º lugares
Alemanha-Portugal, 3-1

2010

Os cromos da Panini e as visitas a Mandela

A paragem seguinte no mapa dos mundiais foi a África do Sul, aquele país que tem Nelson Mandela agarrado ao nome. E quem também esteve agarrado – salvo seja – ao antigo líder sul-africano foram Cristiano Ronaldo e Carlos Queiroz. Logo na primeira folga da equipa nacional, o selecionador e o craque portugueses tiveram honras de serem recebidos na casa de Mandela, em Joanesburgo e até lhe ofereceram uma camisola da Seleção com o número 91 inscrito nas costas – a idade que tinha, então, o ex-presidente sul-africano.

Mas… ir à África do Sul e não ver leões? Foi o que pensaram os outros 22 jogadores que, nessa mesma tarde, apanharam o autocarro da Seleção e seguiram caminho para o Lion Park, onde brincaram com pequenas crias. Ronaldo não apareceu por lá, para desgosto dos que já se perfilavam à entrada do parque de camisola vestida e máquina em riste para as selfies e autógrafos da praxe.

Continuamos a falar de visitas – foi intensa a vida social da Seleção na África do Sul, não foi? Desta feita, foi a comitiva portuguesa a anfitriã. Na véspera de ser eliminada nos oitavos de final pela Espanha, recebeu François Pienaar, capitão dos Springboks, nome pelo qual ficou conhecida a seleção sul-africana que venceu o Mundial de râguebi – e que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood (onde Pienaar é representado por Matt Damon). Uma equipa que foi mais do que uma equipa; foi um acontecimento político, sobretudo pela forma como foi usada por Mandela para diminuir o fosso entre brancos e negros criado pelo Apartheid.

É sabido que nas grandes competições é preciso ocupar o tempo livre – ainda por cima os jogadores estavam proibidos de sair do hotel, devido às fortes medidas de segurança. Além das cartas, do snooker e dos jogos de consola da praxe, o plantel aproveitou para atualizar a coleção de cromos da Panini. Quem o diz? Os funcionários da loja mais próxima, que garantem que elementos do staff português iam sempre lá comprar cromos para os jogadores.

Classificação: fase de grupos

Jogos:

Fase de grupos
Costa do Marfim-Portugal, 0-0
Portugal-Coreia do Norte, 7-0
Portugal-Brasil, 0-0

2014

O bruxo que quis lesionar Ronaldo e os autógrafos proibidos

Quando o sorteio do Mundial ditou que Portugal iria defrontar o Gana no terceiro jogo da fase de grupos do Mundial de 2014, Nana Kwaku Bonsam percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Quem? – estará a perguntar por esta altura. Nós respondemos: o bruxo mais famoso do Mundial do Brasil. Bonsam – como qualquer pessoa que vá, viva neste planeta – não achou muita graça que CR7 alinhasse frente à sua seleção. Vai daí, lançou um feitiço para que o português se lesionasse. A técnica, explicou na altura, chama-se “Kahwiri Kapam” e, para a pôr em prática, era preciso usar quatro cães. Será que resultou? Bom, é verdade que Ronaldo chegou ao Mundial com resquícios de uma lesão no tendão rotuliano contraída no Real Madrid mas, por outro lado, jogou frente ao Gana – e até marcou um golo. Numa coisa, pelo menos, o bruxo errou redondamente. “Esta lesão não pode ser curada por médico algum”, disse na altura. Felizmente estava errado.

Cristiano Ronaldo era, claro, uma das figuras mais esperadas no Brasil – pelos adeptos em geral, mas também pelos funcionários do hotel onde estava instalada a Seleção Nacional em particular. Um deles até comprou uma camisola de CR7, já todo lampeiro para conseguir nela a assinatura do ídolo. Mas não. As regras do The Palms, em Campinas, eram explícitas: nenhum funcionário podia pedir autógrafos, tirar fotografias ou importunar os jogadores de alguma forma. Até as redes sociais eram fiscalizadas. Se não cumprissem? Eram despedidos na hora.

Classificação: fase de grupos

Jogos:

Fase de grupos
Alemanha-Portugal, 4-0
Estados Unidos, 2-2
Portugal-Gana, 2-1

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