Mundial 2018

O tempo como barómetro do início do Mundial: os últimos preparativos, entre Moscovo e Sochi

O polvo Paul ainda está no imaginário de muitos, agora surge o gato Achilles para adivinhar os resultados. Se calhar, basta olhar para cima e ver o tempo: crónica de uma viagem entre Moscovo e Sochi.

Uma imagem à distância do imponente estádio Luzhniki, que vai receber o jogo de abertura e a final do Mundial

Getty Images

Enviado especial do Observador à Rússia (algures entre Moscovo e Sochi)

Achilles tornou-se figura de proa nos últimos dias, nesta espécie de concurso paralelo às grandes competições do “Quem sucede ao polvo Paul?”. E lá estavam câmaras, muitas câmaras, para ver o pequeno grande gato com ar patusco a escolher a taça de comida do vencedor do encontro de estreia deste Mundial, entre Rússia e Arábia Saudita (com triunfo dos anfitriões). Ainda assim, esta acaba por ser uma imagem distorcida da realidade no país. Tomemos Kratovo como exemplo: à exceção do animal de estimação de Sveta, a responsável da casa de campo onde ficámos hospedados, que passava mais de metade do dia na cadeira da receção como se nada mais se passasse no mundo, o que encontramos pelas ruas são cães, muitos cães.

Podiam ser mais, de acordo com o chefe do Comité de proteção ambiental da Câmara baixa, Vladimir Burmatov, que em janeiro veio condenar o alegado massacre de animais em vésperas de Campeonato do Mundo. O problema é assumido por todos, incluindo o vice-primeiro-ministro Vitaly Mutko, e deriva da resistência transversal na Rússia em esterilizar animais domésticos. Nessa altura, foi pedido para que o problema fosse resolvido da forma mais “bondosa” possível. Mas não deixa de ser um problema, grande ao ponto de haver cerca de dois milhões de animais de rua nas cidades que recebem jogos neste Mundial. E que consegue originar um dos poucos diálogos com Igor, taxista que nos leva por um périplo que dava para ir de Lisboa a Braga. Sempre com gestos e línguas diferentes, mas capaz de se perceber que existe um especial carinho por animais entre a população.

Esta quarta-feira conseguiu perceber-se bem a diferença em termos locais de um dia com feriado, como acontecera na véspera, se sem feriado. E é aqui que o GPS, sempre com a morada colocada pela voz e não de forma manual, dá uma ajuda extra: por ter de forma automática os locais onde existe um maior tráfego e com os respetivos minutos de espera, o mapa até ao estádio Luzhniki é um conjunto de traços vermelhos com números. Haja paciência para fintar esse destino do para arranca, consegue sempre ganhar-se mais uns minutos, mesmo parando de quando em vez num trânsito que nos recorda o Cairo em hora de ponta, com tudo a tentar ser mais esperto do que o outro com alguma aversão aos sinais antes de mudar de lado à mistura. E outro pormenor (que mais à frente no texto se perceberá o porquê de ser relevante): todos os locais servem para puxar um cigarro, seja ele normal ou as muito comuns máquinas eletrónicas, incluindo em carros com os vidros fechados.

A certa altura, cerca de hora e meia depois de termos arrancado de Kratovo, onde a Seleção Nacional tem o seu quartel general, já se notam as diferenças. Nos prédios de dimensões bem maiores, nas cúpulas de cores mais aguerridas que nos trazem à memória que estamos no país dos czares. De um lado já encontramos outdoors do Mundial que dão as boas vindas a algumas comitivas, como a da Bélgica (com Witsel em destaque) ou do México (com Diego Reyes, que vai falhar a prova por lesão, em primeiro plano); do outro, cartazes eletrónicos enormes das principais marcas desportivas, com os inevitáveis Ronaldo e Messi. Mais umas filas, mais umas fintas aos ziguezagues, e somos esmagados pela imponência do Luzhniki, a majestosa infraestrutura que recebeu os Jogos Olímpicos de 1980 e que surge agora de cara lavada como principal palco deste Mundial.

Uma imagem do imponente estádio Luzhniki, que vai receber o jogo de abertura e a final (MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images)

Também aqui, os carros que não tem a respetiva acreditação ficam longe do coração do estádio. Mais um bocado a pé, só faz é bem à saúde. Com a certeza de que estamos bem protegidos: ao nosso lado marcham uma série de agentes de farda verde escura, com um passo imponente para quem tem nos pés aquelas botas militares. E com um enorme mérito que deve ser dado à organização: o processo de acreditação tem tanto de simples como de rápido e eficaz: sobe-se umas escadas, espera-se na fila não mais do que dois minutos, confere-se o passaporte, tira-se uma foto, espera-se uns cinco minutos numa outra sala ao fundo do corredor e está feito. Fila, só mesmo para obter o cartão que permite utilizar os transportes públicos durante o Mundial e mesmo assim também dá para meter conversa com outros jornalistas europeus que também esperam por esse título. Ainda estão a ser tratados os últimos pormenores, como por exemplo o balcão 5, 6 e 7 do Fan ID (só o 4, naquela zona, estava aberto e a funcionar), mas são isso mesmo: pormenores. E com muito menos segurança e revistas do que em qualquer outro local por onde passámos.

Próximo destino: aeroporto de Domodedovo. Por outras vias rápidas/autoestradas (daquelas que obrigam a andar com cinto e onde existem operações stop de mero controlo), com o mesmo tempo: depois da chuvada da madrugada de terça para quarta-feira em Kratovo, o sol abre de quando em vez em Moscovo mas o céu está sobretudo muito nublado, quase que reagindo à partida que, olhando para os atuais rankings FIFA das equipas, é considerado o jogo de abertura mais fraco de sempre. Longe de um Brasil-México de 1950. Do Jugoslávia-França de 1954. Do Argentina-RFA de 1958. Do Inglaterra-Uruguai de 1966. Do Brasil-Jugoslávia de 1974. Do Argentina-Bélgica de 1982. Do Argentina-Camarões em 1990. Do Brasil-Croácia de 2014. Moscovo é como uma cidade composta por muitas cidades; o Luzhniki é um recinto composto por muitos recintos.

Mais uma viagem longa, mais uma mudança radical. Em tudo. Ainda no interior do aeroporto, há dezenas de voluntários capazes de, mesmo num inglês mais prolongado, explicarem tudo o que possamos querer saber. Sochi ganhou uma especial apetência para o desporto depois da organização dos Jogos Olímpicos de Inverno em 2014 e também por isso é avesso ao tabaco num país conhecido pelos altos níveis de tabagismo: há zonas específicas para o efeito, pequenas e raras, e qualquer tentativa arrojada de furar esse princípio tem logo alguém a dar uma reprimenda. Ponto comum a Moscovo? O trânsito caótico, sobretudo para quem quer seguir para a zona onde está o Fisht Stadium que vai receber o Portugal-Espanha. Antítese de Moscovo? O calor infernal, que faz com que passemos por várias pessoas que ao final da tarde vêm de calções e com toalhas de praia. Se alguma vez passou por um qualquer país das Caraíbas e sentiu aquele bafo quente quando saiu do aeroporto, nesta ponta da Rússia é igual.

Do tempo nublado em Kratovo para o calor a sério em Sochi: uma nova realidade para a Seleção (JEWEL SAMAD/AFP/Getty Images)

Como aconteceu na Cidade do Cabo, na África do Sul, onde se realizou o último encontro numa fase final do Campeonato do Mundo entre os dois rivais ibéricos, também aqui se aproveitou da melhor forma um grande evento para “reconstruir” e dar um outro ar a esta parte da cidade: além das infraestruturas logísticas e desportivas que ficaram, há zonas de petiscos e comércio local, parques temáticos de diversão e uma roda gigante que faz lembrar o London Eye muito próximo do estádio. Dali, e de alguns hotéis ali ao pé, consegue-se ver o campo de treinos FIFA para o Mundial (nada aconselhável a quem queira esconder a tática). E alguns adeptos espanhóis que vão chegando para o jogo já comentam isso entre si, percebendo depois que nem Hierro nem Fernando Santos irão trabalhar nesse relvado a cerca de 200 metros da entrada para o Fisht Stadium.

Em Moscovo, o tempo pode abrir de quando em vez mas tem andado nublado e com chuva. Em Sochi, está um calor que obriga a procurar sombras logo desde as 9h. Em Moscovo, o Rússia-Arábia Saudita é um encontro que pode aumentar a temperatura só por ser o primeiro deste Mundial. Em Sochi, o Portugal-Espanha é a partida que promete ser a mais escaldante de toda a fase de grupos. O polvo Paul e o gato Achilles podem tentar adivinhar os resultados, mas não há melhor barómetro do que o tempo para se perceber o que está em causa quando a bola começar a rolar a sério neste Campeonato do Mundo.

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