Enviado especial do Observador à Rússia (em Sochi)

Estava pouca gente no centro de imprensa do Fisht Stadium logo de manhã, até porque em dia de jogo esta zona circundante ao recinto é sobretudo para pedestres devido aos normais constrangimentos colocados por questões de segurança. Um expresso à maneira (dentro do género), uma vista de olhos pelos jornais nacionais e estrangeiros, uns quantos voluntários a passarem com placas sinaléticas por colar de última hora e tudo preparado para a estreia de Portugal e deste estádio no Mundial.

Uma volta pela zona destinada à imprensa no piso 0, um olhinho para perceber se já começavam a chegar adeptos das duas equipas a esta espécie de Calçadão da Riviera russa com praia e muitos bares espalhados ao longo de muitos metros, e a nossa vista cruza-se com Maksim Lisovoi. Ou melhor, com a camisola de Maksim Lisovoi, ou Max como passado dois minutos já era conhecido: um pólo da Macron de 2015 com o símbolo do Sporting. “Português?”. “Nyet, russian”, responde.

Max é jornalista e esteve em Lisboa em 2015 para cobrir o Sporting-CSKA Moscovo, a contar para a primeira mão do playoff de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões. Recorda que os russos perderam mas que mais tarde deram a volta em casa. Que Doumbia, o herói dessa eliminatória, mudou-se depois para os leões. Ainda se lembra do nome do Benfica, “o rival do Sporting”. Tem pena de não ter voltado ainda à capital portuguesa. Mas também mostra estar atento ao que se passa em Portugal.

“E aquilo na Academia?”, pergunta. Por cá, e da conversa com Max, percebemos que o filme que se faz ainda mais de terror do que foi contado em Portugal, através dos testemunhos dos jogadores e do staff à GNR, bem como do despacho que deixou em prisão preventiva os 27 detidos até ao momento. Não, não houve facas, por exemplo. E sim, houve mais rescisões além dos quatro internacionais da Seleção Nacional. “Nove? Não posso… E sem treinador? Como fica a equipa no próximo ano?”. A surpresa é normal, o clube que Max conheceu da Champions atravessa um momento complicado que tem eco no estrangeiro.

Mas hoje é dia de Portugal e, por volta das 15 horas, saímos em busca dos adeptos portugueses. De manhã, vimos apenas uma camisola de Portugal que pertencia a um brasileiro que está na cidade por causa do estágio de Neymar e companhia e mais duas de um casal asiático que passa de bicicleta. Ponto comum? O número 7 das costas, de Cristiano Ronaldo.

Fernando Santos falou em cerca de 1.500 portugueses que viajaram até à Rússia para este primeiro encontro da Seleção no Campeonato do Mundo, mas há muitos mais a torcer pela equipa de todos nós. E de Ronaldo. Ou de Ronaldo que faz com que seja de todos nós. De pontos tão distantes como a China ou a Índia, mas também de diferentes pontos da Rússia.

Li tem uma camisola de Ronaldo, mas aquilo que mais nos chama a atenção é, ao mesmo tempo, a tatuagem do símbolo do Real Madrid no tornozelo. Ela e as amigas já chegaram antes a Sochi e mostram-se ansiosas por poderem ver o capitão português. Perdão, Portugal. “Sou do Real Madrid por causa do Ronaldo, esta tatuagem do Real Madrid é por causa do Ronaldo e viemos cá ver o jogo por causa do Ronaldo”, atira numa primeira abordagem. Mas é assim uma legião tão grande de fãs? “Da China penso que vêm 500, 700, talvez mil pessoas para os jogos de Portugal. Gostamos muito de futebol mas ele é o número 1”, reforça. E agora uma rasteira: conhecem mais algum jogador da Seleção? “Sim, o Pepe. Jogou no Real”, atira uma das amigas.

Um pouco mais à frente cruzamo-nos com Sudip Chhatui e Natesh Relhan. Ambos viajaram da Índia, ambos estão com a camisola de Portugal, ambos com a camisola de Ronaldo, ambos com uma perspetiva completamente diferente. “Na Índia vemos os principais campeonatos da Europa, não somos apenas um país de críquete como costumam dizer. Há milhões e milhões de seguidores de futebol, da Premier League, da Liga, da Bundesliga. No fundo, todos os principais”, diz Sudip. “E o Real Madrid”, acrescenta Natesh, antes de começarem a enumerar, um de cada vez, jogadores da Seleção Nacional. “[Bernardo] Silva, William Carvalho, Moutinho, Pepe, Patrício, Guerreiro”, dizem. E vão mais longe no onze, acenando com a cabeça quando falamos do nome de Bruno Fernandes. “Somos adeptos de futebol, do melhor futebol, e isso é o que Ronaldo representa”, acrescentam.

Um pouco mais à frente, um pai tira uma fotografia a um filho. O mais velho tem a camisola alternativa cor de rosa do Real Madrid com um cachecol de Portugal ao pescoço, o mais novo usa o equipamento alternativo da Seleção no Campeonato da Europa de França. Tentamos meter conversa, conhecer um pouco da sua história, mas o inglês não é a sua especialidade e nem o Google Translate desbrava este problema. Não tem problema, fica para a próxima. Assim como assim, a verdade é que aquilo que para eles é mais importante conseguiram dizer porque não precisa de qualquer tradução: “Ronaldo! Ronaldo!”.