A própria Tesla faz questão de frisar insistentemente que o seu Autopilot não se substitui ao condutor. Entretanto, a Nissan decidiu chamar ao seu sistema de condução semiautónoma ProPilot. Resultado: as seguradoras parecem estar incomodadas com este tipo de designações comerciais para sistemas que não passam de funções de assistência à condução mais sofisticadas, alegando que o nome pode induzir em erro os condutores, levando-os a confiar numa tecnologia que (ainda) está longe de ser infalível. Ora, isto é equivalente a confundir produtos como um “lava tudo”, não vá alguém decidir lavar os olhos ou escovar os dentes com ele, o que garantidamente não correria bem…

Vem a isto a propósito de uma notícia da BBC, segundo a qual o mais recente relatório da Associação Britânica de Seguradoras se apoia num trabalho conduzido pelo centro de investigação Thatcham Research para demonstrar que… ainda não há carros 100% autónomos a circular nas estradas. Do Reino Unido ou de qualquer outro país! O que há, isso sim, são vários sistemas de assistência ao condutor que, durante algum tempo e em determinadas circunstâncias, podem “conduzir” o veículo. Defendem as seguradoras que as campanhas de marketing que associam este tipo de tecnologia à condução autónoma induzem os consumidores em erro. E daí podem resultar acidentes, como este:

Havia necessidade de fazer este teste? Aparentemente, sim. E isso é preocupante, pois significa que quem compra veículos equipados com este tipo de tecnologia, independentemente da marca, não faz ideia daquilo que tem entre mãos.

Embora a demonstração seja feita com um Model S, é bom notar que qualquer outro modelo no mercado não seria capaz de evitar a colisão. Na melhor das hipóteses, possuiria um sistema que, independentemente da denominação comercial, não passa de um cruise control adaptativo (que trava ou acelera para manter a distância ao carro da frente) e de um sistema de manutenção na faixa de rodagem (que vira o volante para descrever a trajectória definida pelas linhas que limitam a dita faixa). Seria, isso sim, obrigado a detectar a presença de outro veículo, peão ou ciclista e travar. O conseguir evitar o objectáculo, ou diminuir substancialmente a velocidade, dependeria da velocidade a que circulava e da distância ao obstáculo quando este é detectado.

O que é estranho, e não é explicado no vídeo, é que tipo de simulacro de automóvel está no meio da pista de testes. Para ser detectado pelos sistemas de ajuda à condução, o veículo/obstáculo tem de possuir uma determinada densidade e capacidade de reagir às emissões do radar com que os veículos equipados com estes sistemas estão equipados, similares pois aos de um automóvel convencional. E, depois de ver como aquele amontoado de blocos de espuma e tela se desmorona, não parece que reúna as condições. Já realizámos testes similares com simulacros de acordo com as especificações e garantimos que eles são substancialmente distintos. Depois, o Tesla obviamente reduz a velocidade antes do embate, mas fica a dúvida: fá-lo por acção do condutor ou pelos seus próprios sistemas?

Pena é que este tipo de trabalhos não sejam realizados por entidades independentes, como a EuroNCAP ou afins, e normalizados para todos os veículos, pois além de alertar os condutores para a capacidade dos sistemas que adquiriram, seria igualmente benéfico apurar quais os que melhor evitam os acidentes, sejam eles contra um veículo, peões ou ciclistas.