O Banco de Portugal manteve esta quinta-feira a previsão de que a economia portuguesa vai abrandar já este ano e assim continuará até 2020, mas está preocupado com o impacto das tensões comerciais entre os Estados Unidos, a China e a União Europeia. O banco central fez estimativas e diz que, no pior cenário, economia portuguesa pode cair 2,5% ao fim de três anos de conflito. Preços subiriam 0,4%.

Para já, tudo na mesma, mas há cada vez mais nuvens sobre a economia portuguesa. O Banco de Portugal apresentou esta quinta-feira o Boletim Económico de junho, com novas projeções para a economia portuguesa, mas o crescimento esperado para os próximos três anos é o mesmo que o esperado em março.

Nas contas da instituição liderada por Carlos Costa, a economia deverá crescer 2,3% este ano, um abrandamento face aos 2,7% registados no ano passado. O abrandamento esperado faria com que este fosse o último ano de convergência com a média europeia. Em 2019, espera-se que o ritmo de crescimento volte a abrandar para os 1,9% e em 2020 novamente, para os 1,7%, tal como já se antecipava em março.

No entanto, apesar de o resultado final ser basicamente o mesmo, o crescimento esperado chegará mais por via interna. As exportações e as importações deverão crescer significativamente abaixo do esperado há três meses, mas o consumo privado e o consumo público deverão compensar esta revisão em baixa.

Outro fator importante é, novamente, o crescimento do emprego acima do esperado pelo Banco de Portugal, que reviu em alta o crescimento esperado de 1,9% para 2,6%. Este tem sido um dado que tem surpreendido pela positiva o Banco de Portugal, trimestre após trimestre.

Trump e populistas na Europa são a maior ameaça

A conjuntura externa volta a ser a maior ameaça às previsões que o Banco de Portugal faz para a economia portuguesa, mas desta vez a preocupação é maior e merece mesmo uma caixa dedicada ao principal destes: as tensões comerciais com os Estados Unidos.

O Banco de Portugal fez estimativas a impacto sobre a economia portuguesa de uma guerra comercial em dois cenários diferentes. Num deles, havia uma escalada limitada das medidas que já estão a ser aplicadas, caso da criação de tarifas sobre a importação de bens, em que as partes retaliariam contra a imposição destas medidas, mas não iriam mais além.

Neste cenário, ao fim de três anos, a economia portuguesa perderia 0,7% do PIB e os preços subiriam 0,4%.

Num cenário mais extremo, em que a guerra comercial levaria a que todos os países impusessem este tipo de medidas por princípio, as consequências seriam significativamente mais negativas: a economia portuguesa perderia 2,5% do PIB ao fim de três anos; os preços subiriam 1,4%. Isto, só em resultado direto.

Apesar de, em especial o segundo cenário, se tratar de um cenário hipotético e, para já, ainda longe de acontecer, as estimativas feitas sobre o impacto foram-no de forma conservadora, o que significa que a concretizar-se qualquer um destes cenários, o impacto na economia portuguesa poderia ser muito superior.

Os riscos de Portugal vão além das decisões de Donald Trump – e da retaliação dos afetados. O Banco de Portugal alerta ainda para a incerteza política na área do euro e a possibilidade do regresso das tensões aos mercados financeiros, como se viu recentemente com a incerteza em torno do novo governo italiano, até porque os maiores parceiros comerciais de Portugal estão na zona euro (Espanha, França e Alemanha).

Constrangimentos estruturais impedem maior crescimento

O Banco de Portugal termina fazendo o mesmo apelo às autoridades portuguesas, de que é preciso aproveitar o enquadramento económico e financeiro favorável para corrigir os constrangimentos estruturais ao crescimento de longo prazo, os quais “ajudam a explicar o abrandamento da atividade económica ao longo do período do horizonte”, ou seja entre 2018 e 2020.

Os problemas identificados são os mesmos: o elevado endividamento da economia portuguesa, tanto público como privado, a falta de qualificações dos trabalhadores, o desemprego de elevada duração e a necessidade de investimento nos setores mais produtivos da economia.

Apesar de as questões não serem novas, o enquadramento externo mais desfavorável e os riscos que o banco central identificou torna mais urgente a resolução destes problemas estruturais, especialmente numa altura em que os bancos centrais estão a começar a dar os primeiros passos para a retirada dos estímulos extraordinários que têm dado para suportar as economias em tempo de crise. A retirada destes estímulos pode agravar as condições que o Estado se financia no mercado, perdendo aquela que foi uma das grandes muletas da recuperação económica portuguesa.