Enviado especial do Observador à Rússia (em Moscovo)

Esta era a conversa que tinha tudo para não acontecer. Esta acabou por ser a melhor conversa de todas. Esta acabou por ser uma conversa que no final deixou a ideia de que mais virão nos próximos tempos. A zona mista estava quase “fechada” e, à exceção dos jogadores da Seleção Nacional, os jornalistas que resistiram até ao fim continuavam de mãos a abanar. Não por terem a lição mal preparada, mas porque o central Manuel da Costa, em bom português, atirou de forma brusca que não tinha nada para dizer e porque o ex-médio do Sporting Mustapha Hadji, hoje adjunto, pediu desculpa de uma maneira simpática e a sorrir mas também não quis falar. Lá ao fundo estava ainda Mehdi Carcela, então a falar com a imprensa marroquina. Mas como era um dos últimos e já estava a receber toques da assessora de imprensa para acelerar o passo, as coisas estavam a complicar-se.

A ironia de Adrien, a azia de Manuel da Costa, Marcelo e uma pop star: a zona mista do Portugal-Marrocos

“Carcela, para Portugal”, dizemos. O extremo sorri, dá um ligeiro toque nos phones enormes que traz na cabeça, ajeita o relógio e pede apenas para que possa responder em inglês. As perguntas, essas, podem ser em português. E as próprias respostas até podiam ser, mas entendeu que era mais fácil exprimir-se em inglês. Que podia ser francês, espanhol ou mesmo russo, pelo menos umas palavras, se fosse necessário. Afinal, aos 28 anos, o ala que passou pelo Benfica de forma fugaz na primeira época de Rui Vitória na Luz (onde foi campeão na equipa que bateu o recorde de pontos num Campeonato, registo agora igualado pelo FC Porto de Sérgio Conceição) também esteve duas temporadas na Rússia, ao serviço do Anzhi.

Formado no Standard Liège, clube da cidade onde nasceu filho de pai espanhol e mãe marroquina, Carcela estreou-se no conjunto principal com apenas 19 anos e não demorou a dar nas vistas. Após três anos no conjunto principal, foi cobiçado por Spartak e Anzhi, acabando por optar pelo clube que ganhou outra força e visibilidade com a entrada em cena do milionário Suleyman Kerimov, que fez de uma equipa do Daguestão, zona com fama de ser das mais perigosas do mundo, um verdadeiro candidato ao título com contratações de renome como Samuel Eto’o, Roberto Carlos (que chegou a ser treinador do extremo), Sambo, Shatov, Boussoufa ou Zhirkov. Voltou à Bélgica em 2013, assinou depois pelo Benfica em 2015, foi vendido ao Granada no ano seguinte (com um “lucro” para os encarnados de cerca de 600 mil euros) e esteve agora cedido de novo ao Standard Liège, trabalhando com outro técnico bem conhecido do público português: Ricardo Sá Pinto.

Carcela foi formado no Standard Liège e voltou esta época ao clube por empréstimo do Granada (YORICK JANSENS/AFP/Getty Images)

“Gostava muito de continuar a trabalhar com o Sá Pinto, é um grande treinador. É um louco como eu, por isso foi uma boa época. Foi como um pai para mim, a falar comigo todos os dias. Adora futebol, é capaz de dar a sua vida pelo futebol”, atira de sorriso rasgado antes de reforçar os elogios: “Ouvi que esteve perto de ir para o Sporting, pelo menos falou-se nisso. Acho que teria feito um bom trabalho no Sporting, assim como faria no Benfica ou noutro”, destaca. “O Standard Liège foi a melhor equipa no playoff devido ao trabalho que ele fez, porque não estávamos bem e acabámos a época quase a sermos campeões, remata.

Também do Benfica, palavras boas. Que continuam, porque dois anos depois de ter saído da Luz ainda vai recebendo mensagens de adeptos encarnados através das redes sociais. “Foi uma experiência muito bonita que tive e adorava ainda lá estar porque gostei muito de jogar no Benfica. Voltar a Portugal? Foi bom estar no Benfica, agora passei pelo Standard Liège e claro que sim, mas no futebol nunca se sabe o futuro”, salienta.

Carcela esteve uma época no Benfica, em 2015/16, ganhando Campeonato e Taça da Liga (PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Sobre o Mundial, elogios apesar da eliminação precoce de Marrocos na fase de grupos, após duas derrotas pela margem mínima com Irão e Portugal. “Fizemos um grande jogo com Portugal, mostrámos que somos uma equipa forte mas acabámos por ter muita sorte e o árbitro também não esteve do nosso lado. Num Campeonato do Mundo os pequenos detalhes fazem a diferença, podem causar a derrota, mas Portugal também fez o seu trabalho”, diz, antes de confirmar que Amrabat, também no balneário, partilhou a história de que o árbitro americano Mark Geiger teria pedido a camisola a Pepe antes do início do encontro: “Ele também me disse isso no balneário, talvez tenha ouvido alguma coisa mas não sei nada sobre isso”.

E no final, a “bomba” de Amrabat: “O árbitro falou com o Pepe antes do jogo para lhe pedir a camisola”