“É um processo estúpido, basicamente, o facto de termos de fazer isto. Mas temos de o fazer. (…) Também podemos ser estúpidos. Também temos de ser assim tão estúpidos”. Foi assim que Jean-Claude Juncker defendeu a retaliação europeia às taxas aduaneiras impostas por Donald Trump às importações de aço e alumínio. Os primeiros ataques do que pode vir a ser uma guerra comercial estão a deixar o mundo preocupado. Em Sintra, os quatro banqueiros centrais responsáveis pela política monetária das quatro economias que produzem quase metade da riqueza mundial avisaram que todos perdem a guerra que Trump diz ser fácil de ganhar.

Uma vez por ano, há cinco anos, o Banco Central Europeu chama a Sintra os banqueiros centrais da zona euro, convida os principais banqueiros centrais do mundo, os economistas, analistas e jornalistas que acompanham o BCE, para três dias a debater um tema que consideram atual e importante, mas não a atualidade.

A versão europeia do encontro promovido pela Reserva Federal em Jackson Hole, no Wyoming, costuma ter tempo para relaxar, golfe e o sol de Portugal, mas este ano as nuvens negras voltaram a ensombrar o encontro.

O tiro de partida foi dado logo na primeira noite, durante o jantar de boas-vindas, por um dos mais conceituados economistas norte-americanos da atualidade, o ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton e principal economista de Barack Obama. Larry Summers avisou que as economias desenvolvidas não estavam preparadas para uma nova crise e que se isso voltasse a acontecer, não só a capacidade de resposta estaria severamente limitada, como esta iria dar ainda mais força ao populismo, ao protecionismo e ao nacionalismo económico.

Durante dois dias, os banqueiros centrais e os seus convidados não levantaram o tema. Até que no final do último painel do último dia, a questão mudou, e as nuvens negras voltaram a pairar sobre Sintra.

“Para aqueles que estão familiarizados com este painel, a tarefa, o difícil desafio deles, é dizer alguma coisa que seja razoavelmente interessante para todos vocês (na assistência), mas que não seja nada interessante para quem está no exterior”. Foi assim que a moderadora, Stephanie Flanders, da Bloomberg, anunciou o painel de luxo que tinha a seu lado: Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Haruhiko Kuroda, governador do Banco do Japão, e Philip Lowe, governador do banco central da Austrália. Um grupo de quatro dos mais poderosos homens do mundo, nenhum deles eleito, que controlam a política monetária de quatro economias que produzem quase metade da riqueza económica do mundo a cada ano (de acordo com os dados do Banco Mundial).

Haruhiko Kuroda, Philip Lowel, Jerome Powell e Mario Draghi no painel que encerrou o Fórum do BCE em Sintra.

Depois de todos terem lido o seu discurso preparado sobre as decisões tomadas e as previsões para as suas economias – com exceção do governador do banco central australiano – a questão do protecionismo surgiu e todos ficaram de acordo. Ninguém ganha, todos perdem.

“Há lições que podemos aprender do passado e são todas muito negativas. Não é fácil, e ainda não chegou a altura, de sabermos qual é a consequência que isto pode ter para a política monetária, mas não temos razões, nenhuma base, para estarmos otimistas”, disse Mario Draghi.

O responsável máximo pela política monetária dos 19 países que partilham o euro disse ainda que, provavelmente mais importante que o efeito direto das medidas que estão a ser tomadas de parte a parte, na sua essência, a criação ou aumentos de tarifas aduaneiras sobre a importação de produtos específicos como o aço ou o alumínio, é o efeito que estas decisões podem ter na confiança, nas decisões de investimento das empresas, nas exportações e na confiança dos consumidores.

Apesar de ainda ser cedo para saber o impacto que estas vão ter nas atuais previsões para as respetivas economias, e com as devidas cautelas de quem foi escolhido por Donald Trump e quer manter algum afastamento das decisões do governo do seu país, Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, admitiu que a preocupação é grande e está a crescer.

“Claro que não vou comentar individualmente qualquer política comercial, mas em princípio as mudanças na política comercial podem levar-nos a questionar as nossas previsões. Temos um vasto leque de contactos com o mundo empresarial nos Estados Unidos e à volta do mundo, e, à medida que temos vindo a falar com eles, têm demonstrado uma preocupação continuada e crescente sobre os desenvolvimentos em termos comerciais. A preocupação parece estar a crescer. Pela primeira vez ouvimos falar de decisões de adiar investimentos, de adiar contratações e de adiar outras decisões de negócio. Isto é novo”, disse, naquela que foi a sua primeira visita a Portugal enquanto líder da Reserva Federal.

Do lado do Japão, um país cujo líder, Shinzo Abe, até tem mantido uma boa relação com Donald Trump, e que tem até agora ficado de fora, pelo menos diretamente, da mira do presidente norte-americano, as expetativas não são muito melhores.

“O impacto indireto na economia japonesa pode ser muito significativo. Se esta escalada [nas decisões de impôr] taxas aduaneiras pelos Estados Unidos e a China continuar, e se forem de facto implementadas, irá afetar significativamente a cadeia de distribuição no sul da Ásia. China, Coreia, Japão, Taiwan. Espero sinceramente que esta escalada termine e que não haja mais retaliação. É uma questão de grande preocupação para o Japão”, afirmou o governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda.

Philip Lowe, governador do banco central da Austrália, mais à vontade que os demais, foi mais longe nas palavras.

“O que está a acontecer é profundamente inquietante. Algum de nós consegue lembrar-se de um país que enriqueceu e aumentou a sua produtividade construindo muros? Provavelmente não”, disse.

O australiano explicou que não está à espera que a imposição de taxas aduaneiras faça descarrilar o crescimento mundial, mas especulou sobre como se pode chegar lá: uma mistura do receio dos mercados financeiros (até agora relativamente à margem) e do adiamento de decisões de investimento.

“O outro mecanismo são as empresas, onde a opção por esperar valorizou-se bastante, por adiarem decisões. Está a acontecer no Canadá, está a acontecer no México, está a acontecer nos Estados Unidos, provavelmente está a acontecer na China, e no resto da Ásia. Não seria necessário assim tanto para que os mercados financeiros, em conjunto com as empresas, adiem decisões de investimento, e assim transformem tudo isto num evento à escala global. A probabilidade ainda é muito baixa, mas estou muito preocupado”, admitiu o australiano.

Mas já estamos numa guerra comercial?

Depois de muita retórica inflamada, em especial do lado de Donald Trump, foram dados os tiros de partida para um conflito e a tensão tem vindo a aumentado.

Desde abril do ano passado que Donald Trump pediu à sua administração para abrir uma investigação para saber se as importações de alumínio e aço colocavam em causa a segurança nacional dos Estados Unidos ao abrigo de uma norma – raramente usada – de uma lei norte-americana de 1962.

Desde então abriu quatro frentes de batalha. A primeira é a que considera que as importações de alumínio e aço colocam em causa a segurança nacional, um argumento desmontado por vários economistas e organizações, até porque apenas 6% destes produtos são oriundos da China. O resto é proveniente de aliados como a União Europeia, o Canadá, o México e a Coreia do Sul. Depois de meses de adiamento, a Coreia do Sul foi a única que ficou completamente isenta, mas sujeita a uma quota. Os restantes foram alvo de uma taxa aduaneira de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio.

A segunda frente foi a de considerar que a importação de painéis solares e máquinas de lavar prejudicam as empresas norte-americanas, com Donald Trump a impor taxas aduaneiras sobre 8,5 mil milhões de dólares em importações de painéis solares e outros 1,8 mil milhões em máquinas de lavar. A resposta da China foi impor uma taxa anti-dumping sobre as importações de soja dos Estados Unidos de quase 180%. A taxa cairia em negociações diretas com os EUA, mas a Coreia do Sul avançou com uma queixa junto da Organização Mundial do Comércio.

A terceira linha de conflito foi relativamente às práticas comerciais desleais no campo da tecnologia e da propriedade intelectual. Neste campo, os economistas e analistas dão razão às queixas de Donald Trump, de que a China impõe às empresas que se estabeleçam em território chinês que tenham de o fazer em conjunto com uma empresa chinesa, e que a tecnologia utilizada passa a ser propriedade intelectual dessa empresa também. Os EUA avançaram com taxas sobre 50 mil milhões de dólares de produtos chineses, a China já retaliou com uma lista própria de produtos que são produzidos em Estados onde está o eleitorado de Donald Trump.

A quarta, e mais recente, frente é a de considerar que as importações de automóveis podem colocar em causa a segurança nacional dos Estados Unidos. Segundo uma análise do Peterson Institute for International Economics, as taxas de 25% que Trump estará a pensar impor sobre as importações de todo o tipo de automóveis e partes de automóveis levaria a que a produção nos Estados Unidos caísse 1,5% e que 195 mil trabalhadores perdessem os seus empregos nos EUA nos primeiros três anos.

Se os países afetados, quase todos aliados dos Estados Unidos, retaliassem ao mesmo nível, a produção nos EUA cairia 4% e cerca de 624 mil trabalhadores perderiam os seus empregos.

Ainda assim, apesar das quatro frentes, esta ainda não será propriamente uma guerra comercial. “Continuo a achar que uma guerra comercial em grande escala, em que o volume do comércio mundial contrai de forma substancial devido a medidas tomadas pelos governos, é ainda uma aposta muito arriscada. Mas o risco é certamente maior agora do que o era há uns meses e essa possibilidade mais rebuscada está muito mais próxima do que parecia ser o caso há uns meses. As guerras refletem ciclos de escalada e erros de cálculo, e são conduzidas por desconfiança e atores imprevisíveis. Temos, certamente, muito mais disso agora do que parecia sequer provável há uns meses”, disse Larry Summers, em entrevista ao Observador.

Talvez mais importante que o que pode vir a ser uma guerra comercial é o impacto deste tipo de decisões e as respostas que se têm sucedido.

Mario Draghi alertou para isso mesmo, num aviso pouco comum do presidente do BCE, esta quarta-feira em Sintra.

“Há um aspeto mais global desta situação que pode ser ainda mais preocupante, e essa é a vontade de tomar ações unilaterais que afeta vários países, não apenas os EUA – e sim, estamos a falar disso no contexto de taxas aduaneiras – que prejudica o enquadramento multilateral com o qual acho que todos nós crescemos. As potenciais mudanças a que isto poder vir a levar é terreno desconhecido, o que é muito preocupante”, disse.

Para Larry Summers, as decisões que Trump tem tomado e o seu impacto no papel de liderança que os Estados Unidos têm desempenhado na ordem mundial pode mesmo vir a criar um vazio de liderança, numa altura em que a China ainda não está pronta para assumir esse papel, e assim criar um mundo com vários polos de decisão. E isso, pode mesmo levar a um conflito.

“Os riscos de um conflito derivado de um desentendimento ou de um sistema multipolarizado com um vazio de liderança, são muito reais”, disse.

Do lado europeu foi anunciada esta quarta-feira que no final da semana, na sexta-feira, entram em vigor uma primeira fatia de de tarifas sobre, pelo menos, 2,8 mil milhões de euros de importações de vários produtos, desde o alumínio e o aço, a produtos agrícolas e outros – como as motas Harley Davidson, as calças Levis e o Bourbon, anunciados no início do mês por Jean-Claude Juncker. Para mais tarde fica guardada a aplicação de tarifas sobre outros 3,6 mil milhões de euros em produtos dos EUA. A explicação, dada pela comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, ilustra a posição europeia e demonstra bem como a situação está a escalar.

“Não queremos estar nesta posição. No entanto, a decisão unilateral e injustificada dos EUA de impôr taxas sobre o alumínio e o aço importado da União Europeia significa que não temos outra escolha. As regras do comércio internacional que temos desenvolvido ao longo dos anos, de mão dada com os nossos parceiros americanos, não podem ser violadas sem uma reação da nossa parte”. A guerra pode ainda não ter começado, mas os primeiros tiros já estão a atingir o alvo.