Enviado especial do Observador à Rússia (em Saransk)

Pontualidade britânica, perguntas em várias línguas, respostas em português e inglês. Quando era selecionador nacional, algures entre o primeiro e o segundo jogo da fase de grupos após o nulo a abrir o Mundial de 2010 com a Costa do Marfim (seguiu-se a goleada à Coreia do Norte por 7-0 e mais um empate sem golos com o Brasil), Carlos Queiroz reuniu os jornalistas pelo tipo de meio (televisões, rádios, jornais desportivos, jornais generalistas) para uma espécie de mini entrevista coletiva de balanço ao que se passara na África do Sul até ao momento. Deveriam ser, no máximo, dez minutos. Num dos casos, só a primeira resposta foi de quase cinco. O técnico não se poupa nas palavras quando tem uma ideia forte que quer transmitir e foi isso que aconteceu mais uma vez na conferência de antevisão do encontro entre Irão e Portugal, em Saransk.

À chegada ao Mordovia Arena, perante um calor de 30 ou mais graus, há algo que nos prende o olhar: na zona de acesso de todos os meios de comunicação, existe lá mais ao fundo, no lado contrário a um enorme complexo de habitações que nasceu à volta do recinto para puxar uma nova geração de classe média alta para estas bandas, dando uma outra vida que deixará de existir após o Mundial a este local, um bando daquilo que parecem ser corvos, pelo barulho e pela cor. Pretos-corvos, corvos-filme, filme-Hitchcock, numa equação mental muito rápida. Que venha a conferência de Queiroz, o treinador que, ainda há dois dias, dizia que nem Martin Scorsese poderia escrever um argumento tão forte em termos emocionais como o que vai enfrentar esta segunda-feira, no duelo contra o conjunto de Fernando Santos. Entre dois génios, que venha a película e escolha.

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“Gostaria primeiro de fazer uma breve declaração: é  para nós um privilégio e uma honra estar aqui, sabendo que ainda estamos vivos a lutar pelos nossos sonhos, com total esperança e compromisso para tentar uma história qualificação para a segunda fase contra Portugal, que é não só um poderoso candidato mas também um dos favoritos. Dizendo isto, estamos prontos para competir com total dignidade sabendo que aprendemos as nossas lições com Marrocos e com a Espanha. Queria também aproveitar para mostrar a nossa gratidão com os apoiantes russos, que nos dois primeiros jogos fizeram com que jogássemos em casa, juntamente com os nossos adeptos. Têm sido muito bondosos e gentis connosco, por isso queremos mostrar também a gratidão que temos por eles, pelo que têm feito”, começou por destacar numa conferência onde marcou também presença o médio Masoud Shojaei, numa clara tentativa de voltar a chamar o público local, que estará em larga maioria, para o lado do outsider num jogo que terá poucos portugueses.

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Depois, a primeira grande declaração. Que iremos partir em várias frases mas que foi longa, longa, longa. Grande pela força da mensagem, grande pelo tamanho que demorou a ser explicada. Assunto? Que Irão vai aparecer diante da Seleção Nacional, assente naquilo que o técnico português de 68 anos resume à filosofia dos três “erres” e após um jogo com a Espanha onde, como disse, o objetivo passava por deixar o cão andar a brincar na bola desde que não entrasse no seu jardim, nesta caso a área.

“Vai ser um jogo mais difícil, o Fernando [Santos] vem com uns bichos mais fortes que podem morder a qualquer momento… Só podemos esperar um Irão a jogar melhor, com uma ideia que tem de ser sempre a mesma, assente em três ‘erres’ sobre os quais construímos a nossa filosofia de jogo: o respeito que devemos ter sempre pelo adversário, o que é muito importante; o realismo, porque estamos a jogar perante uma das equipas mais fortes do mundo neste momento; e o romantismo, porque temos de basear o nosso jogo nos valores fundamentais de uma equipa como o espírito de sacrifício, a bravura, o trabalho, a lealdade, a honestidade, a integridade. O nosso grande líder tem de ser a equipa e só temos uma alternativa: tentarmos sermos melhores em todos os detalhes. Não estamos aqui para sermos perdedores simpáticos e agradáveis aos outros, temos a obrigação de competir com dignidade para trazer felicidade e orgulho aos iranianos”, explicou.

Irão treinou esta tarde na Mordovia Arena, em Saransk, onde defronta amanhã o Irão (FILIPPO MONTEFORTE/AFP/Getty Images)

“Portugal não é só um candidato, que é uma expressão que elogia o trabalho feito nos últimos anos. Está aqui com 23 jogadores mas se falarmos da outra equipa que fica de fora temos Nani e Éder, que foi o herói do Europeu de 2016; dois jogadores do Barcelona, Nélson Semedo e André Gomes; o João Cancelo, do Inter; o Rolando; o Rony Lopes que, se não contarmos com os penalties, foi dos melhores marcadores em França. Quantas seleções se podem permitir a isso? Além disso, é uma equipa fortíssima e muito bem orientada”, acrescentou sobre um técnico que orientou no Estoril como jogador, Fernando Santos.

Depois, e na sequência que só quem tinha tradução conseguiu perceber, o tema passou para as arbitragens e para o VAR. E foi a partir daí que se falou de coisas como as ondas da Nazaré e os grupos de intelectuais que… intelectualizam o futebol.

“Toda a gente pode falar dos árbitros menos os treinadores, é engraçado… Lá na minha terra, há uma zona que é a Nazaré onde temos o recorde das maiores ondas do mundo. Quando falamos dos árbitros é assim, parece que nos cai essa onda na cabeça. Digo isto em nome do futebol: o futebol pertence às pessoas, é o jogo do povo e trata-se de algo fundamental o grupo de intelectuais que intelectualiza o jogo perceba o que está a fazer. O jogo tem de ser claro, óbvio. Erra é humano e o VAR não nasceu para cortar os erros mas sim corrigi-los. Agora, não é normal inventar um sistema e continuarmos com as mesmas desculpas que tínhamos antes do VAR. Reparem que se tivermos um problema físico com um jogador, uma concussão, temos logo uma reunião com a FIFA; se tivermos um problema de segurança, temos logo uma reunião com a FIFA; se temos algo com os árbitros, dizem que é para escrever à FIFA. As pessoas precisam perceber as regras do jogo. É a minha opinião humilde, agora espero que não venha outra a vez a onda para cima de mim. Se aparecer, tento nadar e safar-me”, respondeu.

Carlos Queiroz voltou a falar sobre o VAR, esperando que não lhe caia em cima uma onda da Nazaré (FILIPPO MONTEFORTE/AFP/Getty Images)

Voltando a colocar a pressão em cima de Portugal, “porque são eles que podem ter tudo a perder e nós só temos a ganhar”, Carlos Queiroz falou ainda do dia especial que irá viver na Mordovia Arena: “O mundo vai saber que estão duas equipas de verde e encarnado, uns mais de verde e outros mais de encarnado. Mas como se costuma dizer em Portugal, e numa expressão minha, ‘amigos, amigos, futeboladas à parte’. Cada um vai tentar fazer o melhor, é como nas peladas que fazemos ao domingo. Cada um vai tentar ganhar, por lealdade aos adeptos e por respeito ao futebol”.