A caminhada de Marcelo Rebelo de Sousa no mundo do futebol começou muito antes dos comentários que tem feito sobre a seleção nacional neste Campeonato do Mundo. Há sete anos, o então professor catedrático de Direito e comentador televisivo na TVI aceitou analisar o futuro do Sporting Clube de Braga, de quem é um adepto ferrenho, antes da partida frente ao Sporting para a Taça de Portugal.

Agora que Marcelo abandonou a cadeira da TVI e despediu-se da vida catedrática para ocupar a cadeirão de Belém, o bichinho do comentário e o amor pelo futebol não esmoreceram entre os seus afetos. O Presidente não tem resistido a comentar as táticas futebolísticas impostas em campo por Fernando Santos, a adjetivar a prestação portuguesa na Rússia ou a utilizar o bom nome de Cristiano Ronaldo para quebrar o gelo nos encontros com Vladimir Putin ou Donald Trump. À semelhança do que fez com o Braga, Marcelo, o comentador desportivo, pede sobretudo que Portugal jogue para ganhar. Para ele importa mesmo “se jogamos bem o mal”.

Marcelo, o comentador desportivo, nasceu a 29 de janeiro de 2011 quando pediu ao Sporting Clube de Braga que a equipa “jogasse para ganhar” e que, já que “sonhar é humano”, se mantivesse firme tanto no campeonato nacional como na Liga Europa e na Taça de Portugal. Mas só voltou ao seu papel de treinador de bancada a 6 de junho quando recebeu a comitiva nacional num jantar no Museu dos Coches em vésperas de Mundial:

Não mudo de ideias. Vou dizer o que disse há dois anos aqui em Belém e daqui a dois anos direi o mesmo. Vou dizer uma evidência: vós sois os melhores dos melhores. Há dois anos provou-se que éramos os melhores da Europa. O título é vosso, nosso, dos portugueses. No meio de vós está o melhor do mundo, mas todos sois dos melhores do mundo. É essa a realidade. Não peço para trazerem a taça, peço algo mais difícil: que sejam o que são. Se forem o que são, são os melhores dos melhores. Os portugueses serão o que são, apoiantes, admiradores e solidários convosco”.

Marcelo Rebelo de Sousa ao lado de Ferro Rodrigues e de Fernando Santos ao lado dos jogadores portugueses. Créditos: Getty Images.

Cristiano Ronaldo está mesmo no meio de nós e Marcelo, o comentador desportivo, insistiu em glorificá-lo a 15 de junho após a partida de Portugal contra Espanha:

Eu tinha dito que achava… desejava que Portugal ganhasse e achava que era possível o empate. Mas faz uma grande diferença ter o melhor do mundo. O Ronaldo fez três vezes o melhor jogo de todos. Neste momento é a recuperação e para o moral da equipa é muito importante porque estar a perder depois de ter estado a ganhar duas vezes e dar à volta dá uma grande confiança”.

Questionado sobre se o capitão da seleção levou a equipa às costas, Marcelo respondeu que nim:

A equipa também jogou o melhor que podia e a Espanha joga muito, muito, muito e há jogadores ali que jogam há anos na mesma equipa, quer espanhola quer clubística. Era uma das três melhores equipas do mundo, a Espanha. Jogámos bem, tivemos a meu ver sorte no segundo golo e azar no terceiro golo espanhol. Fomos apanhados em contrapé mas ter o melhor do mundo fez a diferença. Ele conseguiu um milagre muito motivador para o resto da equipa”.

Esse foi o comentário do Presidente da República no final do Portugal-Espanha, que Marcelo viu, aos pulos e aos gritos com o cachecol aos ombros, a partir do Terreiro do Paço em Lisboa. Admitiu que sofreu “um bocadinho, sobretudo nos últimos 18 minutos, 20 minutos, antes do golo do Ronaldo”. “Mas olhe, é assim”, disse Marcelo numa espécie de encolher de ombros resignado: “Deus escreve direito por linhas tortas. E neste caso nem foi por linhas tortas, foi com o melhor do mundo. Já deu sorte estarmos todos aqui no Terreiro do Paço, permitiu este empate miraculoso”. Mas Marcelo, o comentador desportivo, não aprecia especialmente as sortes e os milagres, deixa-os para o crente Fernando Santos. Por isso, de malas feitas para ir à Rússia, o Presidente admitiu ter um recado para a equipa:

Quando chegar lá eu vou dizer que, tendo empatado com a Espanha, que é uma das grandes equipas, temos todas as condições para poder ir até ao fim. Todas as condições. Se jogarmos um pouco acima daquilo que jogámos e com o Ronaldo a jogar tão bem como está a jogar podemos ir, por ventura, até onde não imaginaríamos”.

Marcelo Rebelo de Sousa celebra um golo de Portugal contra Espanha ao lado de Fernando Medina. Créditos: Global Imagens.

Chegado à Rússia a 20 de junho, Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido pelo presidente Vladimir Putin, com quem falou sobre futebol para quebrar o gelo: “Todo o mundo segue com muito interesse e até paixão este campeonato do mundo de futebol. Nós, portugueses, somos particularmente apaixonados. Gostamos de futebol e estamos a acompanhar intensamente o campeonato aqui na Federação Russa. É verdade que nós temos Cristiano Ronaldo, mas a Rússia está a jogar bem e está a jogar em casa. Portanto, espero que isso depois não crie problemas diplomáticos entre nós, qualquer que seja o resultado do desafio”.

Essa estratégia havia de ser repetida por Marcelo, o comentador desportivo, oito dias depois no encontro com Donald Trumo na Casa Branca:

Já que falou de futebol, deixe-me então perguntar-lhe algo. Não se esqueça que Portugal tem o melhor jogador do mundo, chamado Cristiano Ronaldo. Tenho a certeza que o seu filho o conhece. E, por isso, não se esqueça, se chegar a ir à Rússia durante o Mundial lembre-se que Portugal continua lá e que quer ganhar. Estão a jogar muitíssimo bem. Estou muito impressionado. É o melhor do mundo, o Cristiano Ronaldo. Por isso, de certo modo, acho que foi um êxito, o Mundial. É indubitável”.

Mas ao contrário de Putin, que se limitou a sorrir à graçola diplomática do Presidente português, Trump decidiu alinhar na brincadeira de Marcelo. E as faíscas entre os dois presidentes acenderam-se.

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Mas voltemos às aventuras de Marcelo, o comentador desportivo, na Rússia. O Presidente da República tinha ido até lá para assistir ao Portugal-Marrocos a partir das bancadas. O problema é que não gostou muito do que viu: “A vitória foi uma grande alegria depois de um grande sofrimento. Todos os jogos vão ser muito difíceis e eu disse isso no balneário à equipa portuguesa. Dei-lhes muita força e muita confiança, mas têm de entrar para ganhar mesmo que baste o empate com o Irão”, disse ele à saída da Ópera Bolshoi depois de ter visto “La Traviata” com António Guterres.

Só no dia seguinte voltou a ser menos ríspido para os jogadores. Abordado por jornalistas da RT em Moscovo, Marcelo, o comentador desportivo, deu umas luzes sobre o que achava:

Cristiano Ronaldo é único. É um símbolo internacional de Portugal e é único para nós portugueses. A seleção de Marrocos jogou muito bem, muito rápido e com vigor. Os jogadores estavam em muito boa forma física, por isso foi difícil para Portugal jogar contra eles. Mas o Ronaldo marcou, o guarda-redes Patrício jogou muito bem e ajudou em situações difíceis. Podemos dizer que não há equipas fáceis no Campeonato do Mundo e que todas as equipas são muito boas”.

E até fez uma antevisão do Irão-Portugal:

Já falei com os jogadores. Disse-lhes que o jogo contra o Irão vai ser ainda mais difícil porque eles já têm três pontos e que eles jogaram muito bem contra Espanha. E têm um selecionador muito bom, por isso Portugal precisa de ter mais força para ganhar. Não podemos jogar para o empate, apesar de um empate não ser mau de todo”.

Marcelo assiste ao Portugal-Marrocos com Fernando Gomes e António Guterres. Créditos: Global Imagens.

Resignado aos empates, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a Portugal e decidiu ver o último jogo da seleção na fase de grupos a partir do Palácio de Belém (por causa do trânsito, porque na verdade tinha prometido aos netos ir ver a casa).Portugal voltou a empatar, muito contra o que queria o Presidente da República, mas para ele desta vez chegou para lhe aliviar o sofrimento:

Vamos ter o Uruguai, eu lá estarei. Estamos felizes porque Portugal conseguiu o mais importante, passou, jogou melhor do que, nomeadamente, no último jogo. Como estava habituado, no outro jogo sofri 70 e tal minutos, vou preparado para no próximo sofrer 70 ou 90 minutos. Um Presidente da República também é eleito para sofrer. Sou Presidente de todos os portugueses, até do treinador que estava como adversário”, disse ele à porta do Palácio.

Marcelo, o comentador desportivo, que até agora tinha torcido o nariz ao modo de jogar português, parecia mais satisfeito desta vez:

Jogámos bem. Há que dizer isso, porque é justo. No último jogo eu tinha dito que tínhamos jogado o que tínhamos podido e que jogámos para passar, mas agora jogámos bem. Ali no final ainda deu para o empate, mas passámos que é o importante. Concordo com o primeiro-ministro, ele há bocadinho à entrada dizia que também no Euro fomos tendo muitos problemas pelo meio e acabámos por ganhar. A Espanha que é a Espanha, que está a jogar muito, ia perdendo com Marrocos”.

No próximo jogo de Portugal, que acontece já no sábado contra o perigoso Uruguai, o Presidente da República vai assistir à partida em Sochi, na Rússia.