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Uma coisa é certa: “Faz Gostoso”, o recente êxito de Blaya, foi a música mais ouvida nesta edição do Rock in Rio. Como? Onde? Porquê? Sem motivo aparente, em tudo o que é quiosque, banca de venda ambulante, barraquinha de distribuição de brindes, área social reservada a convites xpto. Ao fim do quarto e último dia de festival, era difícil encontrar uma alma na Bela Vista que não conseguisse cantar, pelo menos, o refrão. O hit bateu (calculamos que vá bater até ao fim do verão) e abriu caminho para o concerto da artista, em tempos integrante dos Buraka Som Sistema. O espetáculo estava inicialmente marcado para as 17h, mas acabou por ser adiado (por causa da bola, claro) para as 21h15, hora a que Jessie J subiu ao palco principal.

Foi precisamente no extremo oposto da “cidade do rock” que Karla Rodrigues, a kudurista que se fez funkeira, subiu ao palco do Music Valley. E Blaya não guardou o seu maior trunfo para depois. “Faz Gostoso” veio logo no início do concerto e funcionou como chamariz para atrair os festivaleiros para o dito vale. Funcionou. A plateia estava composta, o resto do alinhamento é que não segurou o público como devia. A setlist foi uma mistura de temas ainda por editar (hão-de vir no álbum que vem por aí) e canções que lançou desde que começou uma carreira a solo, sendo que o único registo discográfico, o EP Superfresh, é de 2013. Foi fácil distingui-los — os mais antigos são cantados em português de  Portugal e são marcados por uma batida predominantemente R&B.

A nova fase de Blaya soa muito diferente, contagiada pelo funk que — é oficial — galgou as fronteiras do Brasil e veio com tudo. Não esquecer que a artista nasceu em Fortaleza, por isso, tem de haver ali qualquer coisa a correr-lhe no sangue. “O meu concerto tinha de ter mulheres no palco a abanar a bunda”, referiu, ainda o espetáculo não ia a meio. Dito e feito. Cerca de dez mulheres escolhidas de entre a multidão subiram ao palco, com a cantora a assumir o papel de instrutora de fitness. “Treina, treina, treina. Já estão cansadas? ‘Bora mexer isso”, gritou. As convidadas rebolaram dentro do que lhes era possível. Afinal, é difícil atingir o nível da anfitriã, cujo jogo de anca, coxas e nádegas chega mesmo a pôr as coreografias de Anitta, que atuou no passado domingo, a um canto. De repente, até nos lembrámos que Blaya chegou a dar (ainda dá?) aulas ao domicílio para pequenos grupos de interessados/curiosos.

Dançar, dançar, dançar. Blaya nunca enganou ninguém. Toda a gente sempre soube que essa aptidão suplanta — e muito — os seus atributos vocais. Nunca foi problema, não seria agora que lhe iam torcer o nariz por isso. E é por isso que, sem hesitar, põe o microfone de lado para se aplicar (e bem) nas coreografias alucinantes com os seus seis bailarinos. Valeu-lhe a sua própria voz pré-gravada para ocupar os momentos de pura dança. Tudo bem. Assim como assim, o público vibrou muito mais com essas partes do que com aquelas em que a voz da artista soou realmente ao vivo. Sucessos do momento como “Só Quer Vrau”, “Que Tiro Foi Esse” e “Mi Gente”, de J Balvin foram os reforços musicais metidos no meio do alinhamento.

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“Onde é que há uma bicha louca aqui?”

“Coloca a mão no ar quem tem um amigo gay!”, atirou Blaya de um momento para o outro. Não foi retórico, mas também não deixava antever o que vinha a caminho. Numa música das novas, a cantora contou a história daquela noite em que o engate até aprecia estar bem encaminhado até  que percebeu que o “gato” estava era de olho no amigo Diogo. Depois da canção,  explicou que, afinal, o que aconteceu na pista de dança também  acontece no ginásio e na praia. O problema é que ninguém conseguiu perceber a onde é que Karla Rodrigues quer chegar (se é que queria chegar a algum lado).

De repente, subiu o tom e começou a reclamar mais uma presença em palco. “Onde é que há uma bicha louca aqui?”, perguntou. Insistiu e, alguns segundos depois, Blaya tinha a sua “bicha louca” (o que quer que isso seja) em cima do palco, vinda do meio da plateia. O rapaz foi desafiado a dançar ao som do refrão (pensamos que improvisado) “Vai bicha louca, com o dedinho na boca”. O público deu umas gargalhadas.

Não é líquido que Blaya se tenha depois apercebido do circo que montou, embora tenha posto um ponto final ao momento com algumas considerações sobre “não ter vergonha” de se ser como se é. Foi reconfortante (toda a margem do mundo para ironia). Em suma, uma mancha num concerto que até estava todo montado em boa onda.

Saíram mais temas — recados para as inimigas e relações que acabaram menos bem, resumindo a coisa. “Vamos relembrar os Buraka Som Sistema?”, gritou ao microfone. A partir daí, foram minutos frenéticos. Do repertório do coletivo musical, Blaya interpretou “Hangover”, “(We Stay) Up All Night” e “STOOPID”. O público esteve à altura e, tal como quem estava em cima do palco, dançou como se não houvesse amanhã. A seguir, a cantora pôs água na fervura ao anunciar uma balada: “É sobre a minha bebé, por isso é dedicada a todas as mães e a todos os pais”, justificou. Houve quem desistisse do concerto mas a artista reconheceu o esforço dos que ficaram, dizendo: “Espero que tenham gostado deste momento fofinha, que eu raramente tenho”.

A atuação não terminou sem que Blaya anunciasse o lançamento de novas músicas, todas elas faixas do concerto de uma hora no Rock in Rio. O hit do início serviu para fechar em chave de ouro a atuação no Music Valley. À segunda, levou o microfone até ao público para que fosse este a dar voz ao refrão de “Faz Gostoso”. Será que já alguém reparou que a letra é uma espécie de versão feminina da canção “Amiga da Minha Mulher”, de Seu Jorge?