Poucos recordam esse momento, mas esse poderia ter ficado como “o” momento: em outubro de 2002, Gianni Di Marco, então observador da Juventus, fez mais uma viagem para Lisboa com o intuito de avaliar Ricardo Quaresma, miúdo que tinha sido lançado por Laszlo Bölöni na temporada anterior com apenas 17 anos. No entanto, quem se destacou foi mesmo outro jovem que dava os primeiros passos no conjunto principal do Sporting — Cristiano Ronaldo. “Liguei para Turim e pus por escrito que seria o melhor jogador do mundo, obviamente depois do Maradona”, contou o então responsável numa entrevista à agência EFE. A Vecchia Signora avançou então para o avançado mas os leões quiseram colocar no acordo, além da parte financeira, um jogador que pudesse render um Mário Jardel em queda livre. O chileno Marcelo Salas recusou, o negócio caiu. 15 anos depois, esse namoro que teve como ponto alto o último encontro do Real Madrid em Turim pode dar casamento.

Os detalhes do possível negócio e de muitos outros pormenores em torno daquela que pode ser uma das grandes bombas do mercado (porque convém não esquecer que, se o português sair mesmo do Real Madrid, os merengues deverão atacar Neymar e/ou Mbappé) continuam a sair em vários órgãos internacionais, com um dado que fará toda a diferença e que depende apenas do jogador: os espanhóis querem que o avançado mostre vontade de sair do clube, os italianos aguardam que o avançado dê o sinal de que quer mesmo mudar de clube. Com isso resolvido, dinheiro não será problema, como explicam o El País e o El Español, que acrescentam ainda que Lopetegui, o novo treinador, gostava de contar com o avançado.

De acordo com a Marca, Ronaldo já tinha decidido há algum tempo que este seria o seu último ano em Madrid. “Na minha cabeça não dá mais, sinto-me desprotegido”, terá confidenciado, a propósito dos assobios que ouvia e das notícias sobre os supostos sucessores se estivesse um mês sem marcar, por exemplo. Nesse contexto, acabou por “explodir” em termos públicos a 26 de maio, após o terceiro consecutivo na Liga dos Campeões. Os responsáveis do clube acharam que seria apenas mais uma reação a quente do jogador, mas com o tempo perceberam que poderia ser mais do que isso. Bem mais, aliás.

Mas os motivos para esse esfriar da relação não se ficam por aí: com o passar dos anos, e que foram nove, o capitão da Seleção Nacional foi percebendo que os dirigentes do Real estariam mais preocupados com a escolha de um sucessor para antecipar a sua queda desportiva do que propriamente em garantir as condições para que continuasse com o habitual rendimento. E o que se via? Mais triunfos na Champions, mais conquistas da Bola de Ouro. Em termos práticos, um desses indicadores foi a chamada que Florentino Pérez fez após o bis na final da Liga dos Campeões com a Juventus em 2017, em que terá sido prometida uma revisão de contrato. Com o passar dos meses, tudo ficou na mesma. Em dezembro, quando foi considerado pela quinta vez o melhor jogador do mundo, aquilo que lhe ficou foi a frase do presidente dos merengues para Neymar: “Se queres ganhar a Bola de Ouro, vem para Madrid”. Em paralelo, continuava a luta entre Ronaldo e o Fisco espanhol, sendo que, ao contrário de Messi, que renovou contrato com o Barcelona e incluiu essa “batalha” no novo vínculo, sentia-se abandonado pelo clube.

Uma semana antes do início do Campeonato do Mundo, Florentino Pérez, tentou encetar a prometida revisão de contrato. No entanto, a vontade de Cristiano Ronaldo já estava mais consolidada do que nunca: queria sair a abraçar um novo projeto.

A Marca acrescenta ainda mais um dado que comprova essa vontade: o português estará há duas semanas à procura de casa em Turim, preparando ao pormenor a mudança para Itália que terá partido do próprio jogador. Segundo o canal Premium Sport, foi Cristiano Ronaldo e o seu agente, Jorge Mendes, que assumiram essa vontade de mudança para a Serie A num encontro mantido ainda antes do Campeonato do Mundo com Fabio Paratici, diretor desportivo da Juventus, equipa que continua a dar tudo para ganhar a Liga dos Campeões, após nova eliminação aos pés do Real… e de Ronaldo.

A mudança, essa, a acontecer, já tem valores conhecidos: o Real Madrid receberia 100 milhões de euros pelo passe do jogador de 33 anos e o melhor do mundo passaria a auferir 30 milhões de euros limpos por temporada num contrato de quatro anos. Para esse encargo total de 340 milhões com toda esta mega operação que passou de impossível a provável (compra do passe, ordenado e pagamento de impostos, que equivalem a cerca de 50% do montante líquido), a Juventus conta também com o apoio da Fiat Chrysler Automobiles, proprietária do clube através da família Agnelli. Há outro dado paralelo que poderá ter influência: de acordo com o El Español, a Adidas, marca que passará a patrocinar a Vecchia Signora após 11 anos de Nike, estaria também disposta a perder a cabeça para ficar com o patrocínio do melhor do mundo.