E de repente, mais propriamente no último segundo do Japão-Bélgica e no último penalty do Colômbia-Inglaterra, ficou tudo muito chato, muito simples, muito óbvio: vai dar Brasil, claro, apesar de França vai dar Brasil e, sendo a FIFA uma senhora leve e imaginativa como um relatório e contas de uma empresa de armamento nuclear, Neymar será considerado o melhor jogador do torneio para horror de todas as pessoas que não lidam bem nem com maus penteados nem com crianças histéricas – e isto apesar de Coutinho ser o melhor jogador do Brasil até ao momento. No final do ano levará a Bola de Ouro e daremos oficialmente encerrada a década Ronaldo vs Messi, o que, no meio de toda esta desgraça, até não é má notícia para pessoas que, tal como eu, se aborrecem com facilidade.

Mas isto nem é o mais grave – o que realmente entristece numa competição que, até agora, estava a ter altos índices de surpresa, golos disparatados e ruir de mitos, é: quem é que o adepto que aprecia emoções fortes deve apoiar agora que seleções que apelam ao nosso coração foram recambiadas?

Se forem como eu (e o mais certo é tentarem e não conseguirem, mas não vale a pena sofrer por causa disso) apreciam este desporto ao ponto de serem capazes de verem um jogo do campeonato do Equador às três da manhã (estou a partir do princípio que a vossa vida íntima seja tão fascinante quanto a minha), sendo que a dado momento começarão a torcer por uma daquelas equipas – ou porque um médio recebeu a bola com graciosidade, ou porque há um bad boy que vos faz rir, ou porque a diferença de forças é tão desequilibrada que apela ao vosso lado socialista, uma expressão que, aposto, nunca esperaram ler neste jornal. Literalmente, qualquer coisa serve para tomarmos partido numa partida de futebol – e é assim que se vê bola: irracionalmente e tomando as dores de um dos lados, que isto não é ballet e é o risco de perder que dá ao futebol (mesmo aquele que é jogado entre equipas que nada nos dizem) muito mais graça que um concurso de talentos.

Um médio que recebe a bola com graciosidade, um bad boy que merece o nosso amor, desequilíbrio de forças: essas são algumas das razões clássicas para apoiarmos um clube, uma seleção que não é nossa. O futebol serve para projectarmos as nossas contradições morais num simples jogo de vinte e dois homens, o dobro de rótulas e cerca de uma centena de pitons prontos a parti-las.

Posso falar do Japão outra vez? Tirando uma paixão assolapada por filmes do Naruse, não sei nada do Japão e apostaria não ter visto mais que dez jogos da seleção antes deste Mundial – mas depois aconteceu o encontro com a Bélgica e, além da desproporção de forças, houve Kagawa e o número 7, Shibasaki, tudo o que gostamos num médio: receção, passe, cabeça levantada, receio algum de sofrer um encosto, noção de tempo. Obviamente que o Japão se tornou de imediato a minha equipa preferida ainda em prova.

Nem sempre se defende a equipa mais fraca – o apreço por um grande jogador pode levar-nos a defender um colosso, mas não só: durante aquela admirável campanha que levou o Leicester ao título inglês eu torci pelo tropeção do clube-anão (pela curiosa razão de ser adepto dos Spurs); mas torcer pelo grande é também uma forma de desejarmos que o mundo, precário e trágico como é, mantenha um aparentado de ordem que nos aquiete.

Há muitas razões para apoiar uma equipa/seleção em detrimento de outra: porque temos um trauma com determinado jogador, porque odiamos vermelho, para chatear o amigo/pai/irmão (amiga/mãe/irmã), porque uma relação acabou naquela cidade, porque uma vez bebemos um bom vinho ali. O que não podemos esquecer é que este jogo precisa de amores e ódios irracionais – sem isso o futebol torna-se num simples passatempo em que vinte e dois homens verificam, ordeiramente, quem tem mais talento a acertar com a bola num retângulo dispondo, para o efeito, de dois pés.

E é munidos desta informação fundamental que partimos para a complicadíssima tarefa de decidir quais seleções apoiar nos quartos-de-final e, quem sabe, até ao final da competição. E antes que façam scroll apenas por tédio e porque o chefe está em reunião (motivos respeitáveis) lembrem-se que esta não é uma escolha qualquer, mas sim a questão que subjaz a toda a paz e equilíbrio do mundo ocidental nas próximas semanas.

Uruguai – França

Um bom exemplo de como se proceder nesta tarefa de escolher quem apoiar: de um lado a vertigem de Suárez e Cavani (que não deve jogar, por lesão), do outro a mundanidade de uma data de jogadores (Pogba, Griezmann, Mbappé) habituados à maior sofisticação tática e capilar. Não há a mínima dúvida: Uruguai. Sim, Pogba, quando crescer pode vir a dominar o meio-campo, mas entretanto é apenas um gigante com péssimos penteados – aliás, fica já aqui uma das regras inabaláveis na hora de escolher equipas: nunca apoiar aquelas que possuem nas suas fileiras o maior número de jogadores que perdem demasiado tempo a pintar o cabelo.

Suárez

É verdade que foi um prazer ver Mbappé contra a Argentina e que Kanté é de uma abnegação e utilidade admiráveis, que Umtiti se tornou num belíssimo central e que Lloris é dos poucos jogadores de futebol com um corte de cabelo apresentável, mas como não amar um génio que, apesar de rico e respeitado por todos, morde adversários? Com esse simples gesto (que insiste em repetir) Suárez recorda-nos que a identidade é fortíssima e que por mais que enriqueçamos há uma valente probabilidade de nunca deixarmos de ser aquele homem sub-nutrido e assustado que veio das ruas. Mas se este argumento não for suficiente, imaginemos por um instante que os jogadores de ambas as equipas estão em casa, com a mulher e os filhos, quando de repente assaltantes tomam aquele pacato lar de assalto. Atenção: isto está a acontecer em casa de TODOS os jogadores.

Mbappé

Qual é o jogador com maior probabilidade de espetar duas cabeçadas nos assaltantes (sem recorrer nunca a uma arma) antes de voltar a grelhar a sua carne? Godin. Na dúvida devemos estar sempre contra a seleção que já foi de Platini e escolher a do jogador que poderia, facilmente, impor respeito a Clint Eastwood (quando este era novo, vá). Num mundo cada vez mais pejado de divas escolham os homens.

Croácia – Rússia

É verdade que devemos à Rússia a eliminação daquele bando de anões que, com a excepção do admirável Diego Costa, só sabem passar para o lado, e que Akinfeev é uma lenda do FM e merece todo o nosso amor; mas estamos perante um clássico da ciência de escolher, a saber: a situação em que o prazer estético de assistir a um jogador se sobrepõe a todo e qualquer afecto possível pelos restantes intervenientes. Há quem veja o Real Madrid por causa de Ronaldo – eu vejo por causa de Modric. Há quem no futebol aprecie os golos e eu idem – excepto se Modric estiver a jogar, caso em que sobretudo admiro Modric a jogar. Pela inteligência a escolher os momentos de acelerar ou de reter a bola, pelo transporte imaculado, pela capacidade de trocar múltiplos passes no meio de uma imensidão de adversários, pela calma e, acima de tudo, pela inteligência.

Modric

É possível que haja outros jogadores em campo, mas quando Modric joga eles assumem papéis muito definidos e que apenas pessoas muito sofisticadas e adultas podem compreender: os de camisola diferente são os maus; os da mesma camisola são gente simpática que, infelizmente, não têm a qualidade do nosso herói e não raro atrapalham mais que ajudam. Modric é um David que, não possuindo as mesmas qualidades atléticas dos demais, desenvolveu as suas capacidades técnicas e tácticas ao ponto de parecer jogar sempre de roupão, chinelos e jornal debaixo do braço. No fundo, Modric é uma lição de moral: o seu talento ensina-nos que podemos até ser pequenos e feios mas se nos aplicarmos e tivermos bom jogo de anca podemos ser como Prince e sacar a Kim Basinger.

Akinfeev

Inglaterra — Suécia

Não há nada pior que um falso amor irracional: menciona-se Inglaterra e de imediato há alguém a enumerar: Clash, os Pistols, Dickens, Lineker, Gazza, os Monti Páitóne, assim demonstrando que a sua cultura popular é banalíssima. Claro que com facilidade podemos fazer ver que também é o país de Adele, de Margaret Thatcher (não sei se se pode dizer isto neste jornal), da uma gastronomia ofensiva e do mais patético hábito de consumo de álcool da história do mundo ocidental. Não se gosta de Inglaterra como se gosta, digamos, da Nigéria, país do qual, no fundo, nada sabemos e por cuja seleção nos apaixonamos ao vê-la jogar na TV; o amor irracional a Inglaterra não é um verdadeiro amor irracional – quem ama Inglaterra são os fãs de música pop ou leitores de Larkin – tudo razões erradas para apoiar uma seleção.

Harry Kane

E, sejamos sinceros, não há nenhuma razão para apoiar a Suécia, um país que há mais de vinte anos não tem uma contribuição decente para a indústria dos escândalos e há muito não tem pornografia decente. Que sabemos nós da Suécia? Que Ikea <<<< Paços de Ferreira. Não se apoiam seleções pela sua civilidade – o futebol, como palco óptimo da vingança social, é o lugar em que se defende as seleções de países com governos dúbios, tráfico de droga excessivo, alta taxa de mortalidade infantil, presos políticos, má saúde pública. Inglaterra e Suécia são países monárquicos, avançados tecnologicamente e que não são latinos, onde é complicado encontrar uma boa sopa de nabiças – o tipo de país que o adepto de futebol deve odiar profundamente.

Emil Forsberg

Trata-se de dois países desqualificados para a prática deste desporto nascido na Ribeira do Porto, que ainda não compreenderam que a ideia é fazer a bola correr e não os jogadores, que ainda não meteram na cabeça que o caminho mais curto para uma baliza não é uma recta mas uma sucessão de tabelinhas. Ai, mas a Premier League é maravilhosa – é, sim, porque está cheia de óptimos jogadores, que têm uma característica fundamental: a maior parte deles não são ingleses nem suecos. Que resta então? Inglaterra tem Harry Kane e Dele Ali; a Suécia não tem Ibra e curiosamente só lhe fez bem não ter Ibra. E se calhar essa é razão suficiente para apoiar a Suécia: livre do jugo de um tiranete talentoso, estes jogadores médios conseguiram elevar a sua seleção acima do valor individual de cada um. E isso também é uma linda lição de moral.

Brasil – Bélgica

Difícil, admito mesmo que muito difícil, tomar uma decisão neste caso, até porque são as duas equipas com maior qualidade individual do Mundial (apesar de a França andar perto). O Brasil tem muitos pontos a favor: Marcelo, Casemiro, um óptimo vilão que dá pau enquanto sorri e ajuda velhinhas a atravessar a rua, o admirável Coutinho (melhor jogador do campeonato), bom futebol contra o México, Giselle Bünchen. Mas também há argumentos que obstam a um apoio pleno à canarinha: eliminou o magnífico México do lindíssimo Herrera (um mestre na arte de bem receber as familiares dos amigos) e, fundamentalmente, Neymar.

Neymar

Apesar das trapistas é difícil apoiar a Bélgica que, fazendo jus à sua condição de país mais desinteressante do mundo (se não considerarmos as trapistas), só tem um vilão (Fellaini) e mesmo assim um vilão vagamente desinteressante, que não agride mais que um par de adversários por época e se distingue por pouco mais que a carapinha. Possui o central com melhor cabelo da história do jogo (Verthongen), um par de jogadores sobrenaturais que não têm brilhado por aí além (De Bruyne e Hazard), e tem no seu treinador de avançados um dos (ex)jogadores com mais classe deste lindo desporto: Thierry Henri. Mas também é treinada por um homem que não destoaria numa venda de carros em segunda mão, o seu futebol desilude face à qualidade individual e não deixa de ser o país mais aborrecido do mundo (se descontarmos as trapistas=. Para piorar o cenário nem podemos invocar razões intelectuais para estar do lado dos belgas, pelo menos desde que Hugo Klaus morreu. E aqui entra uma das regras mais antigas e respeitáveis na arte da apreciação futebolística: a irritação.

Estou a partir do princípio que, como pessoas normais, sofreis de vergonha alheia – e tereis sentido pontadas da mesma quando, por exemplo, Neymar envergou um caniche como penteado de estreia na Copa. Neymar, um acidente capilar em processo de memeficação, é um excesso que rebola: tem excesso de talento, excesso de ginga, excesso de golo, excesso de assistência, mas também um excesso de prazer sádico em humilhar o adversário, em escarnecer (com risinhos e bocas) do defensor, excesso de monstruosidade capilar, excesso de tatuagens, excesso de fita. Há algo de déspota neste excesso de fita: Neymar sabe bem que as suas diatribes de mão no rosto fingindo dor são filmadas por dezenas de câmaras e milhares de smartphones e mesmo assim pratica a arte da representação, contra todas as leis da suspensão da descrença, de forma tão inábil que só pode estar mesmo a querer realçar o poder que, enquanto suposto terceiro melhor jogador do mundo, adquiriu no futebol e que o leva a não ser nunca punido.

De Bruyne

Enganar é bonito, faz parte da vida, ensina-nos que por vezes há que quebrar as regras; enganar constantemente quando somos poderosos é execrável. Para mais, há algo de gratuito no seu suposto drama (levar o Brasil ao hexa): todo o grande jogador matreiro a ser excessivo tem de ser descontrolado, possuir (ou ser possuído pelo) pathos – vide Maradona. Mas Neymar é um grande jogador excessivo porém superficial. Mesmo tendo crescido pobre não joga para fugir de um destino trágico, aliás, aos 14 anos já era uma estrela. Joga para fazer uma nova tatuagem e exibi-la no instagram, para exibir novo mau penteado. A lei da irritação manda que apoiemos a Bélgica; o talento de Coutinho e de Neymar poderão muito bem obrigar-nos a mudar o apoio a meio do jogo. Mas tudo bem: a Copa é das poucas situações em que o adepto de futebol pode mudar de seleção no decurso de uma partida.