A sério? Mas será que estamos mesmo no canal certo? Estávamos mas não parecia, tendo em conta o posicionamento dos 20 jogadores de campo durante aqueles dez segundos que o público adora no Mundial da Rússia e onde pode fazer a contagem decrescente para o arranque do encontro: os suecos, com o pontapé de saída, arrastaram a sua equipa para o lado esquerdo do seu ataque em busca de um primeiro pontapé longo; os ingleses, na expetativa, inclinaram também o campo e ocuparam essa zona do terreno no seu meio-campo. A bola era redonda, podia ser oval — isto é futebol, mas se fosse râguebi não mudava nada.

A Suécia, esta equipa surpresa do Mundial que sofrera apenas golos num dos quatro encontros realizados na Rússia e que entretanto já tinha “despachado” conjuntos como Holanda, Itália (antes da fase final), Alemanha (fase de grupos) e Suíça (oitavos), não pode nem deve ser considerada uma daquelas equipas de “padeiros” que só sabe jogar com pontapé para a frente. Pelo contrário, fez com que os apaixonados do futebol se deixassem envolver com a ideia de jogo mais simples de perceber que é ao mesmo tempo uma das ideias de jogo mais complexas de travar. Esse era o grande desafio da Inglaterra, que ultrapassou o fantasma do desempate nos penáltis com a Colômbia e não mexeu uma peça na sua equipa inicial.

Maguire funcionou como desbloqueador da vitória inglesa, inaugurando o marcador à meia hora (YURI CORTEZ/AFP/Getty Images)

Os suecos não tiveram propriamente uma noite tranquila, porque um engraçadinho fez questão de acionar o alarme de incêndio no hotel onde a comitiva escandinava pernoitou em Samara, mas pelo menos ficaram com tempo para seguir o despique nas redes sociais entre dois monstros do futebol no século XXI: Zlatan Ibrahimovic, um dos grandes ausentes deste Mundial, desafiou David Beckham a pagar um jantar caso a sua seleção ganhasse e foi mais longe, mostrando-se disponível para ir apoiar a equipa rival num jogo em Wembley equipado a rigor; o inglês respondeu que, ao invés, desembolsaria o que fosse preciso pela peça mais cara do IKEA. Ganhou, livrou-se da despesa e ainda vai ter uma refeição à borla num restaurante em Los Angeles. E tudo porque o futebol tricotado dos Três Leões desmontou uma mobília assente na profundidade.

Ao anular Forsberg e ao condicionar por completo o raio de ação de Ekdal, o conjunto de Southgate obrigou os suecos a ficarem com um buraco de 40 metros entre defesa e ataque, isolando Berg e Toivonen na frente sem possibilidade de disputa de segundas bolas. Claesson, aos 12′, ainda teve um disparo muito por cima da baliza de Pickford, mas percebia-se pelos arranques de Sterling no corredor central e pelas combinações com Lingard e Dele Alli que era uma questão de tempo até o jogo cair para o lado dos britânicos. Aliás, a única surpresa, que olhando para o que se tem passado no Mundial, foi tudo menos isso: a Inglaterra chegou ao décimo golo na competição aos 30′, naquele que foi o oitavo no seguimento de bolas paradas.

Marcador? Harry Maguire. Que tem nome de personagem de filme, que se vestiu de Tom Cruise para fazer da Missão Impossível uma realidade, que deixou saudades na escola onde andou quando era miúdo e que era um aluno de notas máximas que trocou o futebol por uma carreira universitária algures entre a gestão e as matemáticas. Mas que, sobretudo, era um dos muitos miúdos ingleses presentes em França para apoiar a seleção no Campeonato da Europa de 2016. Nessa altura, com 23 anos, jogava no Hull City, era quase desconhecido e aproveitava o Verão para ir ver a bola e beber uns canecos com os amigos; agora, é por causa dele que mais jovens, adultos ou mesmo graúdos continuam na Rússia em festa. E a cereja no topo do bolo desta história foi mesmo o primeiro golo pela seleção principal inglesa ao final de dez internacionalizações.

A Suécia, que já não estava confortável em campo, ficou ainda pior. Passou de ideias zero para -10. E foi por pouco que, ainda antes do intervalo, Sterling não aumentou a vantagem: na sequência de um passe em profundidade de Henderson, o pêndulo que não se distingue tanto pelas recuperações de bola mas que é fundamental na primeira fase de construção, o avançado surgiu na cara de Olsen mas, no momento de fazer a finta, acabou por ser fintado por um pequeno toque na bola do guardião.

Tudo podia ter mudado no arranque do segundo tempo, mas Pickford explicou na primeira de três vezes o porquê de estar na lista de candidatos ao prémio de melhor guarda-redes do Mundial a par de Akinfeev ou Courtois: após um cruzamento na esquerda mais largo, Berg subiu mais alto do que Ashley Young e cabeceou para grande defesa do número 1 inglês (47′).

Um golo ali podia ter feito toda a diferença, um golo mais tarde fez mesmo toda a diferença: numa altura em que a Suécia revelava pela primeira vez neste Mundial uma estranha dificuldade nos lances aéreos defensivos, com desposicionamentos pouco habituais e falhas de marcação básicas, Trippier cruzou largo numa segunda bola e Dele Alli, na mesma zona onde estavam também Harry Kane e Sterling para a finalização, aumentou para 2-0 aos 59′ e praticamente sentenciou a partida.

Dele Alli fez assim o segundo golo da Inglaterra, num cabeceamento sozinho ao segundo poste (YURI CORTEZ/AFP/Getty Images)

A partir daí, houve substituições, houve paragens, houve até algumas quezílias, mas tudo se resume às tentativas suecas por parte de Claesson (62′) e Berg (72′) e às defesas com nota artística crescente de Pickford. Mas houve sobretudo muita festa por parte dos milhares e milhares de ingleses que invadiram Samara e que se preparam agora para uma afluência ainda maior na meia-final contra Rússia ou Croácia, marcada para o emblemático Luzhniki com cerca de 80 mil lugares. Até lá, vão continuar cheios de fé a cantar o grande hit da temporada: “Football’s coming home”, uma música criada para recriar o sonho de voltar a ganhar o Campeonato do Mundo de futebol depois da caminhada inesquecível alcançada como anfitriã em 1966. Para já, uma coisa é certa: 28 anos depois, os Três Leões estão nas meias-finais da principal prova de seleções.