Direitos LGBTI

Marcha pela autodeterminação sexual reclama no Porto “liberdade para amar”

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A defesa da autodeterminação dos homossexuais, bissexuais, lésbicas e transgénero juntou milhares de pessoas no Porto, reclamando "liberdade para amar" e o "direito a ser quem são".

RUI FARINHA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

A defesa da autodeterminação dos homossexuais, bissexuais, lésbicas e transgénero juntou este sábado milhares de pessoas na Praça da República, no Porto, que marcharam depois pelo centro da cidade reclamando “liberdade para amar” e o “direito a ser quem são”.

O encontro estava marcado para as 15h00, mas só pelas 16h00 a 13.ª Marcha LGBTI (Lésbicas, ‘Gays’, Bissexuais, Transgénero e Intersexuais) do Porto arrancou em direção ao viaduto de Gonçalo Cristóvão, para depois descer pelas ruas de Santa Catarina e de Passos Manuel e terminar, previsivelmente, pelas 18h00, na praça D. João I.

Ainda antes do início da marcha, a praça da República ficou repleta de bandeiras e faixas coloridas com as cores do movimento LGBTI, sendo muitos os cartazes onde se liam frases como “Antinatural é não ser feliz”, “Veto trans, vidas adiadas”, “Eu sou bi, não estou confusa” ou “Direitos intersexo são direitos humanos”.

Apesar do elevado volume da música vinda de um autocarro que encabeçava a marcha e dos gritos de ordem dos participantes, num dos bancos de jardim da praça um grupo de reformados jogava, como habitualmente, às cartas, aparentemente alheado do que os rodeava.

“É todos os anos isto, cada um é como é”, disse à agência Lusa um dos reformados. “Temos de respeitar os direitos de toda a gente”, acrescentou outro, rematando: “Acho um bocadinho de exibicionismo a mais, mas os gostos são relativos e é problema deles”.

Alguns metros ao lado, Diogo Vieira da Silva, diretor-executivo da Variações — Associação de Comércio e Turismo LGTBI de Portugal, uma das entidades participantes na marcha, apontou à Lusa como objetivo “chegar às 5.000 pessoas”, ultrapassando as 3.000 da marcha do ano passado.

Constituída no início deste ano, a Variações animou a marcha com um autocarro designado ‘Proudly Portugal’, o mesmo nome da campanha de promoção internacional do país enquanto destino LGBT que a associação diz estar “a trabalhar com o Turismo de Portugal”.

“Os turistas LGBT que nos visitam já são uma média de dois milhões por ano e temos de começar a tirar retorno financeiro daí, como faz o mercado espanhol, holandês ou francês, atraindo riqueza e criando postos de trabalho para a comunidade LGBT”, afirmou Diogo Vieira da Silva.

Segundo referiu, Lisboa surgiu no ano passado no 15.º lugar do ‘ranking’ de 100 cidades ‘LGBTI friendly’ elaborado por uma revista norte-americana, mas o Porto ainda não conquistou ali um lugar, sobretudo “por razões de estratégia pública”.

“A nível legal, Portugal está neste momento num patamar muito avançado, mas a nível de estratégia social e pública ainda há muito para fazer”, considerou, convicto de que “se o Porto se quer afirmar, como diz, na área cultural, tem de trabalhar com o público LGBTI, que é um público que cria tendências”.

Diana Barnabé, de 26 anos, e João Ribeiro, de 28, estrearam-se este ano na marcha LGBTI e apesar de, como “casal heterossexual”, não estarem ali “em causa própria”, fizeram questão de participar porque “acreditam na liberdade”.

“Nunca ninguém nos questionou porque estamos juntos ou se podemos ter filhos, mas conheço muitos amigos que por serem homossexuais foram questionados e oprimidos. Se nunca ninguém questionasse, provavelmente hoje ainda teríamos escravos, o nosso trabalho é questionarmos todos os dias até sermos mais e mais livres”, afirmou Diana Barnabé.

Ana Silva, de 51 anos, é, pelo contrário, participante “habitual” nestas marchas, “não por questões pessoais, mas por questões sociais e de direitos humanos”: “Acho que, apesar de termos uma das melhores leis de proteção destas comunidades, uma coisa é o que existe na legislação e outra coisa é o que existe na prática, em que as pessoas continuam a ser confrontadas todos os dias com questões de preconceito”, disse à Lusa.

Apontando como exemplos os casos em que membros da comunidade LGBTI “perdem trabalhos” ou não conseguem “realizar uma festa de casamento num restaurante” ou “comprar uma casa porque são um casal homossexual”, Ana Silva acredita que, “enquanto estas coisas acontecerem, faz todo o sentido que existam marchas, manifestações e tudo o que puder mudar mentalidades”.

“Isto é um processo que se vai fazendo caminhando e em Portugal tem-se caminhado — o facto de haver um parlamento a discutir uma lei de alteração de identidade de género é sinal de que o assunto se fala –, mas ainda não chegámos à meta”, considerou.

Já Pedro Ferreira, de 27 anos, recorda que a marcha LGBTI do Porto começou como uma homenagem à transexual Gisberta, assassinada há mais de uma década na cidade, e destaca que a iniciativa é uma forma de “dar visibilidade a uma causa”.

“Este tipo de iniciativas visa eliminar o preconceito e a discriminação que existem contra esta comunidade. E, apesar de estas terem vindo a diminuir, quando acabam umas lutas começam outras, pelo que mesmo que consigamos conquistar certos direitos há sempre outros que é preciso conquistar de ano para ano”, sustentou.

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