A Croácia enfrenta a Rússia nos quartos de final do Mundial depois de a equipa anfitriã ter feito cair com um tombo gigante a Espanha, na fase anterior da prova. No onze espanhol para esse encontro, Hierro havia preparado uma surpresa: Asensio era titular, Iniesta sentava-se no banco. À mesma hora, a cerca de 500 quilómetros de Moscovo, onde se disputava a partida, um croata preparava-se para o seu jogo (a Croácia enfrentava a Dinamarca nesse mesmo dia) enquanto punha em causa os seus conhecimentos futebolísticos. Falamos de Rakitic.

“Nesse momento, senti que não percebia nada de futebol. Pensava que estava a praticar outro desporto”, admitiu o médio croata em entrevista ao jornal espanhol El País, quando questionado sobre a ausência do companheiro espanhol do onze de La Roja. “Ver sentado no banco aquele que é talvez o melhor jogador da história na sua posição custa-me muitíssimo”, acrescentou Rakitic, que, ainda assim, explicou não ter ficado aliviado com a eliminação espanhola, uma das grandes favoritas à conquista do Mundial: “Uma grande parte do meu coração está em Espanha. Estava triste por eles, tenho muitos amigos e família espanhola. E não é como se os quartos agora fossem mais fáceis…”.

Rivais em Espanha, companheiros geniais na seleção croata. Rakitic e Modric são as duas estrelas maiores de uma constelação balcânica que sonha com uma conquista histórica (Créditos: Getty Images)

De facto, as ligações afetivas entre Rakitic e o país vizinho são fáceis de compreender. Entre Sevilha e Barcelona, há oito anos que o médio joga em Espanha, isto depois de ter passado pelos suíços do Basileia e os alemães do Schalke 04. As raízes da estrela croata, essas, são mais complexas: a mãe é bósnia, o pai croata e Ivan, de 30 anos, é suíço de naturalidade. Podia ter escolhido jogar pela Suíça – chegou mesmo a fazê-lo na seleção Sub-21 -, mas não seria a mesma coisa.

“Tomei essa decisão com o coração”, conta, não sem antes passar por um momento único na sua carreira, quando vestiu a camisola helvética para enfrentar os croatas no escalão Sub-17: “Lembro-me desse jogo como se fosse ontem, foi o que menos desfrutei na minha vida. Nesse dia, apercebi-me de que algo não estava bem. Também não teria gostado se jogasse contra a Suíça, é a minha casa. Sou um grande adepto da seleção Suíça, fiquei muito triste com a eliminação deles. Agora, espero que o povo suíço esteja comigo e com a Croácia”.

Ivan Rakitic, com a camisola da Croácia, a disputar uma bola com Admir Mehmedi, da Suíça, num encontro particular (Créditos: Getty Images)

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Rakitic escolheu a Croácia e no meio campo dos Balcãs encontrou um pequeno génio. “Modric torna a sua vida mais fácil?”, pergunta-lhe o El País. “Sim, dá para desfrutar e muito. É um orgulho para todos os croatas ter um jogador com o Luka. Não só pelo que faz em campo, também é um líder fora dele”, atira Rakitic, que até é rival de Modric no campeonato espanhol, mas não se poupa nos elogios ao médio do Real Madrid: “Não me custa vê-lo em Madrid. É um jogador que tem um talento único, torna melhor qualquer jogador à sua volta. Quando não está em campo, toda a equipa nota e o Real é uma equipa diferente sem ele”, explica.

Modric é o parceiro perfeito no meio campo croata, Iniesta foi eliminado antes de se poder cruzar com Rakitic, mas Messi não escapou à caminha croata neste Mundial. A Croácia defrontou e venceu a Argentina na fase de grupos, mas nem por isso Rakitic viu a prestação do astro argentino como negativa. “Quero o Leo na minha equipa, sempre. É, de longe, o melhor do Mundo. Mas não é o mesmo jogar na seleção ou no clube, acontece com todos”, contou, explicando como se preparou a Croácia para o encontro com os sul americanos: “É uma motivação especial jogar contra o Messi e a Argentina. Preparámos essa partida ao detalhe, fechámos bem as linhas de passe e apertámos na defesa. Se a bola não chega em condições aos avançados, é muito mais complicado para eles”.

Rakitic e Messi cruzaram-se em Nizhny Novgorod, quando a Croácia enfrentou e venceu a Argentina por 3-0 (Créditos: Getty Images).

Se o que Rakitic faz dentro de campo é minuciosamente detalhado, a sua preparação fora dos relvados não é menos cuidada. Até porque, um pouco por acaso, o médio do Barcelona descobriu um problema de saúde que lhe mudou a vida: é celíaco. “Tive alguma sorte. Uma análise detetou que era celíaco, que não podia comer glúten. Acontecia-me muitas vezes, depois dos jogos, sentir-me bastante mal, inchado. Acabava por não recuperar tão bem”, explica Rakitic, continuando: “Mudei a minha alimentação por completo. Só bebo água, nada de Coca-Cola. Comecei a trabalhar com pessoal especializado e isso ajudou-me muito”.

Caso único no desporto? Longe disso. Novak Djokovic, estrela sérvia do ténis, sofre do mesmo. “Ele tem um pouco pior do que eu porque é intolerante a certos alimentos. Mas é algo parecido, porque desde que mudei os hábitos recupero muito melhor. O intestino já não me dá problemas. Ao início parecia que não importava, mas depois percebi que fiz o correto ao mudar”, confessa Rakitic.

E a Croácia campeã do Mundo Rakitic? “Sonhar é bom, mas o mais importante agora é ganhar à Rússia”, atira o número sete croata. E a Rússia que se prepare, pois Modric e Rakitic já provaram que, juntos, podem levar esta Croácia mais longe do que alguma vez foi.