Charlie Rowley, o homem de nacionalidade britânica que foi exposto ao agente nervoso novichok no Reino Unido, já recuperou a consciência, informou o hospital de Salisbury. O homem de 45 anos estava internado há quase duas semanas depois de ele e a companheira, Dawn Sturges, terem estado em contacto com  o mesmo químico usado para atacar o ex-espião russo Sergei Skripal e a filha, Yulia, em março deste ano. Dawn Sturges não sobreviveu ao ataque e morreu uma semana depois de ter sido internada. Quanto a Charlie Rowley, o estado de saúde do britânico “permanece crítico, mas estável” porque “teve uma pequena mas significativa melhoria”.

Enquanto as autoridades se esforçam para entender como é que os dois foram intoxicados com o mesmo agente químico que afetou Yulia e Sergei Skripal, novas informações sobre o produto vieram à tona: novichok, um agente usado entre 1971 e 1993 primeiro pela União Soviética e depois pela Rúsia, pode permanecer ativo durante cinco décadas se for armazenado num recipiente. De acordo com os investigadores debruçados sobre este assunto, é possível que Charlie Rowley e Dawn Sturges tenham “pegado num recipiente com novichok na época do ataque com Skripal, mas que só o tenha aberto agora”.

É por isso que, embora considerem que o risco de exposição seja baixo, as autoridades estão a aconselhar os habitantes de Salisbury a deitar fora quaisquer recipientes ou objetos desconhecidos que transportem líquidos ou géis. Apesar disso, as buscas pelo foco da exposição está mais concentrado numa áres específica dos Jardins da Rainha Isabel, que fica nessa cidade. A investigação pode durar meses até chegar a bom porto, mas o facto de Charlie Rowley ter recuperado a consciência pode acelerar o processo: quando estiver capaz, o homem de 45 anos pode contar à polícia em que objeto mexeu antes de ser infetado.

Casal envenenado em Inglaterra esteve em contacto com objeto contaminado

Para encontrar o agente nervoso a que os dois britânicos estiveram expostos, os investigadores — todos eles voluntários tiveram de vestir fatos protetores e explorar a região suspeita debaixo de temperaturas na ordem dos 40ºC. A cada quinze minutos, esses voluntários eram retirados do local e só podiam levar até três possíveis amostras para o laboratório. Sempre que entravam ou saíam do jardim onde as operações de busca estão a ser lavadas a cabo, os especialistas faziam testes de sangue para se assegurarem que não tinha sido expostos ao novichok. Só o processo para se vestirem e ir para o campo demora 40 minutos.

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Esses testes feitos ao sangue são úteis porque o efeito do novichok não é imediato: normalmente demora entre três e doze horas até que os primeiros sintomas começem a revelar-se — por isso é que o casal britânico pode ter sido atacado ainda no dia anterior. Depois de entrar no organismo, este agente nervoso provoca a inibição de uma enzima que impede a degradação de um neurotransmissor chamado acetilcolina. Quando a quantidade desse neurotransmissor aumenta, isso provoca a contração involuntária de todos os músculos ligados aos ossos. O organismo sofre então uma paragem cardiorrespiratória porque o coração e o diafragma dos pulmões deixam de funcionar. Se não morrer com a paragem cardiorrespiratória, a pessoa atacada pode ainda sufocar quando os líquidos invadem os pulmões.

Se o novichok não estiver contido e circular livremente na atmosfera, ele não representa perigo para a vida humana, por isso Charlie Rowley e Dawn Sturges só podem ter estado em contacto com algum frasco que continha o produto. No entanto, as autoridades não acreditam que os dois tinham sido propositadamente atacados: acham que “tiveram apenas azar” e que estavam “no lugar errado à hora errada”.