Havia hipóteses para todos os gostos. Para quem não liga muito, o França-Inglaterra era a final mais interessante. Para os mais românticos que olham para as filosofias de jogo, ter Bélgica e Croácia num só encontro a disputar o título vinha mesmo a calhar. Para os amantes dos trabalhos a médio/longo prazo da base aos seniores, o Inglaterra-Bélgica era de sonho. No entanto, o futebol é e deve ser um reflexo dos méritos de cada uma das equipas e esta tarde teremos um França-Croácia.

Sem querer estragar nem ser um spoiler sobre o que se irá passar a partir das 16 horas, há algumas coisas que podemos antecipar. Por exemplo, e se pensar que às 17h50 teremos um novo campeão do mundo, o melhor é rever as contas das horas: em quatro das últimas seis finais houve prolongamento e duas chegaram mesmo ao desempate através de grandes penalidades (Brasil-Itália em 1994, Itália-França em 2006). Depois, os golos – como recupera a Marca, além de haver médias baixas nas finais, quem marca primeiro costuma ganhar (1974 e 2006, resolvido nos penáltis, foram as exceções). E ainda há uma “maldição”, porque o melhor jogador das últimas cinco edições nunca ganhou o troféu coletivo, e um alento extra para a Croácia – Uruguai, Itália, Alemanha, Inglaterra, França e Espanha venceram na primeira vez que chegaram à final.

Há um França-Croácia na memória de todos que se disputou no Campeonato do Mundo de 1998, a contar para as meias-finais, com o triunfo dos gauleses por 2-1 com um inesperado bis do defesa Thuram. Todavia, traçar qualquer paralelismo entre o jogo desta tarde em Moscovo e esse encontro em Paris torna-se um exercício errado. E a vários níveis: os dois conjuntos têm gerações e momentos internos distintos; a experiência a nível de finais disputadas nas seleções é distinta; a identidade de jogo e as características das unidades do meio-campo, por exemplo, não têm nada a ver. Assim, e agarrando no que se passou nas partidas anteriores, podemos traçar cinco pontos chave que farão a diferença no Luzhniki Stadium.

Com ou sem bola, o rendimento de Griezmann vai decidir o jogo

Questões físicas à parte, é muito provável que Zlatko Dalic mantenha a aposta em Brozovic, um médio com instinto recuperador mas que junta a isso qualidade na construção de jogo, dando assim terrenos mais adiantados a Modric, no vértice mais ofensivo do triângulo do corredor central da Croácia para apoiar os avançados Rebic, Perisic e Mandzukic. É aqui que entra em cena Antoine Griezmann, a estrela com maior sentido operário neste Mundial: o avançado não tem problemas em tentar fazer a diferença sem bola, com ou sem posse (aliás, tem mais quilómetros corridos com o adversário em posse…), descendo para condicionar a “casa de máquinas” que pensa o jogo croata ao mesmo tempo que surge nas suas costas, naquele espaço entre meio-campo e defesa, para ser uma referência nas transições rápidas, lançar o supersónico Mbappé, criar superioridade numérica nas alas ou desequilibrar os centrais contrários na área. Se o dianteiro do Atl. Madrid for um dos melhores em campo, é mais do que provável que a França leve a melhor sobre a Croácia; se passar ao lado do jogo, o jogo também passa ao lado da França. Modric deverá ser sempre o MVP do Mundial; Griezmann pode ser o da final.

Griezmann destaca-se no ataque mas é nos equilíbrios defensivos que tem feito a diferença (KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP/Getty Images)

Quando as pernas falharem, até onde aguenta o coração?

Se existe uma característica que define o jogo do conjunto de Didier Deschamps é a parte física. Dois centrais de qualidade, altos, rápidos e duros quando necessário; um meio-campo assente um unidades de recuperação de bola, incisivas sobre o portador, com capacidade de explosão, casos de Kanté, Pogba ou Matuidi. Do outro lado encontramos uma equipa com três prolongamentos em cima, com menos um dia de descanso, que tem o avançado Mandzukic em dúvida, que anda por arames ao ponto de Rakitic ter estado com febre antes do jogo com Inglaterra, onde perdeu quatro quilos. Esta é a grande dúvida: diante de um adversário com estas características, com as quais a Croácia não se dá bem (basta recordar o triunfo nos penáltis frente à Dinamarca, num dos encontros menos conseguidos neste Mundial), como vai o conjunto de Dalic aguentar-se? E, quando as pernas começarem a falhar como aconteceu com os britânicos, até onde consegue ir o coração destes balcânicos?

A Croácia está a viver um conto de fadas, mas conseguirá seguir assim com três prolongamentos em cima? (FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)

Como parar Mbappé e as suas arrancadas em versão Bolt?

Os adversários de França têm utilizado diferentes formas de tentar tomar conta da grande figura da formação gaulesa no plano ofensivo, seja de forma individual com reforço da marcação à zona sempre com dois elementos, seja com linhas mais juntas que tirem ao jovem avançado francês o seu habitat natural: o espaço. Dalic terá um plano de ação e será improvável que fixe um marcador direto em Mbappé, tendo em conta a mobilidade do jogador na frente; no entanto, a forma como a equipa sai em ataque organizado e, sobretudo, recupera em transição defensiva será uma das chaves do encontro, até pela má experiência na primeira parte do jogo com a Inglaterra em relação a Sterling (que tem menos golo do que o jogador do PSG). Anulando a versão com bola de Usain Bolt, a Croácia tira mais de 50% de capacidade ofensiva à equipa gaulesa.

A capacidade de explosão de Mbappé tem feito estragos. E muitos. A Argentina que o diga… (Catherine Ivill/Getty Images)

O grande desafio para a revelação Pavard e para Lucas Hernández

A França sofreu um golo de penálti da Austrália ao longo da fase de grupos (ficou em branco com Peru e Dinamarca); consentiu três no duelo com a Argentina e voltou a terminar o encontro a zeros com o Uruguai e com a Bélgica. Daqui, a única coisa que se retira, e que é óbvia, passa pela consistência defensiva da equipa, alicerçada também naquele que tem sido o melhor guarda-redes da prova, Lloris. No entanto, este será o grande desafio para os laterais, nomeadamente Pavard, que tem sido a grande revelação de Deschamps na Rússia: a forma como a Croácia coloca três unidades móveis na frente – Rebic, Perisic e Mandzukic – sem permitir posicionamentos defensivos nas laterais contrários, bem como os movimentos interiores um pouco como Di María fez nos oitavos de final (com os estragos conhecidos), colocarão novos problemas aos jovens jogadores gauleses, que terão também de dosear as descidas ao meio-campo contrário por causa dos espaços nas costas.

Modric tem carregado a equipa ao colo, mas os movimentos dos avançados também causam mossa nos adversários (MANAN VATSYAYANA/AFP/Getty Images)

As bolas paradas, que podem decidir para os dois lados

A seleção inglesa é o exemplo paradigmático da importância que os lances de estratégia assumem numa fase final de uma grande competição, com nove dos 12 golos apontados na Rússia a surgirem de livres diretos ou laterais, cantos ou penáltis. Em Moscovo, as duas equipas têm armas mais do que suficientes para desequilibrarem nesse particular, como aconteceu nos quartos de final ou nas meias-finais. Em condições normais, e olhando para as alturas médias das duas formações, é normal que a França tenha outros argumentos na sua área em bolas paradas defensivas, mas os centrais croatas, Lovren e Vida, conseguem ser tão fortes nesses lances como os gauleses Varane e Umtiti. E recuando 20 anos, basta recordar que, no jogo mais complicado para a França no “seu” Mundial, o triunfo com a Croácia em Paris acabou por cair dessa forma…

França ganhou a meia-final à Bélgica com um golo na sequência de bola parada de Umtiti (CHRISTOPHE SIMON/AFP/Getty Images)

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