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As afirmações de António Costa e Augusto Santos Silva sobre o futuro da atual solução política “são complementares, não são contraditórias”, considera Marques Mendes. O comentador diz que o primeiro-ministro e o seu número dois até pensam o mesmo, mas isso não é “politicamente correto” porque é preciso garantir a estabilidade política.

Marques Mendes defende que não há mesmo nada que separe Costa e o ministro. “Santos Silva disse aquilo que também António Costa pensa, só que não é politicamente correto” afirmá-lo neste momento, porque há um Orçamento do Estado para aprovar até ao final do ano e porque esse é o passaporte que garante que a legislatura chega ao fim.

Não houve, por isso, falta de sintonia no núcleo político do Governo, defende. “O primeiro-ministro estava a falar do presente, Santos Silva estava a falar do futuro”, diz o comentador. Tudo a pensar no próximo — e último — Orçamento da legislatura, um passaporte para 2019, a garantia de que o acordo à esquerda chega ao final da corrida.

Marques Mendes acredita que essa primeira barreira será mesmo superada e que o Orçamento vai ser aprovado. Longa vida à geringonça? Nem por isso. A atual solução política, diz Marques Mendes, tem mesmo os dias contados. “PS, Bloco de Esquerda e PCP [e PEV] podem entender-se em muita coisa, não se entendem em nada de estrutural”, o que significa que “não vamos ter nenhuma geringonça depois de 2019, nem geral nem parcial”, antevê o comentador político.

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Ora, é este cenário que cria um problema de governação a médio prazo. É que, sem parceiros à esquerda, ou há maioria absoluta ou há “o pântano”, volta a defender. Esse “pântano”, anunciado há 18 anos por António Guterres, pode voltar em 2019 com um PS em minoria, sem apoio parlamentar à esquerda e (aparentemente) indisponível para fechar acordos alargados à direita.

A última semana política teve dois momentos chave. Um, foi a entrevista de Santos Silva ao jornal Público, em que o ministro repetiu aquilo que já tinha dito ao Observador no congresso do PS. Outra, foi o debate sobre o Estado da Nação. Sobre esse segundo momento, Marques Mendes considera que no debate do Estado da Nação ficou claro que o país “está melhor”, mas também isso é “normal”, diz Marques Mendes. “Já não temos bancarrota, já não temos a troika e temos a economia europeia ajuda”, resume.

Ainda assim, Marques Mendes deixa três notas sobre o momento que o país atravessa. Uma sobre a Economia, onde até “estamos a crescer” mas menos que países como a Irlanda que também passaram por um pesado resgate financeiro. Por isso, “temos de fazer reformas”.

Outra, sobre a Saúde em Portugal. “O nosso SNS todos os anos perde qualidade e os portugueses sentem-no” e a prova está num número: mais de 2,5 milhões de seguros privados de saúde, “e não são milionários”.

Terceira, a sustentabilidade da economia. E, aí, são precisas “políticas estruturais e reformas de fundo” em áreas como a Segurança Social, a Demografia e a Competitividade. “Não chegam as reversões e a distribuição de rendimentos, é preciso ir mais longe”, defende o comentador.